quinta-feira, 18 de março de 2010

Fantasma de uma Rosa

"Promise me, when you see, a white rose you'll think of me.
I love you so, never let go,
I will be your ghost of a rose..."

Blackmore’s Night – Ghost of a Rose

As cândidas mãos seguraram as saias volumosas, puxando-as para que os pés não sentissem o descuido de tropeçar nelas, enquanto corria para o jardim de altas muralhas verdejantes. Os saltos deslizavam na gravilha incómoda, que tanto a irritava com os seus estridentes ruídos, quando as pedrinhas se entrechocavam e lhe conferiam a sensação de desequilíbrio. Ao alcançar a proximidade das acolhedoras sombras, cobriu-se delas, impedindo que o Sol a continuasse a macular com os seus intensos raios do princípio de tarde. Magoava-a, aquele ofensivo brilho do astro que se dizia rei dos céus. Ergueu os olhos de safira, para o azul celeste onde algumas aves esvoaçavam, agraciando a Primavera e o bem-vindo calor que antecipava o Verão. O seu lírico canto enchia-a de uma mensurável melancolia que a desfiava aos poucos, desmanchando as complicadas malhas de que a sua alma era tricotada. Tanta era a vida que subsistia num mero sopro do vento…

E o vento soprou, afagando-lhe os cabelos soltos de uma estranha coloração que tanto a definia. Chamavam-lhe a donzela dos cabelos brancos, a jovem que envelhecera ao nascer, ou que nascera envelhecida. Ninguém tinha a certeza de qual das hipóteses viria a ser a correcta, pois quando nascera para o mundo, toda ela vinha pintada de uma certa tinta vermelha a que chamavam sangue. Nesses vagos instantes, o seu pouco cabelo de recém-nascida fora escarlate, como as pétalas de uma rubra rosa.

Avançou por entre o trilho com pouco mais de um metro de largura, protegida da claridade, enquanto também a brisa passeava com ela, afagando-a com as suas gentis mãos sensíveis, enquanto comunicava numa língua perceptível a poucos. Descalçara-se, deixando os incómodos sapatos para trás e, em seu redor, as plantas estendiam os ramos para si, enquanto o dia obscurecia, as nuvens no céu impedindo que aquele rei luminoso a magoasse. Não sabia ele o significado do verdadeiro calor, o que vivia em si, guardado num coração que simultaneamente amava e odiava tudo o que era vida e morte, decadência pura e beleza impura. Esticou a mão aberta, de dedos finos e delicados que só conheciam a gentileza das pétalas aveludadas e dos livros velhos, do piano antigo na sala de música e dos lençóis onde adormecida sonhava com o acordar da eternidade.

Uma borboleta amarela passou diante de si, na inocente inconsciência que lhe era devida. Quando o seu olhar caiu sobre o efémero insecto, este incendiou-se sem demora, soltando um crepitar como se de um grito se tratasse, num momento em luminosas chamas, e no seguinte em simples cinzas. E a donzela sorriu, ao contemplar aquele fulgor da explosão de vida, a máxima centelha que levava um corpo a passar de um estado para o outro, a transmissão de energia para o ambiente em redor. Não fora a perda de uma vida, fora a união com o redor dominante.

Atrás de si, os braços dos altos arbustos bloquearam a passagem a outro qualquer humano que a quisesse seguir, como sempre faziam, para desespero dos apoquentados jardineiros que julgavam assombrado o jardim do qual tratavam. E era verdade. Ela assombrara aquele jardim, mesmo antes de saber caminhar por si própria, quando a mãe e as amas a levavam num passeio. Aquele espaço surtia um feitiço sobre si que a consolava nos dias de maior alegria, abraçando-a como um amante faria, tão terno. Um ramo aveludado tocou-lhe a face com as suas fragrantes folhas. Dedos quentes de um ser que a amava.

Uma gota de chuva precipitou-se sobre a sua fronte, e a donzela ergueu novamente os olhos para o céu. Cinzentas nuvens preenchiam-no, transportadas até ali pela mão da brisa amena. Ninguém diria que ele fosse capaz de tal, aquele vento que lhe murmurava incrivelmente baixo, mas possuía a força de mover oceanos, balançando as entranhas profundas da água, chamando-a até ao seu abraço e incorporando-a para, muito depois, a guiar até ali, precipitando-a para amenizar a chama que ardia em si. Seguindo aquela gota, outras vieram, cantando alegremente a sua canção líquida, alto, cada vez mais alto, gritando agora ao mundo, para que de longe as pudessem ouvir.

Uma súbita luz rompeu as nuvens, iluminando tudo de um tom branco e cru, enfatizando sombras escondidas, enquanto descobria outras, em recônditos obscuros. Ao sentir aquela luz tocar-lhe, os fios de cabelo retribuíram um reflexo áureo, que de natural lhe atribuíam pouco. Deteve-se por momentos, um pé paralisado, enquanto se erguia da gravilha agora fria de molhada, uma mão apoiada num cómodo ramo retorcido que se proporcionara a tal. À fascinante luz, seguiu-se um brado titânico, proferido pelo Universo, um cumprimento à sua pessoa, vindo do longínquo infinito.

Continua...

(imagem por Majin-sama - White Rose)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Esperança


Dawn Star, by Puimun (pormenor)

Ergue a tua lâmina de fulgor,
À bênção do Deus que amanhece.
Que a sua eterna glória te enaltece
E, por ti, ascende em graça.
É teu o querer da lembrança,
É tua a vontade da esperança,
E meu é o segredo que pressinto:
Que vida eterna é dos bem-aventurados,
Como o Inferno é dos culpados
Que efémeros calcorreiam o mundo.
Que seja a fé a última guerreira,
E será tua a ressurreição primeira.

Capítulo X do Prín

Humanidade

O Egoísmo é uma praga
que corrói o ser humano
até ao âmago da sua alma.

Por isso,
usufruam da afortunada vida
que o generoso "alguém" vos concedeu,
porque, se o Inferno existir,
é-vos reservado um lugar
nas suas aconchegantes fornalhas,
após a morte.

Louvada seja a Humanidade
E o seu abismo incontestável.



(Sim, sim, estou irritada xD)

domingo, 14 de março de 2010

Uma Batalha Interior

"Na sua semi-consciência, conseguia sentir um dos braços movimentar-se, derrotando uma fraca força carnal, enquanto rompia novamente a pele e os músculos do homem à sua frente. Um gemido empurrou-a, obrigando-a a voltar ao mundo real, contra a sua própria vontade, enfrentando o esgar de dor que maculava a face de Landar. Quanta crueldade era aquela a da mente que a controlava, e quanta era a raiva que a invadia, tentando superar a dor psicológica, fervendo-lhe o sangue que corria nos vasos, enquanto as dúbias lágrimas escorriam por si e pelos amigos. Voltou a fechar os olhos, ciente da força com que os dedos se crispavam na serpente que atacava o elfo, e deixou-se guiar pelo perigoso temperamento, aprofundando-se nos confins obscuros da mente, até encontrar a intrusa. Não necessitou de vaguear indefinidamente, como fizera muitos anos atrás, para descobrir Vinyriah. Agora, a simples e persistente vontade de a querer defrontar, serviria de catalisador para a sua alma ir de encontro ao pontual local onde a fracção de Sereneia se encontrava, num pequeno e mais que ínfimo instante. Pois aquele era o irrevogável território de Liriana, o território que poderia moldar e transformar, com base em ilusões, a seu belo prazer. Nunca antes sentira a necessidade de fazê-lo, mas era a hora da primeira vez.

Cada passo que dava começou a ecoar, como se saltasse sobre poças, salpicando o negro redor que aos poucos foi clareando, às suas ordens, até se transformar num crepúsculo imenso e sem fim, como outrora fora a escuridão. O chão era feito da mais pura água, sobre a qual se sustinha em pé, contrariando a gravidade que a levaria a penetrar o sensível espelho ondulante, afundando-se. Ao longe, mas não realmente longe dali, conseguiu vislumbrar o que muito provavelmente seria uma ilhota impossibilitada de se mover, o pedaço de terra que salvaguardava Sereneia, dando-lhe segurança e pé firme, para que não se afogasse naquelas águas que não conseguia respirar. Mais um passo e, não só se aproximou da ilha, como a ilha se aproximou de si, atraída pela sua vontade, revelando como deturpadas eram as distâncias naquela sua terra. Era ela quem as definia.

Sereneia encontrava-se de pé, no centro da ilha. Os braços estavam abertos, as palmas das mãos encontravam-se voltadas para fora, enquanto os dedos apontavam para o estranho céu sem Lua, estrelas ou nuvens, consideravelmente afastados uns dos outros. Os orbes da mulher encontravam-se vítreos, fitos num mundo que não aquele. O que Liriana via não passava de uma pequena parcela da ciana, a parcela que se infiltrava nas mentes de outros, despercebidamente, através da voz, num local sensível do sistema nervoso central. Colocou um pé em terra, deixando pegadas das suas botas, na areia negra. O único ser vivo que ali se encontrava, alheara-se da sua chegada, não suspeitando sequer do quanto se avizinhavam. Não hesitou na sua aproximação silenciosa. Uma estranha ânsia apoderava-se de si, uma vontade da qual se envergonhava. Desejava magoar aquela mulher, tal e qual como ela magoava Landar. Se não era vontade de vingança a que sentia, não sabia o que mais poderia ser. Parou de frente para Sereneia, a menos de dez centímetros. Observou os bordados do seu vestido azul e lilás, enquanto reparava que a mulher era pouco mais alta que ela. No entanto, sentia-a ínfima, naquele lugar. Levantou os braços, lentamente, e deixou que as mãos se aproximassem do pescoço dela com um intento próprio bem definido. O que tencionava fazer conferia-lhe um certo prazer de realização há muito esperado. Porém…

As mãos detiveram-se abruptamente antes que os dedos resolvessem envolver o pescoço alto e elegante de Sereneia. Não podia fazê-lo. Estaria a tornar-se numa assassina, o mesmo que aquela gente era e o mesmo em que Vinyriah se tornara. Aquele ódio seria a própria sentença da sua alma, para além de que, estrangular aquela fracção de pessoa, não passaria de levar a cabo um instinto egoísta e bárbaro. Aquele concentrado espectro simplesmente fugiria do seu alcance, antes que pudesse fazer algo mais, deixando-a somente com o tremendo peso na consciência de ter tentado matar alguém, sem que o real motivo fosse salvar os seus amigos.

Os braços caíram ao lado do corpo, permitindo-se a respirar fundo, razoavelmente mais calma, depois daquela pequena batalha interior que conseguira vencer sozinha. Todavia, desse dia em diante, não esqueceria facilmente aquela sensação terrível que a satisfizera por momentos."

Fragmento do Príncipe do Mar do Interior
(Porque me apetecia pôr alguma coisa por estes lados xD)

sábado, 6 de março de 2010

Sem título


Seja o sangue o licor rubro,
Que degustas da densa chaga
Dos sem coração.

Seja essa a vida do absurdo,
À tormenta do termo levada,

Seja confim, o do futuro,
Quanto no peito dormitava,

Seja o dito mito imaturo,
O que por escrito falava
Na abnegação.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Voz do Coração


Valentim? Que dia este ecoa
O eco desvanecido do tempo a passar?
Ah! É somente um dia que se esvai
Hirto, de sorriso erguido, clamando amar.
Que no peito enternecido, idílica voz
É canto e sinfonia por vós!
Vós? Oh! Quem sois?
Somente aqueles que escutam
Voz cantante que sussurra muda,
Sentires atentos de desalentos,
E ternuras tão rubras de alma nua!
Sim, vós que me ouvis,
Vós que a mim sorris.
Que canto alto, tão alto,
Meus amores amados,
Para assim vos oferecer o Fado
Meu, o Destino a comandar.
Que não é mais este dia que um dia vão,
Tão vão que me eis a amar,
Dia após dia, perdida
Por palavras a ponderar
Com desdito coração.
Mas treme-me e eu hesito,
Temente aquela que escreve, minha mão,
E permaneço só com palavras,
Mas em voz digo, com o pensar,
Que só a vós sei amar.

Para todos os meus amigos fofos ^^

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O Fim do Passado


Ship, by Hymnodi

No dormente subentendido,
Falhei o golpe de morte inata.
Entrei na vaga maré vadia,
Voguei por vontades, sem vê-las,
Levado ao termo das tormentas.
E pereci por elas.

E que paraíso desencontrei,
Díspar do fogo do Fado onde ardo,
De cerne incandescente de afogado,
Nesse mar que ruge revolto,
Enterrado na terra nossa,
Do antigo Passado.

Memórias, lembranças…
Reminiscências remotas sem rota,
Caiadas no branco descolorido
Do que um dia era pintado,
Do mar o azul índigo,
E da terra o verde esperançado.

Aqui, morri contigo em mim,
Barco ao largo naufragado.
Coração meu, que me guiaste cego,
Tão cego, de mãos ao leme,
Agora decomposto, meu corroído Fado,
Que é o fim do Passado.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Ser poeta...

Ser poeta é saber cantar ao mundo o encanto do que se não vê,
É dar vida ao morrer e fazê-lo crescer em sorrisos de fadas,
Dançar ao ritmo da natura que se escreve e ao som das palavras,
É questionar o questionado e sabido, e dar-lhe um sentido
Diferente ao olhar e de erguida alma pendente.
Que o poeta é um cego que tudo vê, tão são de demente.
Um poeta é assim eterna gente.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Brisa de Gelo


Brindo à branda brisa que gela,
Levando o tom contido consigo.
Irmã essa do tom que folgo,
Somente daquele achar que vem vindo,
Sonho dado de frio em fogo,
Frio tão frio que incendeia a alma,
Rouba da triste o gélido, seu amigo
Ornado e fiel, que é dito consigo,
Sidéreo o espírito que canta baixinho,
Tom tão frio de aquecido,
Na sua brisa de gelo.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Crepúsculo


Ten of Swords, by Puimun

Repousei, de respiração vagarosa
Caminhando semi-passos de prosa,
Enquanto os versos corriam de mãos dadas
Sem esperar a pausa do descanso,
Inspirando o folgo inexistente.

Escaparam-se do olhar.
Perderam-se no horizonte obscurecido
Do decair diurno, enquanto a estrela mãe
Murmurava a sua despedida.
Partiram com ela.

E então, o crepúsculo cobriu-me.
Tão ledo e sussurrado, uma fracção de tempo
Tomada à noite que se erguia.
E ergui-me eu, no súbito do obscurecer,
Pois a ele não o queria.

Senti o afagar daquele redor que no adormecer
Sonhava por acordar noutra vida, e sorri.
Quão belo era aquele passar que não se coibia
Da maravilha de o ser no seu escasso tempo,
Aquele tempo que seria meu.

E abarquei-o com um abraço.
Apertei-o de encontro ao peito que gelava,
E absorvi-o, aquele que não era noite nem dia.
Aquele que não era calor nem frio,
À brisa amena.

E sim, seria eternamente meu.
O meio-termo que dita o fim e o início,
Na sua intrínseca fusão.
Um dos corações do mundo,
Preso ao meu coração.

Encerro o olhar para adormecer com ele,
Mas eis que oiço um canto
Em línguas passadas e idiomas por gerar,
No berço do correr do tempo
Do qual nascera.

Um canto histérico e murmurado,
Um cantar de eterna e dolorida alegria
Que se martirizava em prantos
Da sua perpétua e leda agonia.
Que eles tinham regressado!

Aqueles fugidios calcorreantes do mundo,
Almas doces e amargas de antagónico pensar,
Retornaram à pátria deste mundo e curvaram-se,
As mãos estendidas ao crepúsculo,
Convidando-o a dançar.

Que agora o meu bem-amado seria deles,
Enquanto eles seriam meus. Ambos meus.
Os Versos e o Crepúsculo. Talvez Versos Crepusculares.
Abrigados dos que se diziam reis,
Mas que, no entanto, não o eram.

E, numa noite remota de um tempo futuro,
Partiria à conquista do Amanhecer.
Que o Dia e a Noite seriam meus, sem o serem,
E os versos cantariam tão mais alto!
Para que deles os deuses não se pudessem esquecer.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Versos Soltos...


Ponto por ponto, pesponto
Pura ponte pela qual passarei.
Que para passar além
Do prado por onde passeei
Pintei de pontos a ponte,
Pela qual passei.

*

Mor era a vida cantada
Ontem, que a cantei alto.
Rugi como quem espanta
Gorda a morte que se empanturra!
Ora, cantei tão alto que enrouqueci,
Minha voz esvaiu-se,
Irrisória deste cantar onde prometi
Rir e cantar até que a voz se escoe.

E, por fim, morri.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O Canto da Sereia

O suave canto do rouxinol
É somente um esgar retorcido
A par do tom que exaltas.
Exímia a melodia que é contigo,
Tua vida e teu querer,
Teu poder de ser,
Tua mania, tua vontade.
Sinfonia leda que me embala
E resguarda das teias da verdade.
Que adormeço no teu cantar,
Adormeço e avanço tão cego,
Que me cegas da alma o pensar.

(Pertencente ao capítulo IX do Prín.)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Era uma vez um Sonho


Her Strange Pilgrim, by Forlorn Existence

De quando em vez era passado,
Lembrança esguia de alma pura.
Era o passado daquela vez,
Em que foi ela donzela e candura,
Inocência de insensatez
Insana, se desmedida a ternura.

E era uma vez naquele jardim…
Era? Se era não sei,
Mas que foi um dia, em mim,
Que a vi, donzela e graça também.
Ai de mim, espadachim,
Que naquele jardim sonhei.

Que era bela a donzela,
E donde a espreitei fugi, correndo.
Bela, que era senhora,
A daquele jardim que não entendo.
Ai de mim, que era a hora,
Que na demora se esvai o vento.

E corri, corri… ai de mim,
Que acordei ao seu alcance,
Naquele seu jardim de jasmim
De tempos idos, meu romance.
Acordei, que não era eu o fim,
Mas o que fui em vida, seu nuance.

Que era uma vez um sonho,
Que outra vez sonhei.
Sonho meu, só meu.
Sonho de mim, sonho dela que sonhei.
»Minha donzela, sou teu Romeu,
Rumo ao sonho que eternizei.

sábado, 28 de novembro de 2009

Acróstico (III)


Dream, by guggenheimgrotto

Ah! Nada sei.
Nada de quanto havia
A saber na Sabedoria.

Cantado o absorto do surreal,
A momentos de tempo infinito,
Tomei pedaços pintados em cor de sonho,
Aquando este meu passear de risonho
Riso se vivo o não saber
Inato ao não sabido do conhecer, que
Nunca soube o que havia
A saber, um dia.

Argonauta fui, nesse mar de desconhecido,
Lado a lado com o prazer de antever
Brumas, as da magia,
Ubíquas de dia e noite de breu,
Quando em seu vulto se obscurecia,
Ululante o vagar do surreal nascer.
Enquanto era crepúsculo que o dia e a noite são,
Rumei sabendo o não saber
Que era bússola só o coração
Um guia cego mas que via
E esperei o que não sabia.

E enquanto esperava
Urdir o não saber no que não sabia,
Soube que sob intenções disformes
É o conhecimento vivido e navegado.
Barco à vela nas intempéries
Imaginadas, que são brisa e vento
Olvidado nas marés do pensamento.

Dedicado à minha querida
amiga Catarina

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Vazio


Fog, by Flugcojt

Dor?
Não a sinto,
Que sou um pedaço de vazio
Resgatado à corrente vaga do nada.

Puro e impuro. Depuro
Todos os termos que são nada
E eu um tudo,
Vago o conceito de ser um ser,
Se é certeza o não ser incerto.
Incompleto o doer de ser,
E por isso não serei,
Meu amor vazio,
Que não te sinto.

E o que te leva a sentir?
Pergunto, discreta, em murmúrio fosco,
Que o não ouvir canta em sinfonia leda
E o escutar é martírio à alma.

Por isso não respondas,
Que não te ouvirei.
O vazio é surdo.

Não te entreponhas entre mim
E a díspar cor que não vês.
Que o vazio é cego.

E não me oiças.
O vazio não é mudo,
Mas não sente o que diz.

E o que não é vazio é defunto,
Meu defunto amor, que sou vazio,
Aquele que vagueia em tudo
Na esperança de te sentir.

domingo, 22 de novembro de 2009

Caminho entre o Mar

Desmontou do cavalo e colocou-se lado a lado com Landar. Atirou a capa para trás das costas, de forma a não lhe estorvar os movimentos. Enquanto isso, Liriana colocou Karai no chão, antes de ela própria abandonar a sela de Sirin. Não ousou perguntar o que iria fazer a irmã. Talvez invocar uma embarcação caída dos céus.
- Ai, tenho de ver este espectáculo – comentou Leonardo, posicionando-se ao lado de Alexis, de braços cruzados. – Vocês as duas venham também. A última vez que alguém viu isto foi há já alguns milénios atrás.
O que poderia animar o necromante assim tanto, levando-o ao termo de usar exageros que incluíam vastas porções de tempo? Aproximou-se, levando Karai pela mão e esperou para ver o que aconteceria.
Alexis arregaçou as mangas da camisa até aos cotovelos, mostrando o quão pálida era a sua pele. Esticou os braços à sua frente, e anuiu-os pelas palmas das mãos, em direcção a Este. Após assumir aquela posição, as palavras brotaram-lhe dos lábios, num tom alto de invocação que os rodeou e se espalhou pelas profundas águas em redor.
- Deminir ê phoroin vir danark, ye falanar theluin se ulidarn. Lessir ê Thornigan vir certhon, gladh, milno kandell, dyrin ye sar. Voloner aferi ceri vir kirdanl sem argani, jian iemorion se uthillavar vuanor. Lessir damar fyoni, milne halnaners ceri lnimars iemorsa bredins holunner.(*)
Para Norte e Sul, as ondas embateram de encontro aos rochedos com mais força, espumando de forma quase agressiva, enquanto tentavam trepar por eles acima. Na praia, as gaivotas levantaram voo súbita e simultaneamente, deixando algumas penas para trás, ao verem que as ondas se aproximavam das suas patas de forma anómala, como se a maré mudasse inesperadamente. A superfície do mar tornou-se mais turbulenta, como se os movimentos na massa de água modificassem as correntes radicalmente.
Sentiu um puxão na mão quando Karai se aproximou mais da beira do monte, espreitando curiosa para o fundo. Os sedosos cabelos brancos pendiam soltos da trança em finas madeixas que pareciam puxá-la para baixo, através da gravidade. No local onde a criança focava a sua atenção, um sulco em linha recta começou a aprofundar-se sobre as águas que rugiam em fúria não reprimida, separando as partículas quase infinitas em duas partes distintas. E entre essas duas porções de água, abriu-se um trilho forrado a areia molhada e flanqueado por dois muros de água que iam crescendo em altura, à medida que o caminho descia, até às profundezas do Mar do Interior.
Alexis baixou os braços, observando o seu feito num tom crítico. O caminho que atravessava as descobertas entranhas das águas deveria ter no máximo três metros de largura. Mas quantos não seriam os de comprimento, ao longo de todo ele, assim como os de altura? Iria ser uma viagem claustrofobicamente inesquecível.
- Acabaram de conhecer a encarnação de Moisés! – Disse Leonardo, com um sorriso de orelha a orelha.
Apesar do tom divertido da afirmação, não deixou de concordar de todo com o significado inato. Nada poderia descrever o poder contido no feitiço que Alexis proferira. Se ouvira falar dele, fora muito remotamente, quando lera o livro dos Deuses. Não atentara em muitos dos feitiços por lhe parecerem pouco práticos ou mesmo inúteis. Deveria ter catalogado este com o mesmo título. Mas eis que revelava a sua utilidade, uma utilidade que ultrapassara a sua imaginação.

(*)Adentro o profundo se encobre, em vagas negras de escuridão. Quando o Sol se extinguiu, cresceu por consumir, fechado em si. Mas eis que se abre à luz, trilho este de passado oculto. Quando perdido encontrado, pelas palavras que invocam esse caminho encerrado.

(excerto do Prín.)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Suserana da Noite


Dancers in the Dusk, by Puimun

No entardecer que o céu ilustra
A laranja e carmesim,
Diviso um final firme no horizonte
Onde se encerra o mistério pardo.

Que quando for rei o crepúsculo
No seu mísero reino de tempo nenhum,
Abrirá os sete cadeados fechados
E libertará o escondido no além.

Além, muito para além, aguarda a noite.
Trajada em veludo de escuridão,
Marchetada de jóias em ouro e prata.
Que se erguerá a suserana.

Liberta por fim e viva, que é bela,
A donzela do luar formoso,
É fogo ebúrneo que se acende,
Para os amantes do profundo,

Que a sua cantiga é solidão,
Mas alegre solidão de melancolia.
Um sonho áureo de tempos antigos,
Que foi ontem real, ontem, tão distante.

Hoje é lenda e amanhã será mito,
O da senhora suserana de além um dia.

Para a Fifi ^^

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Boneca de Trapos

Silêncio. Um ténue raio de sol penetrava através das fendas estreitas da madeira apodrecida de velha, alumiando o pó que flutuava etereamente em seu redor, uma chuva que revolteava ao mero sopro e não molhava ou era fria. Esticou o pequeno braço branco, fechando a mão sobre o pó. Aqueles fragmentos ínfimos faziam parte de si, crepúsculos de um inato que se desfazia e se escapava através do tecido que era a pele fina, compondo a atmosfera abafada que se revolvia, no lar de solidão que habitava.

Antes, não dava especial atenção àquelas partículas. Só pensava nos sorrisos de alegria que revibravam vivos naquela mesma casa, sorrisos que ela própria fazia sorrir, alimentando-se de carinho e amor, tal como era ela alimentada. Mas agora ninguém a alimentava. Há quantos anos passaria fome? Esquecera-se do passar do tempo naquela cabana apodrecida do topo da árvore. À sua frente, repousava uma chávena de chá inundada em água turva. Conseguia ver o seu reflexo no líquido que nunca evaporara e ali permanecera, o chá que partilhara com a sua senhora menina que um dia partira. E ali a deixara viver de sede, sede de querer ser abraçada novamente, sequiosa daquele toque suave, do pente nos seus cabelos de tiras castanhas, agora também poeirentas, ruídas pelas traças incessantes, tão esfomeadas quanto ela. Ao contrário da sua pequenez pessoa que nunca fora, os insectos tinham o que comer. Comiam-na a ela e à sua mansão. Comiam o que era seu. Talvez também tivessem comido a sua senhora menina, aquelas térmitas desditas.

Deixou pender o braço que erguera para apanhar o pó que era seu, e a casa caiu, tal como a vontade de viver da pequena boneca de trapos.

(Não saiu nada do que eu queria -.-')

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Ditador



Crown Without a King, by Rawimage

Misericórdia? É um conceito inglório
De cruel ventura ditada aos fracos.
Não possuo eu o que me é vão.
Que da complacência ganho um marco
De rocha erodida, a abater,
Promontório cadente. Mas não cairei,
Dito a Vontade e sou a Lei,
Legado do frígido fogo do poder
Que constrange e silencia,
Que incendeia e queima em cinza
A alma viva que é a morte que almejo
À sua vontade caída.

(Capítulo VIII - O Príncipe Akuirien, do Prín)