quinta-feira, 30 de junho de 2016

Chuva


Sendo em si entidade múltipla,
Da qual é una a consciência,
A chuva precipita-se dos céus,
Cantando ao ritmo do tocar na terra
Que em seco é lama sem saber.
Lava das pedras as marcas
Do pó, num abraço húmido,
E beija a pele dos que, sentados
No campo, se apaixonam
Pela simplicidade fria que é de cada gota.
No fim, o Sol desponta e as flores sorriem,
Tomando da chuva inspiração
Para viverem.

Ayalal,
02.Sarenith.4699

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Palavras que são veneno


Quando imbuídas em veneno,
As palavras são moléstia que consome
Dos fracos o espírito e acicata
As violentas hostes da ignorância.

Ayalal,
25.Gozran.4699

terça-feira, 28 de junho de 2016

A magia do dedilhar


A magia do dedilhar,
Que da lira afaga o corpo,
É de Shelyn dádiva e condão,
Concebidos ao nascer.

É suave o toque que na corda
À nota insufla vida,
E a sua sonância é dom
Que, ao escutar, fascina.

A melodia toma o espírito,
E da consciência rouba a lógica,
Para que possa dançar livre,
Com cada um dos sentidos.

Ayalal,
31.Desnus.4699

segunda-feira, 27 de junho de 2016

De dentro do detalhe que o molda


De dentro do detalhe que o molda, 
Atenta e escuta o que conta.
Numa língua sem palavras,
O búzio murmura os sons
Íntimos do aconchego do profundo,
E do voo alto da gaivota
Que toma nas asas a liberdade do céu.
São segredos de Gozreh, ditos
No dialecto da onda e do marulhar,
Aqueles que a espiral guardou em si,
Junto com as correntes do mar.


Ayalal,
22.Desnus.4699

domingo, 26 de junho de 2016

Abre a mão e observa


Abre a mão e observa
Cada um dos trilhos demarcados.
É o teu mapa de hipóteses,
O teu guia de perspectivas.

Entre encruzilhadas, bifurcações,
E labirintos sem saída,
Há caminhos que, sobrepostos,
Abrem vias desconhecidas.

Planos não ponderados,
Dimensões por imaginar.
Após a escolha desse passo,
Não há passo a recuar.

Porque o passado permuta
As hipóteses que o futuro conjuga,
E o que hoje é presente
Pode nunca vir a existir.

Por isso escolhe, fecha a mão
E agarra o futuro. Segue.
Se olhares para trás, guarda a lembrança,
É tua e do que há-de vir.

Ayalal,
20.Desnus.4699

sábado, 25 de junho de 2016

Diz-me, que razão te move



“Diz-me, que razão te move,
Na saga que é a vida?”
Move-me a certeza de ver
O teu sorriso a cada dia.

“E se não houvesse sorriso
Que pudesses vislumbrar?”
Se assim fosse, mover-me-ia
A esperança de o encontrar.

“E se esse sorriso partir um dia
Para não mais voltar?”
Mover-me-ia a lembrança
De que esse sorriso morreria
Se me visse parar.

Ayalal,
03.Desnus.4699

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Efémera, a borboleta é alma


Salvador Dali

Efémera, a borboleta é alma
De sopro leve, que se eterniza
Num breve bater de asas.
Que seja o seu voo alento
De ser livre e viver.

Ayalal,
16.Gozran.4699

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Olha-me, vil demónio


Olha-me, vil demónio,
Vê o que não podes discernir
Da alma, cerne muralhado,
Sem defesas de espinhos içados,
De portões abertos, onde,
Padecendo, és incapaz entrar.
Vê, demónio, a fortaleza aberta,
Aquela que, tomada por mim,
Não irás conquistar.

Ayalal,
25.Gozran.4699

Escuta os espíritos que habitam



Escuta os espíritos que habitam
O sopro do vento.
O seu fôlego percorre as léguas
Que são composição do mundo,
E em cada uma dão fracção de si,
Tomando parte do percorrido.
Eles são memória incorpórea
Do que é esquecido mas divino.



Ayalal,
14.Gozran.4699

Há na multidão



Há na multidão
A cacofonia que a distingue: 
O clamor e o gemido,
O choro da criança,
E do descrente a prece,
Quando é milagre o intrujar;
A gargalhada que se sobrepõe
À doce lírica do riso,
E o silêncio,
Que é de tantos mas vagueia
Entre a maré, despercebido.


Ayalal,
03.Gozran.4699

terça-feira, 21 de junho de 2016

Há uma Sombra na solidão



Há uma Sombra na solidão,
Que, sem ser do corpo que a possui,
É do espírito assombração.

Quando no silêncio quedo
E me debruço de pena em mão,
Ela inclina-se e espreita
O que me vai no coração.

Escondo-o, que não o possa ver,
Abrigo-o do seu aperto
Voraz, que o quer sorver.

A pena desliza, letra a letra,
Transcrevendo do sentir, do pensar,
Aquilo que com dedos de aranha
A negra Sombra quer tomar.

No fim, apago a vela e fecho a alma,
Doa a solidão o que doer;
Que a Sombra feneça sem comer.

Ayalal,
25.Gozran.4699

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Mão na mão



Mão na mão,
Debruçados à beira-mar,
A maresia beija-nos os sentidos
Enquanto, distraídos,
Conversamos em silêncio
Com o marulhar.

Ele conta-nos as histórias
Do ir e do voltar,
E dos que não mais voltam;
Da ária da sereia que embala a onda
Para a incitar a dançar
Na tempestade que traga o céu.

No fim, o sussurro é tímido.
Fala-nos do seu amar
Por aquele que do horizonte foge
Para se pôr ao largo,
E repousar a sua vida
Nos braços do mar.

E nós contamos-lhe, sem falar,
A pequena história que existe
Somente nas mãos dadas
E no olhar que, sem palavras,
É ele próprio um mundo,
De histórias por contar.

Ayalal,
23.Pharast.4699

domingo, 19 de junho de 2016

Hoje há no céu um dourar



Hoje há no céu um dourar
Do nascer que alumia
O despertar.
O canto das aves,
O clamor do homem,
Que nas docas acompanham
O marulhar,
Vivem, que é da vida
Que partimos
Para nos encontrar.


Ayalal,
20.Pharast.4699

Cada lágrima sua



Cada lágrima sua
É pérola pura
De tristeza, d’alento,
De ser, na inocência,
Filho d'alguém
Que é inexistência;
De não ter na pequena
Mão estendida,
A pequena medida
Do aperto que, suave,
A acarinha.

Ayalal,
05.Pharast.4699

sábado, 18 de junho de 2016

Nos teus olhos vejo o cerúleo



Nos teus olhos vejo o cerúleo
Do céu que me abarca.
Doce, o seu toque é brisa
Que insufla o sonho desperto,
Puro, qual anjo que me sorri.

Nele espelha-se o calor
Daquele abraço que envolve
E toma de mim
O pensar da lógica, a razão
De ser, quem serei?

Disso somente sei que sou
Desse olhar límpido onde o Sol
Vive, tão vivo.
E, perdido, encontro nele,
A maior parte de mim.


Ayalal,
27.Calistril.4699