quinta-feira, 29 de julho de 2010

Palavras Mudas


Words, by... me

Suspiras o não sabido
Que tão bem sabes conhecer.
E nos lábios prendem-se as palavras
Que falam mudas aos teus ouvintes
Sequiosos de o saber.
Mas o que é dito não é dito,
Fala o espírito que não se escuta.
Que saber inato é o teu
Pintado em tom de inaudito,
Pintado e escrito em letras sem ver?
Somente um pensamento que desdito
Se esconde no não dizer.

(Capítulo XI do Prín,
substituindo "Os Abismos", que passa para o capítulo XII)

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Necromancia (Acróstico)


Metamorphosis II, by Vladimir Kush

N
íveo, o cadente desaparecer que se consome
Ergue ao mundo o dito por dizer,
Clamando o nome que caiu.
Rumo ao Hades escurecido do profundo,
Orei por cada remar penado que ali me guiava.
Morta a Vida e viva a Morte que se escondia
Ao meu passar servil de olhar sadio
Nascido para a ver, desiludido para a chamar.
Conquanto o nome se esvaia no esquecimento,
Imortalizo-o, o da alma, e pinto-o no meu espírito.
A voz que clama é a minha, à qual há-de Ela abarcar.

(Dedicado ao meu querido necromante, o Leonardo)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O Suspiro das Pétalas


.Wind, by masKade

O Luar que alumia o horizonte remoto,
Transcreve-se nas pétalas efémeras
Que um dia murcharam sob o teu olhar.

Cada pétala espelha-se num suspiro cantado,
De tom soprado à subtil brisa do vento,
Que foi um dia o respirar.

Um suspiro que se expirou
Foi o escutado provindo de tão bela flor
Nascida do Sol da madrugada.

O despontar do perdido que se adensa
Por cada desabrochar que vai sendo luz
E cegueira, à vista magoada.

Que não vês o sentir que baila serpenteante,
Coberto de veludos nesse prado florido
De espinhos que tacteias.

As agulhas floridas são de toque melífluo,
Ínfimas abelhas que de flor em flor passeiam,
E te recolhem o mel das veias.

E a tua semente é abandonada na terra,
Submergida na espera do Tempo,
Sem ver que destino é o seu traçado.

Cantará assim teu sangue ao Luar,
Lembrando os dias em que era Vida
Sem vida e faminta pelo Fado.

No embalo do resguardo da Noite,
Suspiros de pétalas cantadas
São hoje o esquecimento.

Pintada a negro sobre o que era cor
Soprou a voz das Eras desbotadas
E escutou-se o uivar ledo do vento.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Dias Passados



Voltei os dias do avesso e sacudi-os.
Libertaram ledos espectros de temor
E almas quelatadas que da morte sofriam
Quanta da sua Fortuna, era a férrea dor,
A dos dias passados, a do desvario.

Voltei a sacudir, num ímpeto de raiva,
E tombou o coração do mundo,
Que não mais palpitava.
Escorreram as lágrimas já secas
E lânguidas de há muito não chorar.

Sacudi e resvalaram as mentiras do amar,
As tochas acesas que queimavam
Quando tocavam nas paredes dos dias.
Extingui-as, para não mais ver então
A pétrea luz dessa lassidão.

E, por fim, daquele somente sacudir,
Caíram-me os dias ao chão.
Os estilhaços extraíram entranhas de vida
E vivissecaram o tempo da terra ida,
No quebrar da eterna imensidão.

(sim, a foto feia fui eu que tirei!)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Dama Incorpórea


Air Spirit, by Moon Blossom

Remeto-te para o incorpóreo da alma,
Desdenhando da figura inerte que pende
Presa por veias de sangue.

A noite que te antecede é virgem.
Pintei-a nos teus cabelos ebúrneos d'obsidiana,
Um brilho obscuro de pura dama,
Que olhos teus são o Fado perdido da imensidão.

E um passo na Escuridão.
Um cantar de sussurro venéreo largado ao longe,
Efémero…

O doravante é escrito nos ossos que ficaram.
O corpo é vazio e destilado,
Trajado do fútil e ela do Nada trajada.
Por fim, etérea, minha doce amada.

(A ouvir "The Kraken")

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Acordar e Adormecer do Infinito

Tudo começou com um estrondo que estremeceu o Infinito, acordando-o do seu sono prolongado e aquecendo-o no que se tornaria um local repleto de vida, uma vida que pontilhava o que se chamaria Universo, um local belo e inóspito, repleto de antagonismos que floriam suaves e grosseiros.

E um desses antagonismos que desabrochou foi a espécie humana, animais bípedes de inteligência metódica, que se propagaram qual praga infestante, para lá do que deveria ser um lar, para além daquilo que diziam ser deles, mas que nem isso era. A Terra.

Passaram de terrestres a extraterrestres, esqueceram as suas origens e deixaram de ser quem eram, perdendo a alma que os definia como humanos, a integridade tricotada por uma compostura de células que se modificaram até serem mais e menos do que eram. Tornaram-se Asquerosos, seres tentaculares de espinhos dorsais e crueldade acrescida, que dominaram e dominaram até nada mais haver para dominar, que o Universo, que um dia nasceu, começou depois a regredir, murchando flores decompostas e deuses caídos.

E novamente o Infinito adormeceu, num sono vazio, assombrado por almas que se não deixaram diluir, por não serem moléculas nem átomos. Mas apenas memórias do antagonismo que existiu.

(Texto feito para o passatempo do blog BranMorrighan)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Inês de Castro (Acróstico)



Dona e Senhora do Coração de Portugal,
Olvidas em teus cabelos de obsidiana
Nossa alma benévola e cantiga profana,
A anciã candura de um povo imortal.

Idílica a tua presença, nossa flor sentida,
No romper do que foi lançado em fogo e dor.
Extinto? Não, que não se extingue o amor,
Somente o corpo que detêm a vida.

Duas almas de coração unido,
E é contada a História de um Portugal sofrido.

Contigo sonhou a alma do bem-querer,
Ai, lágrima minha, querida e doce Inês.
Sonhou Pedro, o Justo, o do teu alento.
Tirano o ente, tirana a alma descontente,
Rompeu-se efémera a vida ida.
Oh! Oramos à rubra rosa a sangue florida.

Que és ainda nossa amada Rainha,
Após a vida...

domingo, 16 de maio de 2010

Selecção Natural (Reformulado)

Sou o acaso determinante,
E o determinismo de todo casual.
De foice em punho e mão estendida,
Para o ousado que é distante,
Dito o pretendido e o informal.

Clamam-me alto, Demónio e Deus,
O Fado que baila com o respirar.
Somente o juiz cego que vê no réu
A partícula por escolher de entre os seus
E tudo o que na existência há por julgar.

Erijo assim o que no Mundo deveria ser,
Não selecciono o próspero que domina.
No vasto grito íngreme das Leis,
Do Nada escolho o Tudo do nascer,
E do Tudo escolho a neblina que é a Vida.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Hábitos de Leitura

Lalala... Como estava a precisar de descontrair um bocadinho com qualquer coisa, resolvi responder a um pequeno questionário sobre hábitos de leitura, seguindo os exemplos de três blogs pelos quais passei hoje a vista: Lydo e Opinado, As Leituras do Corvo, e Estante de Livros.

E aqui vai:

Petis­cas enquanto lês? Se sim, qual é o teu petisco favo­rito?
Se petisco... Bem, se tiver fome, vou buscar alguma coisa para comer, quanto leio. Mas não é algo a que possa chamar petisco. A não ser que tenha gomas escondidas algures pelo quarto... hehe

Qual é a tua bebida pre­fe­rida enquanto lês?
Não bebo enquanto leio. Posso me engasgar, ao ler alguma coisa interessante xD

Cos­tu­mas fazer ano­ta­ções enquanto lês, ou a ideia de escre­ver em livros horroriza-​te?
Anotações? Nunca! Os livros não são para serem profanados!

Como é que mar­cas o local onde ficaste na lei­tura? Um mar­ca­dor de livros? Dobras o canto da página? Dei­xas o livro aberto?
Nunca dobro o canto das páginas e assusto-me só de ver quem o faz. Normalmente utilizo um dos meus marcadores repetidos (ou seja, aqueles que não precisam de estar na colecção).

Fic­ção, não-​ficção, ou ambos?
Sempre ficção, que é uma forma de dar asas à imaginação.

És do tipo de pes­soa que lê até ao final do capí­tulo, ou páras em qual­quer sítio?
Paro ou tiver de parar, mas marco sempre o local onde paro, nem que tenha de pôr o marcador numa orientação fora do normal. Infelizmente, normalmente não posso parar quando quero, tenho de parar quando os outros querem.

És lei­tor para ati­rar um livro para o outro lado da sala ou para o chão quando o autor te irrita?
Pobre livro! O.O Simplesmente rogo umas quantas pragas ao autor.

Se te depa­ra­res com uma pala­vra des­co­nhe­cida, páras e vais pro­cu­rar o seu sig­ni­fi­cado?
Muito, muito, muito raramente. Normalmente tiro o significado pelo contexto, e só quando considero a palavra deveras incompreensivelmente interessante é que vou ver o seu significado.

O que é que estás a ler actu­al­mente?

Destino do Universo - Avatar, de Frederico Duarte; A Origem das Espécies, do Darwin;


Qual foi o último livro que com­praste?

A Fúria dos Reis, de George Martin; Sebastian, da Anne Bishop; Aprendiz de Assassino, da Robin Hobb;

Lês só um livro de cada vez, ou con­se­gues ler mais que um ao mesmo tempo?
Consigo ler mais do que um livro ao mesmo tempo, mas não é coisa que goste de fazer. Normalmente só leio dois livros simultaneamente porque sou obrigada de alguma forma (como agora... que alguém se lembrou de me obrigar a fazer um trabalho sobre a Origem das Espécies...)

Tens um lugar/​altura do dia pre­fe­rido para ler?
Um lugar favorito... no meu quarto, onde ninguém me perturba.

Pre­fe­res livros incluí­dos em séries ou inde­pen­den­tes?
Hm... Desde que sejam bons, tanto me faz que seja uma série ou um livro independente. Tenho em conta que me reservo mais para o género de Fantasia, acabo por ler mais as séries.

Existe algum livro ou autor espe­cí­fico que este­jas sem­pre a reco­men­dar?
O Drácula, do Stoker; a Trilogia das Jóias Negras, da Bishop; as barbaridades que eu própria escrevo... *cof cof*

Como é que orga­ni­zas os teus livros?
Organização? Que palavra tão estranha... Bem, normalmente coloco-os por autor e por colecção (e por vezes por ordem de tamanho)

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Os Abismos


Son of Midnight Sea, by Sedative God

O céu pintado a negro caiu,
Cantando aos deuses o seu choro
Temente de não poder retornar.
Que não retornou do Mar
Onde o seu choro se ouviu.
Tomaram-no em seus braços as ondas,
E aprofundaram-no de mágoa em si.
Profundo, tão profundo,
A profundeza que tingiu de si.
Que se criaram assim, nos recônditos,
Dos frios Mares da Incerteza,
Os negros abismos sem fim.

(Capítulo XI d'O Príncipe do Mar do Interior)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Sem título

O Sol cadente, que antecede o crepúsculo,
Pinta de fogo, o sangue de que é constituído
O mundo, na saga do viver.

Encandeia e queima, essa pintura,
E em cinzas nuas, reserva à noite,
O Luar seu do perecer.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Selecção Natural

Sou o acaso determinante,
E o determinismo casual.
De foice em punho e mão estendida,
Para o ousado que é diferente
Eu dito o modificar.

Clamam-me Deus e Demónio,
O Fado que baila com o que vive.
O juiz cego que vê no réu
A partícula por escolher
E tudo o que há por julgar.

Não erijo o que deveria ser
Não selecciono o dominante,
Mas o que irá ser e dominará.
Que faço do Tudo o Nada por existir
E do Nada escolho a vida que há-de vir.

(oh god, fiz um poema dedicado à SN, estou a ficar maluca!)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Niadin Midarvia


Moonbathing, by Puimun

As Estrelas são espíritos que dignam trajar de luz
O infinito de Sua Graça.
A Noite é barda voz dos sonhos e mitos
Que dominam o mundo.
O Luar é Sua palavra oferecida, cantada e escrita,
No sentir da alma.

Senhora de Olhar de Utopia,
Honram-te aqueles que não olvidam o que foi o tempo a passar,
Na fidelidade do Teu amar onde muitos se perderam.

Minial celdh i ladnar adian, niadin Midarvia

sábado, 1 de maio de 2010

Alma Fugida


Clock, by GruEliSm

A alma que no peito estremece,
É caricatura de sangue e carne escrita.
Do cárcere contido, na memória-cadáver,
É do corpo, seu morto vivo,
No limbo dos murmúrios.

E no tempo fugido do ponteiro que parou,
Antes da última badalada da vida,
Gritou o Ente de sentir vestido a negro,
Do perder que se viu vestido
Num corpo sem alma.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A Cor da Vida


Black, by 7th November

Será monocromática a dor?
Ou terá em si o colorido sabor,
Do que é fraqueza e cobardia?
Digo-a multicolor na sua agonia,
Em grito alto de rasgar a voz,
Um pranto erguido, só por vós,
Para que ouvis suplica tão muda.
Que é sofrida a mente arguta
Do perceber que perece em nada,
Mente que pensa, estagnada,
No Presente vazio que passou
E Futuro que seria e que ficou
Preso, por não ter sido
Migalha estendida ao mendigo
Que na morte do pensar,
Acabou na vida por matar
A existência a negro colorida…
Que negra é a fusão das cores da vida.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Voz dos Murmúrios


Reading in the Night, by Yoeah

Vorazmente, o silêncio consome-se,
Na noite que chove estrelas e luar.
E, no consumo que o ataca, é extinto,
Por si só faminto,
Na morte que é o ego de se amar.

E, assim, erguem armas os murmúrios
Que se fazem, pelo atento, ouvir.
Governam os sussurros dos espíritos,
Os monólogos dos antigos mitos,
Que, eternos, são o cerne do florir.

O renascer do que um dia, olvidado,
Caiu no silêncio do gritar.
Que os lírios cantam de tom e tempo breve,
Sua sinfonia de sonho leve,
A voz do vento, da terra e do mar…

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Fundamentos do Existir


Book of Fairy Tales, by Louvre89

FUNDAMENTOS PERDIDOS


Fundamentos são os que ditas mudo,
Delongados à vã noite vespertina,
Quando era crepúsculo o Passado diurno,
E as maleitas, falácias escritas.
Foram fundamentos no escuro,
Ebúrnea a tua letra erudita.

Rimaram sem rima os versos,
Tão soltos que os diria magos da magia.
Que contigo os fundamentos escreveram
Os da vida que se procria.
Que não morrem com os que morreram
Os que a branco vêem a escrita escurecida.

Anos são milénios, os que se vão,
Algures dormentes no caído da História.
Extintos do pensamento, porém não do coração
Aberto nos recônditos da memória,
Na essência que é só tua a paixão
Puro o sentimento da tua glória.

Ninguém o sabe, que não existe,
O Saber dito que é sabido em crer.
Contam-se, no obscurecido que persiste,
As chamas apagadas e os pavios cortados do ser.
Contam-se martírios dos sussurros que ouviste,
Mas não se contam os do reacender.

Canto perdido,
Conquanto o sangue ruge ao pulsar.
É esse sussurro que te é, ao ouvido,
A brisa que sopra leve no marulhar,
A promessa do que um dia foi prometido,
Promessa que irá um dia despertar.

Insiste, persiste no florir.
Do tímido despontar que te anseia,
Revejo desfocado aquele sorrir,
Tão tua a cândida luz que encandeia
Quando é luar solene, o do sentir,
No reflexo do rumor da lua cheia.

Sereno o Sempre que é teu,
Cravou-se descontido no coração.
Esse espelho de reflexo contido pereceu,
E em pranto, foi dito o “não”,
Não à concreta certeza de ser teu
Quanto do que era a infeliz Razão.

Crês que o santo graal
É o do sentir, não o da razão sagaz.
Somente é a vontade reinante, e por mal
Mundo pensado – que não penses – perfaz
A falta infundada de desdito dito racional,
Na mente da alma perspicaz.

Olvido assim teu mistério,
Os fundamentos pintados sob o engano
Da eternidade etérea do deletério.
Que o Presente permitiu-se ao desumano
Desenlace do que era ímpio, diáfano Império,
Na passada época do desengano.


FALSOS FUNDAMENTOS

Rumores ronronantes são sonhos,
Resquícios rendilhados em linha minha
Aos cegos do pressuposto que suponho
Ser o Ser que contigo caminha.
Ser por ter sido tão cego ao olho, zarolho,
Da teoria tua que tanto definha.

E nosso, o pão de cada dia,
É veneno escutado de vão inato,
Cerne em recorte, aquela renda que procria,
Bolor e fungo e fundamento emboscado,
Embora vida, por eles proscrita,
A do pequeno bolor bastardo.

Manchas são teorizadas,
Dos membros vivos excluídos.
O que é lâmina desfere facadas,
E no corpo, doença são sagrados imbuídos
Santos de mártir mórbida fachada.
Que, no final, são teus martírios.

Era esta, só é Era,
Quando banida for a força mor.
Se não é mundo o que de natura é fera,
Meu Mundo, que te canto eu a dor,
A que em mim só faz a espera,
Esperar do fundamento o seu amor.

Debemur morti nos nostraque,
A ceifa certa do que um dia foi passando.
Nós, mas não tu, que o demo a alma ataque,
A dos vulgares que lamentam seu pranto
Pérfido das lágrimas símias de seu saque
Sequioso… Oh! É do silêncio que me espanto.

Inverno, excluo-te do cosmo.
Hirta, vontade é a minha a de banir
Corrente que te aprisiona ao abismo,
E essa é a vontade, ó Fundamento do sorrir.
A minha e a dos cegos do aforismo,
Que veneram os Fundamentos do Existir.

Ouve, que te chamamos,
Fala ao mundo com a voz dos séculos
Nocturnos que adormecidos reclamamos.
Que quão são os teus ditos belos,
As máximas mínimas que imenso amamos,
Nós, os que te veneramos, nós, os incrédulos.

O ACORDAR DOS FUNDAMENTOS

Criaturas de credo incerto,
Recuso-vos a existência do não poder.
E peço aos deuses, que me escutam de perto,
No seu longínquo escutar do adormecer,
Peço-lhes o céu, e da voz o eco,
Do que foi um dia o grito de viver.

Ressuscita, de alma conquistadora,
Ressurge das cinzas, Fénix minha.
Sê a ave da espécie vindoura,
A da magia e do mito que caminha,
Sê assim, Fénix, nossa suprema senhora,
A senhora chamada Renascida!

Idolatrada essa força, a que tens,
Em palavras anciãs de ânsias inconstantes,
Reúnes das virtudes, em tuas mãos, os bens,
D’aqueles que não passam de puros instantes
Que sempre viveram dos ícones que deténs,
Cansados do que são, similares dos semelhantes.

Sonho novamente,
O mesmo que há séculos sonhei.
Mas eu, reencarnação de demente,
Sei-me são em tudo o que sei.
E creio que do meu devaneio de mente,
Será sonho meu, nossa lei.

Tu, só tu… sobre ti,
É o sonho contigo, o conhecido,
Das Cassandras da vidência em mim.
E murmúrio é agora o ouvido,
Que se adensa no nevoeiro espadachim
Do recortar que antecede o alvorecido.

Invades, então, a razão perpétua,
Despontada já é a beleza do pensar.
Tua é a alma despida, de preconceitos nua,
Nívea, imaculada no seu eterno conjecturar.
É essa a dramática peça que em mim actua.
Essa é a peça onde irei actuar.

Nalgum remoto nunca,
O Nada tentará evitar a tua renascença.
E porquê? Surge a pergunta,
E a resposta é a da inveja em sua crença,
Ínfimos muitos onde infinito s’ajunta,
E cresce em imortal crescença.

Ontem, foste nosso almejar,
Hoje és realidade que havia de ser.
Causa a qual quiseram fiéis amar,
Perante a força do esquecer.
Que, do tudo, só tu os podes sagrar
Santos, os Fundamentos do Viver.

(E isto foi uma prenda que fiz para um amigo. Porém, presumo que não lhe tenha agradado de sobremaneira, ou que nem sequer tenha adquirido o necessário tempo para a ler. E, no entanto, deixo-a a vós, meus caros e queridíssimos amigos, esperando que gostem ^^)

terça-feira, 23 de março de 2010

Fantasma de uma Rosa (final)

Ao término dos poucos minutos que tal fenómeno demorou a propagar-se, não se distinguiam já os perfis do que era e do que foi, as labaredas subindo em direcção ao céu, com uma só forma movediça, sobre a qual a chuva se precipitava, incansável, querendo saciar aquele ímpeto acordado que desabrochara, florindo na mais gloriosa e gigantesca flor. Os tons com que aquele fogo estava pintado, tornaram-se mais claros, à medida que os instantes se passavam, até atingir uma mistura do que poderiam ser tons de branco, se pudesse o branco ter várias tonalidades. Na sua intrincada dança, as mentes mais acordadas para a essência da Natureza, poderiam discernir um número sem fim de criaturas vivas, muitas delas nunca antes vistas pelos olhos humanos, que tantas vezes possuíam pálpebras invisíveis e sempre fechadas.

As chamas foram decaindo aos poucos e, em simultâneo, o céu desanuviou-se, as nuvens vazias de tanto chorar, considerando que era hora de cessar os louvores. Outro dia, noutra hora, talvez noutro mundo que não aquele, voltariam a agraciar a donzela branca, quando o tempo considerasse que seria correcto permitir-lhe vir ao mundo.

Por fim, as chamas extinguiram-se. E no entanto, no seu lugar não permaneceu a vulgar marca deixada por um qualquer fogo maligno, pois aquele não o era. Era certo que do primoroso coreto não ficara qualquer vestígio intacto, incinerado como o mais volátil dos materiais. Não obstante isto, o que realmente deveria ter-se extinto, propagou-se, mais fértil que outrora, cobrindo todos os locais a que os jardineiros se davam ao trabalho de podar, retirando-lhe a liberdade há muito implorada e agora concedida. As roseiras propagaram-se, floridas do seu escarlate de sangue… tanto sangue! Porventura era o reflexo do muito líquido vital que corria nas veias da jovem que desaparecera, aquando o incêndio. No centro dos remanescentes inanimados do coreto, floria também outra rosa, mas a esta fora roubada toda a tonalidade escarlate, como se despida de toda a mácula que tingia qualquer outro ser, as influências exteriores que manipulam o inato.

Os raios de sol afastaram as nuvens que encobriam o azul celeste. Sempre sorridente, o astro rei permitiu que o seu brilho se reflectisse nas gotículas que pontilhavam toda a vegetação. Agora, a terna donzela de branco amaria aquela morna amabilidade que era vida e morte para todos os que respiravam. A dor fora banida, assim como a consciência e o pensar que um dia seria novamente um ser com vontade própria.

E nessa inconsciência, não escutou os passos que pisaram a terra molhada, nem sentiu a mão que se precipitou para si, com um espanto incrédulo. Porém, a força abandonou o seu corpo, sem que pudesse dar conta, colhida da fonte que a sustinha, por um ente curioso que se apoderara de uma raridade que sempre o seria. Um último beijo tocou-lhe nas pétalas, uma breve despedida, um “até amanhã” para a vida que decaía.

As últimas gotas que choviam, já longe do alcance humano, adornavam o céu com um ténue arco-íris que começava naquele mundo e acabava noutro, muito além, donde espreitava o desconhecido que muitos não ousavam revelar. Dos que possuíam essa audácia, poucos sobreviviam, pois poucos mereciam sobreviver. Contudo, os que voltavam, jamais eram os mesmos. A maioria que tinha conhecimento desse fenómeno de ida e volta, chamava fantasmas àqueles que transpunham as muralhas entre-mundos. No entanto, eram mais, muito mais do que isso. Tal como aquela donzela. Ontem fora borboleta ingénua, que o vento guiara; hoje era rosa, criada pelo fogo; e, amanhã, o que será? As hipóteses distribuem-se numa imensidão de Tudo e Nada, mas algo é certo, será o que no seu espírito se reflicta: um mundo, um universo, um infinito… um ciclo de eternidade efémera.


sábado, 20 de março de 2010

Fantasma de uma Rosa (continuação)

Respondeu-lhe com uma risada, executando uma vénia respeitosa, o comprido cabelo alvo escorregando em direcção ao chão, mas sem lhe tocar.

“É para mim uma honra ser a agraciada do vosso cumprimento”, disse, antes de voltar a endireitar as costas e continuar o seu passeio pelo jardim, com destino ao centro deste, onde fora construído um pequeno coreto, cem anos atrás.

As colunas que sustentavam o tecto, torciam-se sobre si próprias, formando espirais em redor das quais os espinhosos ramos das roseiras floridas se quiseram envolver, um dia, finos no princípio dos tempos, mas agora quase com a espessura do seu pulso delgado. No meio do coreto, fora construída uma fonte baixa, no íntimo da qual se elevava a estátua de uma sereia que, sobre o colo escamoso, segurava uma das estrelas que caíra do céu, e se fora implantar nos mares. De braço erguido, a outra mão amparava uma rosa em pedra, donde um pequeno repuxo brotava, salpicando a água onde meia dúzia de peixinhos dourados nadava tranquilamente. Há uma semana atrás, eram, na verdade, sete seres aquáticos que ali residiam, todavia um morrera e servira de alimento aos companheiros que fizeram questão de o integrar em si, outra forma de eternizar um ser vivo, junto às almas dos irmãos.

Sentou-se num banco comprido mas raso, e cruzou as pernas, agora já protegida da chuva que se precipitava alegremente. Levou uma madeixa encharcada para trás da orelha. Se o pai a visse naquele estado, dar-lhe-ia uma severa descompostura, relembrando-lhe que não seria assim que um jovem senhor lhe tomaria a mão. Não sabia ele que tomada já a sua mão se encontrava, a incorpórea aliança colocada no dedo anelar, desde que nascera ao frio da madrugada. Atentou o céu e as formações volumosas que pareciam incansáveis no seu ledo choro. Um novo relâmpago iluminou os céus, desta vez um raio flamejante que se precipitou dos altos, fendendo o ar e perecendo a alguma distância, numa queda magistral. Mais depressa do que o anterior, o segundo grito do universo fez-se ouvir, tão definido aos seus ouvidos que poderia ser humano. E não teria ele um pouco de cada ser em si?

Esticou a mão para uma das rosas próximas, e afagou-a, permitindo que os orbes azuis se deixassem mergulhar na meditação. Um fumo branco ergueu-se das pétalas onde os seus dedos tocavam, enquanto o escarlate passava a um tom laranja flamejante. O processo pareceu lento, sob o seu olhar, porém à observação de um comum mortal, as pétalas teriam transformado aquela rosa numa flor de fogo. Sem autorização prévia, a chama não se propagou à restante planta, como seria esperado, mantendo-se acesa entre a sua mão, os tons das labaredas dançando ao vento que se projectava pelas arcadas.

Dois relâmpagos precipitaram-se do céu e atraíram-se num só, caindo a pouco mais de um metro do coreto. A chuva intensificou-se, a sua natureza mudando de estado, aos poucos, tornando o ambiente mais frio com o gelo de que agora era feita, para amenizar aquela chama ardente que provinha do seu âmago. Algum do granizo chegou mesmo a penetrar aquele pequeno santuário, por pouco tempo, derretendo-se nos segundos seguintes, numa célere mudança de estado que tinha como catalisador a sua mera presença. O rugido proferido pelos céus, desta vez, fez estremecer as fundações da construção onde a donzela se encontrava e fê-la arrepiar-se, porém não de temor, e sim do prazer de observar a manifestação que o clima ritualizava, intensificando-se segundo a segundo, perceptível aos cegos e fazendo-se sentir até mesmo pelos insensíveis que, esses sim, tremeriam de medo, a alma querendo fugir-lhes do corpo. No entanto, estando irremediavelmente presa, só podia magoar o invólucro que habitava, nas suas tentativas ridículas de vãs, de escapar.

Lentamente, as pálpebras de pestanas compridas encerraram-se. A mão escorregou da flor para o caule, acariciando-o, enquanto o transmutava no mais puro fogo que seguiu o labirinto entrançado de ramos, acendendo-os, num rápido rastilho luminoso que, partícula a partícula, transformou todas as roseiras num círculo de fogo, no qual a origem era ela. Após isto, o fogo enveredou pela única rosa que ainda não fora colhida por si, a rosa branca, estendendo uma língua alaranjada para o punho rendilhado do vestido, na mais eterna fome. Depressa todo o vestido se inflamou, num espectáculo que nem o melhor ilusionista poderia proporcionar. Quantas damas não desejariam poder afirmar que vestiam um próprio Elemento, revelando-se das mulheres mais elegantes e exóticas do Universo? Imensas, mas só aquela podia vangloriar-se de realmente o ser, sem almejá-lo. Mas aceitando-o com a maior das honras.

O alto do mundo tornou-se cada vez mais negro, contrastando com os relâmpagos que se precipitavam e as chamas que ardiam, qual milhares de archotes unidos, tomando conta do seu corpo. A própria pedra, de que era feito o coreto, incendiou-se, e a sereia gritou, da sua fonte, quando se deu conta que não era ela imune àquele fogo mágico que parecia poupar os vivos mas não os inanimados, pensando se seria aquele o Inferno dos sem alma, os que não possuíam a chama do fulgor crepitante. Porém, todos esses pensamentos pereceram, pois também ela morreu, consumida.

Continua...

(imagem por Majin-sama - White Rose)