segunda-feira, 3 de maio de 2010

Niadin Midarvia


Moonbathing, by Puimun

As Estrelas são espíritos que dignam trajar de luz
O infinito de Sua Graça.
A Noite é barda voz dos sonhos e mitos
Que dominam o mundo.
O Luar é Sua palavra oferecida, cantada e escrita,
No sentir da alma.

Senhora de Olhar de Utopia,
Honram-te aqueles que não olvidam o que foi o tempo a passar,
Na fidelidade do Teu amar onde muitos se perderam.

Minial celdh i ladnar adian, niadin Midarvia

sábado, 1 de maio de 2010

Alma Fugida


Clock, by GruEliSm

A alma que no peito estremece,
É caricatura de sangue e carne escrita.
Do cárcere contido, na memória-cadáver,
É do corpo, seu morto vivo,
No limbo dos murmúrios.

E no tempo fugido do ponteiro que parou,
Antes da última badalada da vida,
Gritou o Ente de sentir vestido a negro,
Do perder que se viu vestido
Num corpo sem alma.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A Cor da Vida


Black, by 7th November

Será monocromática a dor?
Ou terá em si o colorido sabor,
Do que é fraqueza e cobardia?
Digo-a multicolor na sua agonia,
Em grito alto de rasgar a voz,
Um pranto erguido, só por vós,
Para que ouvis suplica tão muda.
Que é sofrida a mente arguta
Do perceber que perece em nada,
Mente que pensa, estagnada,
No Presente vazio que passou
E Futuro que seria e que ficou
Preso, por não ter sido
Migalha estendida ao mendigo
Que na morte do pensar,
Acabou na vida por matar
A existência a negro colorida…
Que negra é a fusão das cores da vida.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Voz dos Murmúrios


Reading in the Night, by Yoeah

Vorazmente, o silêncio consome-se,
Na noite que chove estrelas e luar.
E, no consumo que o ataca, é extinto,
Por si só faminto,
Na morte que é o ego de se amar.

E, assim, erguem armas os murmúrios
Que se fazem, pelo atento, ouvir.
Governam os sussurros dos espíritos,
Os monólogos dos antigos mitos,
Que, eternos, são o cerne do florir.

O renascer do que um dia, olvidado,
Caiu no silêncio do gritar.
Que os lírios cantam de tom e tempo breve,
Sua sinfonia de sonho leve,
A voz do vento, da terra e do mar…

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Fundamentos do Existir


Book of Fairy Tales, by Louvre89

FUNDAMENTOS PERDIDOS


Fundamentos são os que ditas mudo,
Delongados à vã noite vespertina,
Quando era crepúsculo o Passado diurno,
E as maleitas, falácias escritas.
Foram fundamentos no escuro,
Ebúrnea a tua letra erudita.

Rimaram sem rima os versos,
Tão soltos que os diria magos da magia.
Que contigo os fundamentos escreveram
Os da vida que se procria.
Que não morrem com os que morreram
Os que a branco vêem a escrita escurecida.

Anos são milénios, os que se vão,
Algures dormentes no caído da História.
Extintos do pensamento, porém não do coração
Aberto nos recônditos da memória,
Na essência que é só tua a paixão
Puro o sentimento da tua glória.

Ninguém o sabe, que não existe,
O Saber dito que é sabido em crer.
Contam-se, no obscurecido que persiste,
As chamas apagadas e os pavios cortados do ser.
Contam-se martírios dos sussurros que ouviste,
Mas não se contam os do reacender.

Canto perdido,
Conquanto o sangue ruge ao pulsar.
É esse sussurro que te é, ao ouvido,
A brisa que sopra leve no marulhar,
A promessa do que um dia foi prometido,
Promessa que irá um dia despertar.

Insiste, persiste no florir.
Do tímido despontar que te anseia,
Revejo desfocado aquele sorrir,
Tão tua a cândida luz que encandeia
Quando é luar solene, o do sentir,
No reflexo do rumor da lua cheia.

Sereno o Sempre que é teu,
Cravou-se descontido no coração.
Esse espelho de reflexo contido pereceu,
E em pranto, foi dito o “não”,
Não à concreta certeza de ser teu
Quanto do que era a infeliz Razão.

Crês que o santo graal
É o do sentir, não o da razão sagaz.
Somente é a vontade reinante, e por mal
Mundo pensado – que não penses – perfaz
A falta infundada de desdito dito racional,
Na mente da alma perspicaz.

Olvido assim teu mistério,
Os fundamentos pintados sob o engano
Da eternidade etérea do deletério.
Que o Presente permitiu-se ao desumano
Desenlace do que era ímpio, diáfano Império,
Na passada época do desengano.


FALSOS FUNDAMENTOS

Rumores ronronantes são sonhos,
Resquícios rendilhados em linha minha
Aos cegos do pressuposto que suponho
Ser o Ser que contigo caminha.
Ser por ter sido tão cego ao olho, zarolho,
Da teoria tua que tanto definha.

E nosso, o pão de cada dia,
É veneno escutado de vão inato,
Cerne em recorte, aquela renda que procria,
Bolor e fungo e fundamento emboscado,
Embora vida, por eles proscrita,
A do pequeno bolor bastardo.

Manchas são teorizadas,
Dos membros vivos excluídos.
O que é lâmina desfere facadas,
E no corpo, doença são sagrados imbuídos
Santos de mártir mórbida fachada.
Que, no final, são teus martírios.

Era esta, só é Era,
Quando banida for a força mor.
Se não é mundo o que de natura é fera,
Meu Mundo, que te canto eu a dor,
A que em mim só faz a espera,
Esperar do fundamento o seu amor.

Debemur morti nos nostraque,
A ceifa certa do que um dia foi passando.
Nós, mas não tu, que o demo a alma ataque,
A dos vulgares que lamentam seu pranto
Pérfido das lágrimas símias de seu saque
Sequioso… Oh! É do silêncio que me espanto.

Inverno, excluo-te do cosmo.
Hirta, vontade é a minha a de banir
Corrente que te aprisiona ao abismo,
E essa é a vontade, ó Fundamento do sorrir.
A minha e a dos cegos do aforismo,
Que veneram os Fundamentos do Existir.

Ouve, que te chamamos,
Fala ao mundo com a voz dos séculos
Nocturnos que adormecidos reclamamos.
Que quão são os teus ditos belos,
As máximas mínimas que imenso amamos,
Nós, os que te veneramos, nós, os incrédulos.

O ACORDAR DOS FUNDAMENTOS

Criaturas de credo incerto,
Recuso-vos a existência do não poder.
E peço aos deuses, que me escutam de perto,
No seu longínquo escutar do adormecer,
Peço-lhes o céu, e da voz o eco,
Do que foi um dia o grito de viver.

Ressuscita, de alma conquistadora,
Ressurge das cinzas, Fénix minha.
Sê a ave da espécie vindoura,
A da magia e do mito que caminha,
Sê assim, Fénix, nossa suprema senhora,
A senhora chamada Renascida!

Idolatrada essa força, a que tens,
Em palavras anciãs de ânsias inconstantes,
Reúnes das virtudes, em tuas mãos, os bens,
D’aqueles que não passam de puros instantes
Que sempre viveram dos ícones que deténs,
Cansados do que são, similares dos semelhantes.

Sonho novamente,
O mesmo que há séculos sonhei.
Mas eu, reencarnação de demente,
Sei-me são em tudo o que sei.
E creio que do meu devaneio de mente,
Será sonho meu, nossa lei.

Tu, só tu… sobre ti,
É o sonho contigo, o conhecido,
Das Cassandras da vidência em mim.
E murmúrio é agora o ouvido,
Que se adensa no nevoeiro espadachim
Do recortar que antecede o alvorecido.

Invades, então, a razão perpétua,
Despontada já é a beleza do pensar.
Tua é a alma despida, de preconceitos nua,
Nívea, imaculada no seu eterno conjecturar.
É essa a dramática peça que em mim actua.
Essa é a peça onde irei actuar.

Nalgum remoto nunca,
O Nada tentará evitar a tua renascença.
E porquê? Surge a pergunta,
E a resposta é a da inveja em sua crença,
Ínfimos muitos onde infinito s’ajunta,
E cresce em imortal crescença.

Ontem, foste nosso almejar,
Hoje és realidade que havia de ser.
Causa a qual quiseram fiéis amar,
Perante a força do esquecer.
Que, do tudo, só tu os podes sagrar
Santos, os Fundamentos do Viver.

(E isto foi uma prenda que fiz para um amigo. Porém, presumo que não lhe tenha agradado de sobremaneira, ou que nem sequer tenha adquirido o necessário tempo para a ler. E, no entanto, deixo-a a vós, meus caros e queridíssimos amigos, esperando que gostem ^^)

terça-feira, 23 de março de 2010

Fantasma de uma Rosa (final)

Ao término dos poucos minutos que tal fenómeno demorou a propagar-se, não se distinguiam já os perfis do que era e do que foi, as labaredas subindo em direcção ao céu, com uma só forma movediça, sobre a qual a chuva se precipitava, incansável, querendo saciar aquele ímpeto acordado que desabrochara, florindo na mais gloriosa e gigantesca flor. Os tons com que aquele fogo estava pintado, tornaram-se mais claros, à medida que os instantes se passavam, até atingir uma mistura do que poderiam ser tons de branco, se pudesse o branco ter várias tonalidades. Na sua intrincada dança, as mentes mais acordadas para a essência da Natureza, poderiam discernir um número sem fim de criaturas vivas, muitas delas nunca antes vistas pelos olhos humanos, que tantas vezes possuíam pálpebras invisíveis e sempre fechadas.

As chamas foram decaindo aos poucos e, em simultâneo, o céu desanuviou-se, as nuvens vazias de tanto chorar, considerando que era hora de cessar os louvores. Outro dia, noutra hora, talvez noutro mundo que não aquele, voltariam a agraciar a donzela branca, quando o tempo considerasse que seria correcto permitir-lhe vir ao mundo.

Por fim, as chamas extinguiram-se. E no entanto, no seu lugar não permaneceu a vulgar marca deixada por um qualquer fogo maligno, pois aquele não o era. Era certo que do primoroso coreto não ficara qualquer vestígio intacto, incinerado como o mais volátil dos materiais. Não obstante isto, o que realmente deveria ter-se extinto, propagou-se, mais fértil que outrora, cobrindo todos os locais a que os jardineiros se davam ao trabalho de podar, retirando-lhe a liberdade há muito implorada e agora concedida. As roseiras propagaram-se, floridas do seu escarlate de sangue… tanto sangue! Porventura era o reflexo do muito líquido vital que corria nas veias da jovem que desaparecera, aquando o incêndio. No centro dos remanescentes inanimados do coreto, floria também outra rosa, mas a esta fora roubada toda a tonalidade escarlate, como se despida de toda a mácula que tingia qualquer outro ser, as influências exteriores que manipulam o inato.

Os raios de sol afastaram as nuvens que encobriam o azul celeste. Sempre sorridente, o astro rei permitiu que o seu brilho se reflectisse nas gotículas que pontilhavam toda a vegetação. Agora, a terna donzela de branco amaria aquela morna amabilidade que era vida e morte para todos os que respiravam. A dor fora banida, assim como a consciência e o pensar que um dia seria novamente um ser com vontade própria.

E nessa inconsciência, não escutou os passos que pisaram a terra molhada, nem sentiu a mão que se precipitou para si, com um espanto incrédulo. Porém, a força abandonou o seu corpo, sem que pudesse dar conta, colhida da fonte que a sustinha, por um ente curioso que se apoderara de uma raridade que sempre o seria. Um último beijo tocou-lhe nas pétalas, uma breve despedida, um “até amanhã” para a vida que decaía.

As últimas gotas que choviam, já longe do alcance humano, adornavam o céu com um ténue arco-íris que começava naquele mundo e acabava noutro, muito além, donde espreitava o desconhecido que muitos não ousavam revelar. Dos que possuíam essa audácia, poucos sobreviviam, pois poucos mereciam sobreviver. Contudo, os que voltavam, jamais eram os mesmos. A maioria que tinha conhecimento desse fenómeno de ida e volta, chamava fantasmas àqueles que transpunham as muralhas entre-mundos. No entanto, eram mais, muito mais do que isso. Tal como aquela donzela. Ontem fora borboleta ingénua, que o vento guiara; hoje era rosa, criada pelo fogo; e, amanhã, o que será? As hipóteses distribuem-se numa imensidão de Tudo e Nada, mas algo é certo, será o que no seu espírito se reflicta: um mundo, um universo, um infinito… um ciclo de eternidade efémera.


sábado, 20 de março de 2010

Fantasma de uma Rosa (continuação)

Respondeu-lhe com uma risada, executando uma vénia respeitosa, o comprido cabelo alvo escorregando em direcção ao chão, mas sem lhe tocar.

“É para mim uma honra ser a agraciada do vosso cumprimento”, disse, antes de voltar a endireitar as costas e continuar o seu passeio pelo jardim, com destino ao centro deste, onde fora construído um pequeno coreto, cem anos atrás.

As colunas que sustentavam o tecto, torciam-se sobre si próprias, formando espirais em redor das quais os espinhosos ramos das roseiras floridas se quiseram envolver, um dia, finos no princípio dos tempos, mas agora quase com a espessura do seu pulso delgado. No meio do coreto, fora construída uma fonte baixa, no íntimo da qual se elevava a estátua de uma sereia que, sobre o colo escamoso, segurava uma das estrelas que caíra do céu, e se fora implantar nos mares. De braço erguido, a outra mão amparava uma rosa em pedra, donde um pequeno repuxo brotava, salpicando a água onde meia dúzia de peixinhos dourados nadava tranquilamente. Há uma semana atrás, eram, na verdade, sete seres aquáticos que ali residiam, todavia um morrera e servira de alimento aos companheiros que fizeram questão de o integrar em si, outra forma de eternizar um ser vivo, junto às almas dos irmãos.

Sentou-se num banco comprido mas raso, e cruzou as pernas, agora já protegida da chuva que se precipitava alegremente. Levou uma madeixa encharcada para trás da orelha. Se o pai a visse naquele estado, dar-lhe-ia uma severa descompostura, relembrando-lhe que não seria assim que um jovem senhor lhe tomaria a mão. Não sabia ele que tomada já a sua mão se encontrava, a incorpórea aliança colocada no dedo anelar, desde que nascera ao frio da madrugada. Atentou o céu e as formações volumosas que pareciam incansáveis no seu ledo choro. Um novo relâmpago iluminou os céus, desta vez um raio flamejante que se precipitou dos altos, fendendo o ar e perecendo a alguma distância, numa queda magistral. Mais depressa do que o anterior, o segundo grito do universo fez-se ouvir, tão definido aos seus ouvidos que poderia ser humano. E não teria ele um pouco de cada ser em si?

Esticou a mão para uma das rosas próximas, e afagou-a, permitindo que os orbes azuis se deixassem mergulhar na meditação. Um fumo branco ergueu-se das pétalas onde os seus dedos tocavam, enquanto o escarlate passava a um tom laranja flamejante. O processo pareceu lento, sob o seu olhar, porém à observação de um comum mortal, as pétalas teriam transformado aquela rosa numa flor de fogo. Sem autorização prévia, a chama não se propagou à restante planta, como seria esperado, mantendo-se acesa entre a sua mão, os tons das labaredas dançando ao vento que se projectava pelas arcadas.

Dois relâmpagos precipitaram-se do céu e atraíram-se num só, caindo a pouco mais de um metro do coreto. A chuva intensificou-se, a sua natureza mudando de estado, aos poucos, tornando o ambiente mais frio com o gelo de que agora era feita, para amenizar aquela chama ardente que provinha do seu âmago. Algum do granizo chegou mesmo a penetrar aquele pequeno santuário, por pouco tempo, derretendo-se nos segundos seguintes, numa célere mudança de estado que tinha como catalisador a sua mera presença. O rugido proferido pelos céus, desta vez, fez estremecer as fundações da construção onde a donzela se encontrava e fê-la arrepiar-se, porém não de temor, e sim do prazer de observar a manifestação que o clima ritualizava, intensificando-se segundo a segundo, perceptível aos cegos e fazendo-se sentir até mesmo pelos insensíveis que, esses sim, tremeriam de medo, a alma querendo fugir-lhes do corpo. No entanto, estando irremediavelmente presa, só podia magoar o invólucro que habitava, nas suas tentativas ridículas de vãs, de escapar.

Lentamente, as pálpebras de pestanas compridas encerraram-se. A mão escorregou da flor para o caule, acariciando-o, enquanto o transmutava no mais puro fogo que seguiu o labirinto entrançado de ramos, acendendo-os, num rápido rastilho luminoso que, partícula a partícula, transformou todas as roseiras num círculo de fogo, no qual a origem era ela. Após isto, o fogo enveredou pela única rosa que ainda não fora colhida por si, a rosa branca, estendendo uma língua alaranjada para o punho rendilhado do vestido, na mais eterna fome. Depressa todo o vestido se inflamou, num espectáculo que nem o melhor ilusionista poderia proporcionar. Quantas damas não desejariam poder afirmar que vestiam um próprio Elemento, revelando-se das mulheres mais elegantes e exóticas do Universo? Imensas, mas só aquela podia vangloriar-se de realmente o ser, sem almejá-lo. Mas aceitando-o com a maior das honras.

O alto do mundo tornou-se cada vez mais negro, contrastando com os relâmpagos que se precipitavam e as chamas que ardiam, qual milhares de archotes unidos, tomando conta do seu corpo. A própria pedra, de que era feito o coreto, incendiou-se, e a sereia gritou, da sua fonte, quando se deu conta que não era ela imune àquele fogo mágico que parecia poupar os vivos mas não os inanimados, pensando se seria aquele o Inferno dos sem alma, os que não possuíam a chama do fulgor crepitante. Porém, todos esses pensamentos pereceram, pois também ela morreu, consumida.

Continua...

(imagem por Majin-sama - White Rose)

quinta-feira, 18 de março de 2010

Fantasma de uma Rosa

"Promise me, when you see, a white rose you'll think of me.
I love you so, never let go,
I will be your ghost of a rose..."

Blackmore’s Night – Ghost of a Rose

As cândidas mãos seguraram as saias volumosas, puxando-as para que os pés não sentissem o descuido de tropeçar nelas, enquanto corria para o jardim de altas muralhas verdejantes. Os saltos deslizavam na gravilha incómoda, que tanto a irritava com os seus estridentes ruídos, quando as pedrinhas se entrechocavam e lhe conferiam a sensação de desequilíbrio. Ao alcançar a proximidade das acolhedoras sombras, cobriu-se delas, impedindo que o Sol a continuasse a macular com os seus intensos raios do princípio de tarde. Magoava-a, aquele ofensivo brilho do astro que se dizia rei dos céus. Ergueu os olhos de safira, para o azul celeste onde algumas aves esvoaçavam, agraciando a Primavera e o bem-vindo calor que antecipava o Verão. O seu lírico canto enchia-a de uma mensurável melancolia que a desfiava aos poucos, desmanchando as complicadas malhas de que a sua alma era tricotada. Tanta era a vida que subsistia num mero sopro do vento…

E o vento soprou, afagando-lhe os cabelos soltos de uma estranha coloração que tanto a definia. Chamavam-lhe a donzela dos cabelos brancos, a jovem que envelhecera ao nascer, ou que nascera envelhecida. Ninguém tinha a certeza de qual das hipóteses viria a ser a correcta, pois quando nascera para o mundo, toda ela vinha pintada de uma certa tinta vermelha a que chamavam sangue. Nesses vagos instantes, o seu pouco cabelo de recém-nascida fora escarlate, como as pétalas de uma rubra rosa.

Avançou por entre o trilho com pouco mais de um metro de largura, protegida da claridade, enquanto também a brisa passeava com ela, afagando-a com as suas gentis mãos sensíveis, enquanto comunicava numa língua perceptível a poucos. Descalçara-se, deixando os incómodos sapatos para trás e, em seu redor, as plantas estendiam os ramos para si, enquanto o dia obscurecia, as nuvens no céu impedindo que aquele rei luminoso a magoasse. Não sabia ele o significado do verdadeiro calor, o que vivia em si, guardado num coração que simultaneamente amava e odiava tudo o que era vida e morte, decadência pura e beleza impura. Esticou a mão aberta, de dedos finos e delicados que só conheciam a gentileza das pétalas aveludadas e dos livros velhos, do piano antigo na sala de música e dos lençóis onde adormecida sonhava com o acordar da eternidade.

Uma borboleta amarela passou diante de si, na inocente inconsciência que lhe era devida. Quando o seu olhar caiu sobre o efémero insecto, este incendiou-se sem demora, soltando um crepitar como se de um grito se tratasse, num momento em luminosas chamas, e no seguinte em simples cinzas. E a donzela sorriu, ao contemplar aquele fulgor da explosão de vida, a máxima centelha que levava um corpo a passar de um estado para o outro, a transmissão de energia para o ambiente em redor. Não fora a perda de uma vida, fora a união com o redor dominante.

Atrás de si, os braços dos altos arbustos bloquearam a passagem a outro qualquer humano que a quisesse seguir, como sempre faziam, para desespero dos apoquentados jardineiros que julgavam assombrado o jardim do qual tratavam. E era verdade. Ela assombrara aquele jardim, mesmo antes de saber caminhar por si própria, quando a mãe e as amas a levavam num passeio. Aquele espaço surtia um feitiço sobre si que a consolava nos dias de maior alegria, abraçando-a como um amante faria, tão terno. Um ramo aveludado tocou-lhe a face com as suas fragrantes folhas. Dedos quentes de um ser que a amava.

Uma gota de chuva precipitou-se sobre a sua fronte, e a donzela ergueu novamente os olhos para o céu. Cinzentas nuvens preenchiam-no, transportadas até ali pela mão da brisa amena. Ninguém diria que ele fosse capaz de tal, aquele vento que lhe murmurava incrivelmente baixo, mas possuía a força de mover oceanos, balançando as entranhas profundas da água, chamando-a até ao seu abraço e incorporando-a para, muito depois, a guiar até ali, precipitando-a para amenizar a chama que ardia em si. Seguindo aquela gota, outras vieram, cantando alegremente a sua canção líquida, alto, cada vez mais alto, gritando agora ao mundo, para que de longe as pudessem ouvir.

Uma súbita luz rompeu as nuvens, iluminando tudo de um tom branco e cru, enfatizando sombras escondidas, enquanto descobria outras, em recônditos obscuros. Ao sentir aquela luz tocar-lhe, os fios de cabelo retribuíram um reflexo áureo, que de natural lhe atribuíam pouco. Deteve-se por momentos, um pé paralisado, enquanto se erguia da gravilha agora fria de molhada, uma mão apoiada num cómodo ramo retorcido que se proporcionara a tal. À fascinante luz, seguiu-se um brado titânico, proferido pelo Universo, um cumprimento à sua pessoa, vindo do longínquo infinito.

Continua...

(imagem por Majin-sama - White Rose)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Esperança


Dawn Star, by Puimun (pormenor)

Ergue a tua lâmina de fulgor,
À bênção do Deus que amanhece.
Que a sua eterna glória te enaltece
E, por ti, ascende em graça.
É teu o querer da lembrança,
É tua a vontade da esperança,
E meu é o segredo que pressinto:
Que vida eterna é dos bem-aventurados,
Como o Inferno é dos culpados
Que efémeros calcorreiam o mundo.
Que seja a fé a última guerreira,
E será tua a ressurreição primeira.

Capítulo X do Prín

Humanidade

O Egoísmo é uma praga
que corrói o ser humano
até ao âmago da sua alma.

Por isso,
usufruam da afortunada vida
que o generoso "alguém" vos concedeu,
porque, se o Inferno existir,
é-vos reservado um lugar
nas suas aconchegantes fornalhas,
após a morte.

Louvada seja a Humanidade
E o seu abismo incontestável.



(Sim, sim, estou irritada xD)

domingo, 14 de março de 2010

Uma Batalha Interior

"Na sua semi-consciência, conseguia sentir um dos braços movimentar-se, derrotando uma fraca força carnal, enquanto rompia novamente a pele e os músculos do homem à sua frente. Um gemido empurrou-a, obrigando-a a voltar ao mundo real, contra a sua própria vontade, enfrentando o esgar de dor que maculava a face de Landar. Quanta crueldade era aquela a da mente que a controlava, e quanta era a raiva que a invadia, tentando superar a dor psicológica, fervendo-lhe o sangue que corria nos vasos, enquanto as dúbias lágrimas escorriam por si e pelos amigos. Voltou a fechar os olhos, ciente da força com que os dedos se crispavam na serpente que atacava o elfo, e deixou-se guiar pelo perigoso temperamento, aprofundando-se nos confins obscuros da mente, até encontrar a intrusa. Não necessitou de vaguear indefinidamente, como fizera muitos anos atrás, para descobrir Vinyriah. Agora, a simples e persistente vontade de a querer defrontar, serviria de catalisador para a sua alma ir de encontro ao pontual local onde a fracção de Sereneia se encontrava, num pequeno e mais que ínfimo instante. Pois aquele era o irrevogável território de Liriana, o território que poderia moldar e transformar, com base em ilusões, a seu belo prazer. Nunca antes sentira a necessidade de fazê-lo, mas era a hora da primeira vez.

Cada passo que dava começou a ecoar, como se saltasse sobre poças, salpicando o negro redor que aos poucos foi clareando, às suas ordens, até se transformar num crepúsculo imenso e sem fim, como outrora fora a escuridão. O chão era feito da mais pura água, sobre a qual se sustinha em pé, contrariando a gravidade que a levaria a penetrar o sensível espelho ondulante, afundando-se. Ao longe, mas não realmente longe dali, conseguiu vislumbrar o que muito provavelmente seria uma ilhota impossibilitada de se mover, o pedaço de terra que salvaguardava Sereneia, dando-lhe segurança e pé firme, para que não se afogasse naquelas águas que não conseguia respirar. Mais um passo e, não só se aproximou da ilha, como a ilha se aproximou de si, atraída pela sua vontade, revelando como deturpadas eram as distâncias naquela sua terra. Era ela quem as definia.

Sereneia encontrava-se de pé, no centro da ilha. Os braços estavam abertos, as palmas das mãos encontravam-se voltadas para fora, enquanto os dedos apontavam para o estranho céu sem Lua, estrelas ou nuvens, consideravelmente afastados uns dos outros. Os orbes da mulher encontravam-se vítreos, fitos num mundo que não aquele. O que Liriana via não passava de uma pequena parcela da ciana, a parcela que se infiltrava nas mentes de outros, despercebidamente, através da voz, num local sensível do sistema nervoso central. Colocou um pé em terra, deixando pegadas das suas botas, na areia negra. O único ser vivo que ali se encontrava, alheara-se da sua chegada, não suspeitando sequer do quanto se avizinhavam. Não hesitou na sua aproximação silenciosa. Uma estranha ânsia apoderava-se de si, uma vontade da qual se envergonhava. Desejava magoar aquela mulher, tal e qual como ela magoava Landar. Se não era vontade de vingança a que sentia, não sabia o que mais poderia ser. Parou de frente para Sereneia, a menos de dez centímetros. Observou os bordados do seu vestido azul e lilás, enquanto reparava que a mulher era pouco mais alta que ela. No entanto, sentia-a ínfima, naquele lugar. Levantou os braços, lentamente, e deixou que as mãos se aproximassem do pescoço dela com um intento próprio bem definido. O que tencionava fazer conferia-lhe um certo prazer de realização há muito esperado. Porém…

As mãos detiveram-se abruptamente antes que os dedos resolvessem envolver o pescoço alto e elegante de Sereneia. Não podia fazê-lo. Estaria a tornar-se numa assassina, o mesmo que aquela gente era e o mesmo em que Vinyriah se tornara. Aquele ódio seria a própria sentença da sua alma, para além de que, estrangular aquela fracção de pessoa, não passaria de levar a cabo um instinto egoísta e bárbaro. Aquele concentrado espectro simplesmente fugiria do seu alcance, antes que pudesse fazer algo mais, deixando-a somente com o tremendo peso na consciência de ter tentado matar alguém, sem que o real motivo fosse salvar os seus amigos.

Os braços caíram ao lado do corpo, permitindo-se a respirar fundo, razoavelmente mais calma, depois daquela pequena batalha interior que conseguira vencer sozinha. Todavia, desse dia em diante, não esqueceria facilmente aquela sensação terrível que a satisfizera por momentos."

Fragmento do Príncipe do Mar do Interior
(Porque me apetecia pôr alguma coisa por estes lados xD)

sábado, 6 de março de 2010

Sem título


Seja o sangue o licor rubro,
Que degustas da densa chaga
Dos sem coração.

Seja essa a vida do absurdo,
À tormenta do termo levada,

Seja confim, o do futuro,
Quanto no peito dormitava,

Seja o dito mito imaturo,
O que por escrito falava
Na abnegação.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Voz do Coração


Valentim? Que dia este ecoa
O eco desvanecido do tempo a passar?
Ah! É somente um dia que se esvai
Hirto, de sorriso erguido, clamando amar.
Que no peito enternecido, idílica voz
É canto e sinfonia por vós!
Vós? Oh! Quem sois?
Somente aqueles que escutam
Voz cantante que sussurra muda,
Sentires atentos de desalentos,
E ternuras tão rubras de alma nua!
Sim, vós que me ouvis,
Vós que a mim sorris.
Que canto alto, tão alto,
Meus amores amados,
Para assim vos oferecer o Fado
Meu, o Destino a comandar.
Que não é mais este dia que um dia vão,
Tão vão que me eis a amar,
Dia após dia, perdida
Por palavras a ponderar
Com desdito coração.
Mas treme-me e eu hesito,
Temente aquela que escreve, minha mão,
E permaneço só com palavras,
Mas em voz digo, com o pensar,
Que só a vós sei amar.

Para todos os meus amigos fofos ^^

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O Fim do Passado


Ship, by Hymnodi

No dormente subentendido,
Falhei o golpe de morte inata.
Entrei na vaga maré vadia,
Voguei por vontades, sem vê-las,
Levado ao termo das tormentas.
E pereci por elas.

E que paraíso desencontrei,
Díspar do fogo do Fado onde ardo,
De cerne incandescente de afogado,
Nesse mar que ruge revolto,
Enterrado na terra nossa,
Do antigo Passado.

Memórias, lembranças…
Reminiscências remotas sem rota,
Caiadas no branco descolorido
Do que um dia era pintado,
Do mar o azul índigo,
E da terra o verde esperançado.

Aqui, morri contigo em mim,
Barco ao largo naufragado.
Coração meu, que me guiaste cego,
Tão cego, de mãos ao leme,
Agora decomposto, meu corroído Fado,
Que é o fim do Passado.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Ser poeta...

Ser poeta é saber cantar ao mundo o encanto do que se não vê,
É dar vida ao morrer e fazê-lo crescer em sorrisos de fadas,
Dançar ao ritmo da natura que se escreve e ao som das palavras,
É questionar o questionado e sabido, e dar-lhe um sentido
Diferente ao olhar e de erguida alma pendente.
Que o poeta é um cego que tudo vê, tão são de demente.
Um poeta é assim eterna gente.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Brisa de Gelo


Brindo à branda brisa que gela,
Levando o tom contido consigo.
Irmã essa do tom que folgo,
Somente daquele achar que vem vindo,
Sonho dado de frio em fogo,
Frio tão frio que incendeia a alma,
Rouba da triste o gélido, seu amigo
Ornado e fiel, que é dito consigo,
Sidéreo o espírito que canta baixinho,
Tom tão frio de aquecido,
Na sua brisa de gelo.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Crepúsculo


Ten of Swords, by Puimun

Repousei, de respiração vagarosa
Caminhando semi-passos de prosa,
Enquanto os versos corriam de mãos dadas
Sem esperar a pausa do descanso,
Inspirando o folgo inexistente.

Escaparam-se do olhar.
Perderam-se no horizonte obscurecido
Do decair diurno, enquanto a estrela mãe
Murmurava a sua despedida.
Partiram com ela.

E então, o crepúsculo cobriu-me.
Tão ledo e sussurrado, uma fracção de tempo
Tomada à noite que se erguia.
E ergui-me eu, no súbito do obscurecer,
Pois a ele não o queria.

Senti o afagar daquele redor que no adormecer
Sonhava por acordar noutra vida, e sorri.
Quão belo era aquele passar que não se coibia
Da maravilha de o ser no seu escasso tempo,
Aquele tempo que seria meu.

E abarquei-o com um abraço.
Apertei-o de encontro ao peito que gelava,
E absorvi-o, aquele que não era noite nem dia.
Aquele que não era calor nem frio,
À brisa amena.

E sim, seria eternamente meu.
O meio-termo que dita o fim e o início,
Na sua intrínseca fusão.
Um dos corações do mundo,
Preso ao meu coração.

Encerro o olhar para adormecer com ele,
Mas eis que oiço um canto
Em línguas passadas e idiomas por gerar,
No berço do correr do tempo
Do qual nascera.

Um canto histérico e murmurado,
Um cantar de eterna e dolorida alegria
Que se martirizava em prantos
Da sua perpétua e leda agonia.
Que eles tinham regressado!

Aqueles fugidios calcorreantes do mundo,
Almas doces e amargas de antagónico pensar,
Retornaram à pátria deste mundo e curvaram-se,
As mãos estendidas ao crepúsculo,
Convidando-o a dançar.

Que agora o meu bem-amado seria deles,
Enquanto eles seriam meus. Ambos meus.
Os Versos e o Crepúsculo. Talvez Versos Crepusculares.
Abrigados dos que se diziam reis,
Mas que, no entanto, não o eram.

E, numa noite remota de um tempo futuro,
Partiria à conquista do Amanhecer.
Que o Dia e a Noite seriam meus, sem o serem,
E os versos cantariam tão mais alto!
Para que deles os deuses não se pudessem esquecer.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Versos Soltos...


Ponto por ponto, pesponto
Pura ponte pela qual passarei.
Que para passar além
Do prado por onde passeei
Pintei de pontos a ponte,
Pela qual passei.

*

Mor era a vida cantada
Ontem, que a cantei alto.
Rugi como quem espanta
Gorda a morte que se empanturra!
Ora, cantei tão alto que enrouqueci,
Minha voz esvaiu-se,
Irrisória deste cantar onde prometi
Rir e cantar até que a voz se escoe.

E, por fim, morri.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O Canto da Sereia

O suave canto do rouxinol
É somente um esgar retorcido
A par do tom que exaltas.
Exímia a melodia que é contigo,
Tua vida e teu querer,
Teu poder de ser,
Tua mania, tua vontade.
Sinfonia leda que me embala
E resguarda das teias da verdade.
Que adormeço no teu cantar,
Adormeço e avanço tão cego,
Que me cegas da alma o pensar.

(Pertencente ao capítulo IX do Prín.)