sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Vazio


Fog, by Flugcojt

Dor?
Não a sinto,
Que sou um pedaço de vazio
Resgatado à corrente vaga do nada.

Puro e impuro. Depuro
Todos os termos que são nada
E eu um tudo,
Vago o conceito de ser um ser,
Se é certeza o não ser incerto.
Incompleto o doer de ser,
E por isso não serei,
Meu amor vazio,
Que não te sinto.

E o que te leva a sentir?
Pergunto, discreta, em murmúrio fosco,
Que o não ouvir canta em sinfonia leda
E o escutar é martírio à alma.

Por isso não respondas,
Que não te ouvirei.
O vazio é surdo.

Não te entreponhas entre mim
E a díspar cor que não vês.
Que o vazio é cego.

E não me oiças.
O vazio não é mudo,
Mas não sente o que diz.

E o que não é vazio é defunto,
Meu defunto amor, que sou vazio,
Aquele que vagueia em tudo
Na esperança de te sentir.

domingo, 22 de novembro de 2009

Caminho entre o Mar

Desmontou do cavalo e colocou-se lado a lado com Landar. Atirou a capa para trás das costas, de forma a não lhe estorvar os movimentos. Enquanto isso, Liriana colocou Karai no chão, antes de ela própria abandonar a sela de Sirin. Não ousou perguntar o que iria fazer a irmã. Talvez invocar uma embarcação caída dos céus.
- Ai, tenho de ver este espectáculo – comentou Leonardo, posicionando-se ao lado de Alexis, de braços cruzados. – Vocês as duas venham também. A última vez que alguém viu isto foi há já alguns milénios atrás.
O que poderia animar o necromante assim tanto, levando-o ao termo de usar exageros que incluíam vastas porções de tempo? Aproximou-se, levando Karai pela mão e esperou para ver o que aconteceria.
Alexis arregaçou as mangas da camisa até aos cotovelos, mostrando o quão pálida era a sua pele. Esticou os braços à sua frente, e anuiu-os pelas palmas das mãos, em direcção a Este. Após assumir aquela posição, as palavras brotaram-lhe dos lábios, num tom alto de invocação que os rodeou e se espalhou pelas profundas águas em redor.
- Deminir ê phoroin vir danark, ye falanar theluin se ulidarn. Lessir ê Thornigan vir certhon, gladh, milno kandell, dyrin ye sar. Voloner aferi ceri vir kirdanl sem argani, jian iemorion se uthillavar vuanor. Lessir damar fyoni, milne halnaners ceri lnimars iemorsa bredins holunner.(*)
Para Norte e Sul, as ondas embateram de encontro aos rochedos com mais força, espumando de forma quase agressiva, enquanto tentavam trepar por eles acima. Na praia, as gaivotas levantaram voo súbita e simultaneamente, deixando algumas penas para trás, ao verem que as ondas se aproximavam das suas patas de forma anómala, como se a maré mudasse inesperadamente. A superfície do mar tornou-se mais turbulenta, como se os movimentos na massa de água modificassem as correntes radicalmente.
Sentiu um puxão na mão quando Karai se aproximou mais da beira do monte, espreitando curiosa para o fundo. Os sedosos cabelos brancos pendiam soltos da trança em finas madeixas que pareciam puxá-la para baixo, através da gravidade. No local onde a criança focava a sua atenção, um sulco em linha recta começou a aprofundar-se sobre as águas que rugiam em fúria não reprimida, separando as partículas quase infinitas em duas partes distintas. E entre essas duas porções de água, abriu-se um trilho forrado a areia molhada e flanqueado por dois muros de água que iam crescendo em altura, à medida que o caminho descia, até às profundezas do Mar do Interior.
Alexis baixou os braços, observando o seu feito num tom crítico. O caminho que atravessava as descobertas entranhas das águas deveria ter no máximo três metros de largura. Mas quantos não seriam os de comprimento, ao longo de todo ele, assim como os de altura? Iria ser uma viagem claustrofobicamente inesquecível.
- Acabaram de conhecer a encarnação de Moisés! – Disse Leonardo, com um sorriso de orelha a orelha.
Apesar do tom divertido da afirmação, não deixou de concordar de todo com o significado inato. Nada poderia descrever o poder contido no feitiço que Alexis proferira. Se ouvira falar dele, fora muito remotamente, quando lera o livro dos Deuses. Não atentara em muitos dos feitiços por lhe parecerem pouco práticos ou mesmo inúteis. Deveria ter catalogado este com o mesmo título. Mas eis que revelava a sua utilidade, uma utilidade que ultrapassara a sua imaginação.

(*)Adentro o profundo se encobre, em vagas negras de escuridão. Quando o Sol se extinguiu, cresceu por consumir, fechado em si. Mas eis que se abre à luz, trilho este de passado oculto. Quando perdido encontrado, pelas palavras que invocam esse caminho encerrado.

(excerto do Prín.)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Suserana da Noite


Dancers in the Dusk, by Puimun

No entardecer que o céu ilustra
A laranja e carmesim,
Diviso um final firme no horizonte
Onde se encerra o mistério pardo.

Que quando for rei o crepúsculo
No seu mísero reino de tempo nenhum,
Abrirá os sete cadeados fechados
E libertará o escondido no além.

Além, muito para além, aguarda a noite.
Trajada em veludo de escuridão,
Marchetada de jóias em ouro e prata.
Que se erguerá a suserana.

Liberta por fim e viva, que é bela,
A donzela do luar formoso,
É fogo ebúrneo que se acende,
Para os amantes do profundo,

Que a sua cantiga é solidão,
Mas alegre solidão de melancolia.
Um sonho áureo de tempos antigos,
Que foi ontem real, ontem, tão distante.

Hoje é lenda e amanhã será mito,
O da senhora suserana de além um dia.

Para a Fifi ^^

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Boneca de Trapos

Silêncio. Um ténue raio de sol penetrava através das fendas estreitas da madeira apodrecida de velha, alumiando o pó que flutuava etereamente em seu redor, uma chuva que revolteava ao mero sopro e não molhava ou era fria. Esticou o pequeno braço branco, fechando a mão sobre o pó. Aqueles fragmentos ínfimos faziam parte de si, crepúsculos de um inato que se desfazia e se escapava através do tecido que era a pele fina, compondo a atmosfera abafada que se revolvia, no lar de solidão que habitava.

Antes, não dava especial atenção àquelas partículas. Só pensava nos sorrisos de alegria que revibravam vivos naquela mesma casa, sorrisos que ela própria fazia sorrir, alimentando-se de carinho e amor, tal como era ela alimentada. Mas agora ninguém a alimentava. Há quantos anos passaria fome? Esquecera-se do passar do tempo naquela cabana apodrecida do topo da árvore. À sua frente, repousava uma chávena de chá inundada em água turva. Conseguia ver o seu reflexo no líquido que nunca evaporara e ali permanecera, o chá que partilhara com a sua senhora menina que um dia partira. E ali a deixara viver de sede, sede de querer ser abraçada novamente, sequiosa daquele toque suave, do pente nos seus cabelos de tiras castanhas, agora também poeirentas, ruídas pelas traças incessantes, tão esfomeadas quanto ela. Ao contrário da sua pequenez pessoa que nunca fora, os insectos tinham o que comer. Comiam-na a ela e à sua mansão. Comiam o que era seu. Talvez também tivessem comido a sua senhora menina, aquelas térmitas desditas.

Deixou pender o braço que erguera para apanhar o pó que era seu, e a casa caiu, tal como a vontade de viver da pequena boneca de trapos.

(Não saiu nada do que eu queria -.-')

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Ditador



Crown Without a King, by Rawimage

Misericórdia? É um conceito inglório
De cruel ventura ditada aos fracos.
Não possuo eu o que me é vão.
Que da complacência ganho um marco
De rocha erodida, a abater,
Promontório cadente. Mas não cairei,
Dito a Vontade e sou a Lei,
Legado do frígido fogo do poder
Que constrange e silencia,
Que incendeia e queima em cinza
A alma viva que é a morte que almejo
À sua vontade caída.

(Capítulo VIII - O Príncipe Akuirien, do Prín)

domingo, 25 de outubro de 2009

Decaimento


Decay, by Sephiroths Heart

Decresço.
Do ínfimo ponto a que chamam alma
Sobram réstias de véus rasgados,
Antros molestados por térmitas
Da carne.

Floresço.
Que com pétalas murchas
Movo mundos mortos em dor,
Donde os gritos são cantos de musas
E Parcas.

Vivo.
Sabe a vida o que é viver
De crânio em mãos se a questão
Por saber é ser ou não ser,
Que não sou.

E morro.
Se não é a imortalidade que oiço,
Insanidade de mente caída
Esta que mendiga migalhas
Ao coração.

sábado, 24 de outubro de 2009

Agradecimento


Com este post quero agradecer ao Afonso pela honra de me ter premiado com este selo.
O seu blog é um local tocado por uma enorme sensibilidade, que muitas vezes não consigo incutir aos meus poemas. Os meus parabéns ao seu trabalho e aos seus sentimentos.

Beijinhos!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Deus das Alturas


God of Thunder, by Suirebit

Do Nunca era aquele que se perdeu
Lá em manhãs de gelo áureo.
Acerbo de paladar corpóreo,
No tinir álgido de pedra dura.
Sendo ele o que ficou tisnado
De fogo em frio, assim queimado,
Lá no Nunca das Alturas.

Que quem o via bem dizia
“Ai de nós, que se nos dissolve o pranto,
Do peito caído, de coração aberto”,
Conquanto se queda desta altura,
E demorada a queda é vontade
O voar plúmbeo da verdade
Viva se vã que das alturas o esconjura.

Mas ele não cai, é perene ao frio
E do vento irmão de comunhão sagrada.
É sabido assim deus do que foi,
Do Nunca que um dia marchou
Nas alturas do devaneio em vida,
Real ventura a que foi um dia
E que ao largo em si ancorou.

Então, aqui fica a lenda,
Dos que ascenderam e tombaram.
Fica, mas não se esvai,
Que o almejar é perpétuo querer
O de um dia esse deus despertar,
E ao seu povo dormente retornar,
Das alturas a que se elevou ao morrer.

Dedicado a'O Bar do Ossian

sábado, 10 de outubro de 2009

Coração do Mar

Escuta o marulhar fresco
Que te chama em tom de água.
Que é gélido o seu apelo,
De negro o soar contido.
É voz trémula de mágoa,
Esse grito rouco em gorgolejo...
Que és só tu e tu o seu desejo,
Esvanecido na lassidão.
De profundo em profundo,
Mais que profunda imensidão,
A daquele abismo íngreme
Para os confins do coração.

(Prín - Capítulo VII - O Mar do Interior)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Corpo e Alma


Body and Soul, by -Sylph-

De quanta da alma rubra
Sabe o Ser nos dizer,
Se expectante se destila nula,
Vazio imberbe do saber?

Pois não sabe a conta
De em quantos fragmentos pintou
O limite do ser, a afronta
Do não saber, que se quedou,

A marca corpórea do espírito,
O ponto aberto à alma.
Cerrou-se ao corpo o desdito
Invólucro interior que o embala.

Então, acordou o dormente,
Orbes vítreos de não ver,
Pintados em cor de demente,
Rubra a mancha do ser.

Que era em sangue o traje vestido
E o trilho suave demarcado.
Este morto, aparente no vivo
Carnal, do corpo pecado.

E estirada a vida sem Ser,
De espírito morto liberto,
Ledo sabe o sossego de ver
Esse limbo de mundo incerto.

Aquele onde, por fim, floresceu,
De pétalas assim marchetadas
Em miríades de espírito meu,
As sapientes almas danadas.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Almas do Engano


Lightning Spirits, by hibbary

Se andas a coberto do que pensas ver,
Desengana o resto que te diz que sim,
Que o dizer da mentira não se diz,
Só se concorda pela alma fraca,
Enredo obtuso de falhas caídas,
Com que recorto, rindo,
O clamor perdido
Das ditas almas.

As minhas almas.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Predador


Não existe brava resposta
Ao que de invisível se chama
Morte e causa de morrer.
Não existe, quando caças
Disfarçado de cantiga e rosa.
De poema e alento, tão disfarçado,
Passo ante passo.
Que contas, perecidos aqueles d’outrora,
Fogosas mentes e almas sãs.
Contas e cantas pelas vielas,
Faces tão disformes de belas,
Que todas elas és.

(Poema pertencente ao VI capítulo do Prín.)

sábado, 5 de setembro de 2009

Loucura


Unfurling 2, by Puimun

O silêncio clama teu nome
Sob a brisa da alva.
Um grito mudo de moribundo
Que ecoa lasso. Oh! Tão fraco,
À tua esguia alma.

Ignora-lo. Nada te é
O murmúrio que abranda
O nome do desvario.
Que te sabes ponto mais alto,
O da loucura infanta,

Sabes-te do mundo deusa,
Bela de santa vitória.
Aquela que mata quem não sabe,
Aquela que matou por saber,
O sabor férreo da glória.

Pois, da gente insana,
Sois dama, rainha e suserana.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A Muralha



Nos altos vagos da maresia,
Cantastes teu canto.
Mar a dentro, mar de pranto,
Lágrimas escorridas ao largo,
Bater constante de fulgor pardo,
Em rochedos de consciência fria.

É essa Muralha que se ergue além,
Infinita de fim.
Essa Muralha que te prende a mim,
Laços constritos de lendas,
Fogos-fátuos em que atentas,
Vazio o teu canto de ninguém.

Que não tombam as torres,
Não afogas ameias.
Não afrontas mitos nem teias
De sonhos, estrelas caídas da lembrança.
Não destronas, não amansas,
Dita a dinastia dos defensores.

Que o canto teu não alcança
Escutares dos céus.
No alto da Muralha são os meus
Falares que ditam, Sereia.
Que o teu canto só enleia
Os abandonos da esperança.

No entanto, nada és sem mim,
Ó doce donzela.
Nada és sem a chama da vela
Que encandeia os cegos defuntos
E os atira da muralha para teus profundos
Cantos insanos sem confim.

sábado, 29 de agosto de 2009

Os Passos do Destino

Ora, ora ora... como sou uma pessoa muita chata e dada a publicidades (ou não), aqui deixo a minha propaganda. Os Passos do Destino é um livro electrónico feito em conjunto por mim e pela Carla Ribeiro. Aqui fica a sua apresentação não formal, assim como o link de download do mesmo! Boas leituras ^^


Sinopse

Quando se conta uma história, abrem-se ao leitor as portas de um novo mundo. Mas onde está a razão das histórias se não há ninguém para as conhecer? É este o objectivo deste conjunto de quatro contos situados no género do fantástico. Dar a conhecer os mundos e a imaginação das autoras que os criaram e mostrar as imagens e os sentidos que neles se escondem. São espadas e anjos, piratas e profetas, unidos e fragmentados na diversidade dos seus próprios mundos. E, no essencial, uma unidade constante: a da vontade de contar e de partilhar o imaginário.

O autor

Carina Raquel da Costa Portugal Monteiro nasceu a 19 de Junho de 1989, no distrito de Lisboa. Mora actualmente na Amadora e estuda Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Escreve prosa e poesia por gosto e amor às letras e participou já em alguns projectos, entre os quais a revista literária Alterwords. Alguns dos textos, principalmente de poesia, podem ser consultados no blog da autora: http://asameiasdocrepusculo.blogspot.com

Carla Ribeiro, estudante de Medicina Veterinária, natural de S. Martinho de Mouros, nasceu a 20 de Julho de 1986. Premiada em vários concursos literários, tem textos publicados em diversas antologias e colabora assiduamente em diversas publicações electrónicas. Publicou, além disso, os livros “Estrela sem Norte”, “Alma de Fogo”, “Canto de Eternidade”, “Herdeiros de Arasen, vol. I”, “Herdeiros de Arasen, vol. II” , “O Deus Maldito”, “Alma Abandonada”, “Dualidades” (este em co-autoria com Susana Catalão) e “E Morreram Felizes para Sempre”, bem como os e-books “Derivações de Além-Vida”, “Coração Selvagem” e “Fragmentos de Sombra” (este último também na Neolivros). Informação sobre as publicações e excertos das mesmas podem ser encontrados em www.freewebs.com/carlaribeiro

Download

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A Criança


Child, by Ohnurre

A beleza efémera do suspiro
Baila subtil na pequena face;
Dança doce, de sorriso em sorriso,
E nasce viva, de estrelas e luar,
De mel melódico e risos cantados,
À singela criança do fado.
Que é vida de olhar inocente,
E símbolo sagrado. Se amado,
É amor de coração aberto
E mão estendida, para ti,
Na sua vida de brincar,
Que só ela te sorri.


V capítulo do Prín xD

Poemas soltos, rio abaixo...


Liriana, by Catarina (para mim! hehehe)

Foi fadiga a que deu ênfase
Aos olhos que te espreitam no rio.
Fadiga de ver passar, de Sol-posto a luar,
A candura caída, mor de sede à despedida,
Que a mim vem cansar.

Então adormeço. Adentro a noite
Encanta, o doce rio correndo cantando.
O teu canto, se pranto fugido do rio,
Rumor de mito e de natura o rito,
Do meu embalo tardio.

Para a Catarina ^^

*

Na fonte florescem estrelas mil,
De água, diamante e gelo vivo.
Flores campestres de azul anil
E arco-íris eterno de fogo índigo.
Nascente ao norte, primaveril,
Flui rio doce, de sereno antigo.

(Tenho andado tão inspirada quanto um ponto de vazio circunscrito no nada)

terça-feira, 28 de julho de 2009

Pluma Escarlate

Parte III

Uma luz difusa entrava-lhe pelas pálpebras fechadas, acordando-a de forma lenta e suave. Todavia parecia que alguém lhe tentava arrancar o coração ao mesmo tempo que isto acontecia. Obrigou-se a abrir os olhos, pronta a desembainhar a espada e esquartejar o estupor que lhe causava a dor.
Ao fazê-lo, a luz laranja de um candeeiro ofuscou-a momentaneamente, mas o que vira nesse relance de segundo não lhe agradara. Quando se habituou à luz, confirmou as suas suspeitas pouco felizes. Estava deitada num camarote pequeno, aconchegada numa cama confortável. Sentado ao seu lado, um homem de meia-idade observava-a atentamente, como se esperasse que ela desse um salto e fugisse.
No momento em que os seus olhos se cruzaram, ele levantou-se da cadeira e dirigiu-se para a porta do camarote. Saiu e fechou-a à chave sem uma palavra.
Alexandra desviou o cobertor que a aquecia e tentou levantar-se, mas uma dor invadiu-a como um relâmpago, cortando-lhe a respiração. Deixou-se cair para trás, mordendo os lábios para abafar qualquer género de lamento. Começava a lembrar-se do que acontecera. O denso nevoeiro, o combate com o capitão Henrique e a flecha…
Olhou para si e para o seu estado lastimoso de vulnerabilidade. Alguém a tinha despido e colocado ligaduras em redor do tronco. Sentiu a sua face ganhar um tom rubro de vergonha e fúria.
Uma chave voltou a rodar na fechadura. Os seus sagazes olhos azuis fitaram a porta, enquanto ela se abria sem pressas. Um olhar simpático fitou-a daquele local. Era o capitão Henrique.
- Posso?
- Não sou eu a comandante do navio, não é a mim que tem de pedir se pode ou não – rosnou Alexandra, desviando o olhar para o tecto.
- Aceito isso como um sim, capitã Vasconcelos – declarou com um encolher de ombros, fechando a porta e avançando até à cadeira onde antes estivera o outro homem acomodado.
Durante alguns segundos impôs-se o silêncio. Alexandra não se dignava a falar-lhe e Henrique simplesmente esperava que ela o fizesse. Pairava o impasse no camarote. No entanto, numa questão de impulsividade, ele quebrou-se.
- O que vão fazer comigo? – A sua pergunta era autoritária, não queria dar parte de fraca. Continuou a olhar para as madeiras bem tratadas do navio, irresolutamente.
- Isso depende do que me contar.
- Sua escória mesquinha… está à espera que eu traia a minha tripulação, não é?! Prefiro morrer a vê-la nas suas mãos asquerosas…
- Imagino que prefira – interrompeu o capitão, pacientemente. – Mas não é isso que quero ouvir.
Alexandra mirou-o de soslaio. A desconfiança marcava-lhe pequenas rugas na testa. Se não era aquilo que o homem queria saber, então o que seria? Não via mais nenhum motivo de conversa entre eles.
- Gostava que me esclarecesse do porquê destes ataques. Há dois dias atrás fez graves acusações ao Marquês de Tomar, acusações essas em que não vejo fundamentos.
Os olhos castanhos do capitão fitaram os seus de forma inquiridora.
- A que ataques se refere? – Perguntou a capitã do Flecha Dourada, tomando uma atitude de plena ignorância, desviando o olhar.
- Aos que o seu navio perpetua às embarcações portuguesas.
- Não sei o que quer dizer com isso. Penso já ter referido o facto de não ter sido o meu navio a fazê-lo. Foram os seus amigos! – Uma dor perpassou-lhe o peito ao elevar a voz, o que a fez tentar acalmar-se e mentalizar-se de que não valeria de nada começar aos gritos. Só pioraria a situação em todos os sentidos. Tinha que se comportar. Talvez assim conseguisse congeminar uma forma de escapar.
- Eu não confraternizo com piratas…
- Mas o Marquês confraterniza! Com piratas e espanhóis que estão mortinhos para devorar Portugal – rosnou, com um esgar de raiva. – Não espero obviamente que acredite na minha palavra, mas é esta e mais nenhuma. Agora pare de me importunar com perguntas inutilmente hipócritas.
- Tem provas do que está a afirmar?
- Não acha que se tivesse provas não as teria levado de imediato a El-Rei?! Pouparia tempo, dinheiro e tripulação! – Quase gritou, com os olhos a coriscarem. – Agora, por favor, saia. Não me sinto com disposição para isto.
- Não, ainda não vou sair. Quero conversar consigo sobre o porquê de estar deitada nessa cama.
- Talvez porque fui capturada? – Ironizou com um revirar de olhos.
- Também. Então falemos do porquê de ter sido capturada, do porquê dessa flecha lhe ter acertado exactamente em si quando a minha nau estava a transbordar de guardas – declarou com um sorriso, cruzando as pernas.
- Não está a insinuar que alguém da minha tripulação me tentou matar, pois não?
- Talvez até esteja – insistiu sobre a indignação de Alexandra. Levantou-se e disse as suas últimas palavras: – Pense nisso, capitã. Dar-lhe-ei o tempo que precisar.
- Desapareça! – Gritou a jovem mulher, erguendo o tronco como se fosse saltar da cama para o espancar. Aquelas maneiras arrogantes enjoavam-na e aquelas insinuações eram descomunais.
- Como queira, mademoiselle – disse, com uma semi-vénia. – Mas pense bem. E por favor, tenha consideração pelo trabalho que o doutor teve. Não queremos que a ferida abra.
- Para me poderem enforcar ainda viva?
- Sinceramente preferia que isso não acontecesse – murmurou, voltando-lhe as costas. E, como pedido, desapareceu porta fora.
Alexandra deitou-se para trás com dificuldade e, por fim, respirou fundo. O que pensava aquele idiota que estava a fazer? Tentar virar a capitã contra a tripulação era um truque infame e muito sujo. Fechou os olhos. Estava demasiado cansada.
Três sóis nasceram depois desta pequena conversa entre capitães. Em nenhum dos dias fora permitida a saída de Alexandra do camarote. Foram-lhe disponibilizadas as suas antigas vestes, lavadas e com algumas costuras. O médico fora visitá-la algumas vezes mas a capitã recusara-se ameaçadoramente a ser vista.
- Parece uma criança – reprovara Henrique, num desses martirizantes dias, o que lhe valera um olhar assassino.
O crepúsculo chegara e Alexandra escutou o capitão entrar com um pequeno tabuleiro de comida no camarote. Era o único que a ia visitar, para além do médico, e só ele tentava com afinco falar consigo.
- Quando é que estão com intenção de me envenenar? – Perguntou sarcasticamente, sem o olhar. Estava sentada junto aos vidros da janela, observando o mar que se deixava navegar por aquela nau amaldiçoada.
Assim, não viu o revirar de olhos de Henrique, só ouviu o seu suspirar impaciente.
- Ninguém a quer envenenar.
- Ah pois é, querem-me enforcar. Agradeço a sua gentileza em me relembrar.
Estava mais calma agora. Já se habituara à ideia de que o cadafalso esperava por si. Por mais que navegasse, nunca fora uma verdadeira pirata, não crescia em si a necessidade de fuga, só a de justiça. E faria todos os possíveis para dar um fim a tudo aquilo, antes de morrer.
- Se é assim que pensa…
Levou o tabuleiro até a uma pequeníssima mesa-de-cabeceira e pousou-o. Nele repousava um rústico copo d’água, uma sopa de bom aspecto e um bocado de pão com carne seca. Era mais que muitos dos marinheiros do navio comiam, mas Alexandra não agradecia. Não queria que a tratassem bem. Não era uma convidada, era uma prisioneira.
- Diga-me mais uma vez – pediu o capitão – o porquê dos seus actos.
- Estou a defender a minha pátria, a fazer justiça pelo meu pai – continuou a olhar o mar aquando o seu murmúrio quase inaudível.
O capitão Henrique nada disse e o silêncio que se instalara entre a sua resposta e o homem fê-la olhar em volta. O camarote estava espantosamente vazio.
Aproximou-se do tabuleiro e pegou no copo d’água. Não chegou a levá-lo aos lábios porque um pequeno objecto amarelado lhe chamou a atenção. Era um pedaço de pergaminho velho que tinha permanecido sossegadamente escondido debaixo do copo. Segurou-o entre os dedos, de sobrancelhas franzidas.
***
Henrique dirigiu-se com passos lentos e pensativos para a proa. Encostou-se à amurada e observou nostalgicamente o clarão alaranjado, mas difuso, que marcava o limiar entre o pôr-do-sol e a noite.
Perguntava-se se os seus actos eram os correctos, ou se estaria a cavar a sua própria sepultura mesmo rente aos pés.
As palavras de Alexandra não lhe soavam a mentiras rebuscadas, muito pelo contrário. Mas não havia forma de se provar a verdade. Ela era considerada pirata, nunca seria ouvida, e mesmo que não fosse, era uma mulher, a quem raramente davam crédito. Ajudá-la poderia significar a forca para si também. No entanto, a sua consciência deixá-lo-ia sossegado noite após noite, depois de a ver enforcada, sem mesmo ter a verdade nas suas mãos? A certeza da sua culpa? A resposta era simples... simplesmente não deixaria.
Levou a mão ao bolso e tirou de lá uma pequena pena cortada rente à penugem. Era vermelha como o sangue que lhe corria nas veias, como a vida que se derramava na lâmina da sua espada sempre que combatia, como um espírito que se esvai quando a sua honra não é reposta.
A escuridão tinha tomado já conta do convés e uns brilhos espelhavam-se já pelo céu nocturno, quando o capitão Henrique deu a sua decisão por totalmente tomada. Não desonraria a sua pátria com actos incalculados, as leis da sua alma manter-se-iam. E o que elas lhe diziam era claro. Todos têm o direito de provar o seu direito à liberdade.
Dirigiu-se ao seu camarote onde deixou que a noite se alongasse. As horas passavam lentas sob a vaga ondulação, mas nelas sorria a esperança.
Por fim, quando lhe pareceu ser o momento exacto, levantou-se e saiu, determinado a fazer o que tinha de ser feito. Com passos calculados de cuidadosos que eram, aproximou-se do marinheiro adormecido que supostamente guardava as armas da Pluma Escarlate: uma mortal espada criada pelos melhores forjadores franceses, e uma pequena adaga de lâmina um pouco curvilínea, com inscrições em Italiano.
O soldado descansava com a cabeça descaída sobre o ombro e a boca semi-aberta num ressonar ronronante. A espada e a adaga estavam abandonadas ao seu lado.
«Isto é que é cumprir ordens…», pensou o capitão, ironicamente, com um revirar de olhos, mas fora bom que assim acontecesse.
Baixou-se lentamente para apanhar as armas. Os seus joelhos estalaram inconvenientemente, fazendo-o conter a respiração. Mas fora uma preocupação vã. O homem não acordaria mesmo que uma trompa bárbara fosse entoada junto dos seus ouvidos.
Resgatou as armas rapidamente e afastou-se em direcção ao camarote da capitã Vasconcelos. Rodou a maçaneta devagar para que não chiasse ruidosamente e abriu-o. O escuro tomava conta do compartimento.
- Capitã? – Sussurrou para o seu interior. Nada conseguia discernir no negrume. – Alexandra?
- Penso não lhe ter dado autorização para me tratar pelo nome próprio, capitão Henrique. – A sua voz era bastante calma o que amenizava a situação. Vinha do seu lado direito.
Perscrutou a escuridão com mais atenção. Junto a si estava uma silhueta esguia, talvez elegante, numa perfeita camuflagem que era as suas vestes. Os seus olhos brilhavam densos num enigma intransponível.
- Peço-lhe as minhas mais sinceras desculpas. Fi-lo inconscientemente – murmurou o jovem capitão desviando o olhar.
- Não peça o que não lamenta, capitão – declarou Alexandra com um sorriso. – Gostava de conversar consigo sobre tudo isto, mas dir-me-á que não temos tempo. Estou correcta?
- Sim, está. Tome, tenho aqui as suas armas e preparei um bote dos mais pequenos para partir.
- Como vai explicar o meu desaparecimento e do barco? – A desconfiança dava agora lugar à incredulidade. – O que lhe vai acontecer?
- Preocupe-se consigo, capitã. Tenho todos os passos planeados. Ordenei para que um dos prisioneiros fosse deixado à deriva no mar. O bote foi preparado para isso, supostamente.
- Prisioneiros?
- Ninguém do Flecha Dourada, descanse – garantiu.
Deu passagem a Alexandra enquanto esta colocava a espada e a adaga no cinto. A Lua brilhava redonda no seu oceano negro, iluminando-os vagamente. Observou-a pelo canto dos olhos. Uma mulher tão bonita e tão séria, com aquele destino nas mãos. Os anjos eram cruéis.
- Muito obrigada, capitão – disse-lhe com sinceridade. – Provar-lhe-ei a verdade. Se não o conseguir, eu própria me entregarei.
O homem ignorou-a.
- O seu navio partiu em direcção ao Sul. Se quiser poderá segui-lo. Pela manhã seguiremos para Norte. Se nos voltarmos a encontrar espero que não seja nas mesmas circunstâncias. – Levou a mão ao bolso e retirou uma pequena bússola já velha com um ponteiro em metal. Junto vinha uma pequena pena vermelha. – Penso que vá precisar disto, Pluma Escarlate.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Pluma Escarlate

Parte II

Mal se vira o Sol nascer. Um nevoeiro cerrado cobria a embarcação e tudo o que a rodeava. Não se via mais que um braço à frente da face. A única coisa que se ouvia era o casco a cortar as ondas que se abatiam sobre ele. Aquele era um ambiente traiçoeiro que os ludibriava.
- Capitã!
Alexandra olhou para o mastro principal, donde vinha o chamamento, apesar de não ver nada além da densa nébula.
- Sim, senhor Almiro?
- Aproximamo-nos de algo a pouca distância! – Gritou a voz do velhote, do vazio. – Outro navio, parece-me!
A capitã franziu as sobrancelhas. Por entre o nevoeiro não conseguiria descortinar se eram amigos ou inimigos. Não se poderiam arriscar a atacar um barco mercantil. No entanto, seria só mais um para um currículo que outros tinham forjado para eles… e podiam sempre recuar se fosse engano.
- Preparem-se para atacar! – Gritou para a sua tripulação. – Vamos abordar o navio e certificarmo-nos de que não são os homens do Marquês.
- Alexandra, isso é demasiado imprudente. Pode ser qualquer pessoa, pode mesmo ser a guarda do rei! – Alonso agarrou-lhe o braço, impedindo-a de avançar para a amurada.
- Mesmo que seja, conseguimos escapar-lhes uma vez. Podemos muito bem escapar outra. É uma questão de superioridade estratégica.
- E tens alguma estratégia? – A dúvida planava como uma ameaça feroz na voz de Alonso.
- Não, mas se não os atacarmos nós, há a forte probabilidade de serem eles a fazê-lo. E eu não quero cair, não agora que podemos estar tão perto do final.
- Que final? Do nosso final?!
Alexandra puxou o braço da mão de Alonso e afastou-se dele sem lhe responder. Não queria admitir que as suas perguntas a perturbavam.
Depressa os seus inimigos se deram a revelar. Um colosso pareceu materializar-se ao seu lado vindo de outro mundo. Pouco conseguia desvendar naquela semi-cegueira e os rostos dos marinheiros adversários eram-lhe vagos.
Por enquanto também não tinham atacado. Não sabia a razão. Estariam à espera que dessem eles o primeiro passo? Se assim era, assim o fariam.
Não hesitaram. Abordaram o outro navio de imediato e o combate começou. Alexandra ouviu armas a dispararem. Por entre aquele nevoeiro era uma loucura disparar-se uma arma! Podiam acertar na pessoa errada, num companheiro!
Desembainhou a espada afiada, mas a falta do seu brilho por entre a brancura impura do ar deu-lhe um arrepio. Considerava aquilo um muito mau prenúncio. Estariam os mares contra eles?
Ouviu algo a cortar o ar por detrás de si e virou-se rapidamente, erguendo a espada a tempo de se defender. O entrechoque do metal repercutiu-se no ar com hostilidade. Alexandra fitou a face do seu atacante, por sinal sua conhecida.
- Seja bem vinda, Capitã Vasconcelos. Tenho esperado ansiosamente por si – declarou o capitão Henrique com um sorriso sarcástico. – Demorou a chegar, mas mais vale tarde que nunca.
- É um prazer reencontrá-lo, monsieur – disse esta com uma pequena vénia trocista. – Sentia falta de um bom combate e da última vez penso que tenha ficado com algo que me pertence.
- E tem toda a razão, mademoiselle. Estimo ao saber que ainda se lembra – desferiu outro golpe ao dizer isto, fazendo Alexandra recuar por entre os homens que lutavam desenfreadamente. Pingos quentes de sangue voaram até ao seu rosto, vindos de algures. Não queria saber de quem eram. Sentia-se mutilada só de pensar que poderia pertencer a algum dos seus marujos. – E desta vez não levará a melhor, porque não desistiremos. O lugar dos criminosos é na forca.
- NÓS NÃO SOMOS CRIMINOSOS! – A sua fúria voltou a evadir-se de dentro de si, repentinamente, investindo contra o capitão sem pensar. – É a escória que vos mandou que pratica os crimes! É a escumalha daquele marquês que mata por ganância! É a ele que os espanhóis pagam para contratar corsários!
Enquanto dizia isto, a sua espada rasgava o ar, embatendo contra a lâmina da do capitão sem saber o que fazia. Estava a agir impulsivamente. Queria que ele acreditasse nas suas palavras, queria que se fizesse justiça.
Ao mesmo tempo que duelavam, os seus passos levaram-nos para uma inclinação. Estavam a subir para a proa.
Alexandra golpeava a espada do homem incansavelmente. Todavia, quando ergueu o braço para desferir outra estocada, uma incompreensível e imensa dor perpassou-lhe as costas, por entre as costelas, parecendo quase vinda do coração. Sentia-la, a lâmina pequena e aguçada de uma flecha dentro de si. Mas como fora possível acertarem-lhe tão precisamente?
Recuou, tentando ganhar forças para respirar, mas cada movimento que o seu peito fazia parecia-lhe insuportável. O capitão baixou a espada, estupefacto e incapaz de agir. Sentia-se confuso com aquela paragem brusca do combate.
Assim, Alexandra ganhou forças para fazer o que tinha de ser feito. A única forma digna de finalizar tudo aquilo.
De dentro de si soou um grito, não de dor, apesar do esforço lhe destroçar o corpo.
- Voltem ao Flecha Dourada, já! Saiam daqui!
Fincou a espada no chão para se aguentar em pé. Não sabia se a tinham escutado, no entanto não conseguia gritar novamente. O seu espírito começava a toldar-se. Nunca pensara que uma simples flecha pudesse ter tais consequências.
***
Alonso viu, impávido, os seus companheiros de mar, regressarem ao navio. Ele e mais uma dúzia tinham ficado no navio, atacando o inimigo com flechas, apesar de, por entre todo aquele nevoeiro, terem disparado poucas com receio de ferirem quem não devessem. Foram lançadas só as que tinham um alvo certo. Ele mesmo dera a ordem.
- Porque estão a regressar? – Perguntou a um marinheiro que acabara de cair ao seu lado e se levantava com rapidez.
- A capitã deu-nos essas ordens, e disse para nos pormos a andar. Eu estava ao pé dela, foi atingida por uma flecha, muito possivelmente no coração – respondeu o homem. Tinha um aspecto lastimoso, um dos braços possuía uma chaga aberta, donde escorria sangue, e não tão pouco assim.
- Não… isso não é possível – murmurou Alonso incrédulo e ao mesmo tempo chocado. Parecia não querer acreditar no que ouvia.
- Ela deu-nos uma ordem, e muitos de nós ouvimo-la. Partimos, já!
- Não a podemos deixar lá! Não…
O homem não o ouviu e afastou-se agarrado ao braço ferido. Poucos minutos depois estavam a afastar-se da nau da guarda. Alonso continuava perto da amurada a vê-la ficar cada vez mais distante. Do seu único olho derramava-se uma pequena e dissimulada lágrima. Por vezes o que estava certo era demasiado doloroso.