terça-feira, 14 de setembro de 2010

Pintura a Palavras

Genealogy Tree, Vladimir Kush

Nada é disforme na disformidade do mundo. O tempo decai e avança no decair, consumindo e recriando o que consome e dando mostras do que se faz e desfaz nas rotas do mundo. Um dia foi criança que não se vê nos primórdios perdidos, no outro a árvore que cresceu e floresceu, oferecendo os seus frutos aos meninos esquecidos, para que deles não mais se esquecessem. Mergulhando no distante dos dias idos, retornando ao longínquo que se adensa nos dias que virão. E dás uma dentada que se incendeia na boca que não come, alumiando o espírito de fogo arrefecido. Que ele acorde, se ergue dos ramos e voe, que é vida eterna.

Para o Colinas de Palavras

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O Que Julgo...

O alvo sentimento incorpóreo
Que vedes no olhar em ti perdido,
Das palavras algures proferidas
Destoa do que escutastes, ao ser dito,
Num tom que refuto, sem fé,
Por ser o que não é.
Que o teu olhar diz algo mais,
O que o coração não corrompe,
O que na mente algures olvidais.
E o que julgo é o teu olhar,
Palavra não dita que em ti irrompe
Do profundo da alma, desse mar.

Céu

Olhai! Se não é o céu
Que se desvenda nos meandros da terra,
Nascido da morte de que se despoja.
Contai o tempo em que renasceu
Pintado em tinta de plebeu
E preenchido do sagrado que em si aloja.
Que se ergue de plumas brancas
E lembranças trajadas do amargo.
Mas pereceu e renasceu,
Que da vida não se apartou o Fado.
E aos altos o céu se ergueu
Na luz que um dia foi o passado.

Sonho Envenenado

Sonha um novo sonho
Ao embalo que te canta a noite.
Sonha que sonhaste o voo
Sob o luar vítreo da madrugada.
Que de sonhos se constrói o mundo
E o castelo das tuas cartas.
Sopra o vento e o castelo decai.
Sopra o vento, que a vida se esvai.
Que um sonho só é sonho
Quando o desejo é semente plantada.
Mas o sonho morre se de veneno
For o rebento da orvalhada.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A Mais Simples Flor




Perscruto o mar da incerteza
No canteiro a níveo florido.
Que não carece da ebúrnea beleza,
A mais simples flor do jardim.
Traja-se dela a sua própria pele,
De veludo e seda contrastante, assim
Lembrando a amizade mais pura,
A que é nua de preconceitos,
Tricotada de perfume e candura,
Desabrochada em orvalho e condão
De fada, a varinha minha,
Que lhe tocou o coração.

(Pertencente à nova dedicatória do Retrato)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Palavras Mudas


Words, by... me

Suspiras o não sabido
Que tão bem sabes conhecer.
E nos lábios prendem-se as palavras
Que falam mudas aos teus ouvintes
Sequiosos de o saber.
Mas o que é dito não é dito,
Fala o espírito que não se escuta.
Que saber inato é o teu
Pintado em tom de inaudito,
Pintado e escrito em letras sem ver?
Somente um pensamento que desdito
Se esconde no não dizer.

(Capítulo XI do Prín,
substituindo "Os Abismos", que passa para o capítulo XII)

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Necromancia (Acróstico)


Metamorphosis II, by Vladimir Kush

N
íveo, o cadente desaparecer que se consome
Ergue ao mundo o dito por dizer,
Clamando o nome que caiu.
Rumo ao Hades escurecido do profundo,
Orei por cada remar penado que ali me guiava.
Morta a Vida e viva a Morte que se escondia
Ao meu passar servil de olhar sadio
Nascido para a ver, desiludido para a chamar.
Conquanto o nome se esvaia no esquecimento,
Imortalizo-o, o da alma, e pinto-o no meu espírito.
A voz que clama é a minha, à qual há-de Ela abarcar.

(Dedicado ao meu querido necromante, o Leonardo)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O Suspiro das Pétalas


.Wind, by masKade

O Luar que alumia o horizonte remoto,
Transcreve-se nas pétalas efémeras
Que um dia murcharam sob o teu olhar.

Cada pétala espelha-se num suspiro cantado,
De tom soprado à subtil brisa do vento,
Que foi um dia o respirar.

Um suspiro que se expirou
Foi o escutado provindo de tão bela flor
Nascida do Sol da madrugada.

O despontar do perdido que se adensa
Por cada desabrochar que vai sendo luz
E cegueira, à vista magoada.

Que não vês o sentir que baila serpenteante,
Coberto de veludos nesse prado florido
De espinhos que tacteias.

As agulhas floridas são de toque melífluo,
Ínfimas abelhas que de flor em flor passeiam,
E te recolhem o mel das veias.

E a tua semente é abandonada na terra,
Submergida na espera do Tempo,
Sem ver que destino é o seu traçado.

Cantará assim teu sangue ao Luar,
Lembrando os dias em que era Vida
Sem vida e faminta pelo Fado.

No embalo do resguardo da Noite,
Suspiros de pétalas cantadas
São hoje o esquecimento.

Pintada a negro sobre o que era cor
Soprou a voz das Eras desbotadas
E escutou-se o uivar ledo do vento.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Dias Passados



Voltei os dias do avesso e sacudi-os.
Libertaram ledos espectros de temor
E almas quelatadas que da morte sofriam
Quanta da sua Fortuna, era a férrea dor,
A dos dias passados, a do desvario.

Voltei a sacudir, num ímpeto de raiva,
E tombou o coração do mundo,
Que não mais palpitava.
Escorreram as lágrimas já secas
E lânguidas de há muito não chorar.

Sacudi e resvalaram as mentiras do amar,
As tochas acesas que queimavam
Quando tocavam nas paredes dos dias.
Extingui-as, para não mais ver então
A pétrea luz dessa lassidão.

E, por fim, daquele somente sacudir,
Caíram-me os dias ao chão.
Os estilhaços extraíram entranhas de vida
E vivissecaram o tempo da terra ida,
No quebrar da eterna imensidão.

(sim, a foto feia fui eu que tirei!)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Dama Incorpórea


Air Spirit, by Moon Blossom

Remeto-te para o incorpóreo da alma,
Desdenhando da figura inerte que pende
Presa por veias de sangue.

A noite que te antecede é virgem.
Pintei-a nos teus cabelos ebúrneos d'obsidiana,
Um brilho obscuro de pura dama,
Que olhos teus são o Fado perdido da imensidão.

E um passo na Escuridão.
Um cantar de sussurro venéreo largado ao longe,
Efémero…

O doravante é escrito nos ossos que ficaram.
O corpo é vazio e destilado,
Trajado do fútil e ela do Nada trajada.
Por fim, etérea, minha doce amada.

(A ouvir "The Kraken")

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Acordar e Adormecer do Infinito

Tudo começou com um estrondo que estremeceu o Infinito, acordando-o do seu sono prolongado e aquecendo-o no que se tornaria um local repleto de vida, uma vida que pontilhava o que se chamaria Universo, um local belo e inóspito, repleto de antagonismos que floriam suaves e grosseiros.

E um desses antagonismos que desabrochou foi a espécie humana, animais bípedes de inteligência metódica, que se propagaram qual praga infestante, para lá do que deveria ser um lar, para além daquilo que diziam ser deles, mas que nem isso era. A Terra.

Passaram de terrestres a extraterrestres, esqueceram as suas origens e deixaram de ser quem eram, perdendo a alma que os definia como humanos, a integridade tricotada por uma compostura de células que se modificaram até serem mais e menos do que eram. Tornaram-se Asquerosos, seres tentaculares de espinhos dorsais e crueldade acrescida, que dominaram e dominaram até nada mais haver para dominar, que o Universo, que um dia nasceu, começou depois a regredir, murchando flores decompostas e deuses caídos.

E novamente o Infinito adormeceu, num sono vazio, assombrado por almas que se não deixaram diluir, por não serem moléculas nem átomos. Mas apenas memórias do antagonismo que existiu.

(Texto feito para o passatempo do blog BranMorrighan)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Inês de Castro (Acróstico)



Dona e Senhora do Coração de Portugal,
Olvidas em teus cabelos de obsidiana
Nossa alma benévola e cantiga profana,
A anciã candura de um povo imortal.

Idílica a tua presença, nossa flor sentida,
No romper do que foi lançado em fogo e dor.
Extinto? Não, que não se extingue o amor,
Somente o corpo que detêm a vida.

Duas almas de coração unido,
E é contada a História de um Portugal sofrido.

Contigo sonhou a alma do bem-querer,
Ai, lágrima minha, querida e doce Inês.
Sonhou Pedro, o Justo, o do teu alento.
Tirano o ente, tirana a alma descontente,
Rompeu-se efémera a vida ida.
Oh! Oramos à rubra rosa a sangue florida.

Que és ainda nossa amada Rainha,
Após a vida...

domingo, 16 de maio de 2010

Selecção Natural (Reformulado)

Sou o acaso determinante,
E o determinismo de todo casual.
De foice em punho e mão estendida,
Para o ousado que é distante,
Dito o pretendido e o informal.

Clamam-me alto, Demónio e Deus,
O Fado que baila com o respirar.
Somente o juiz cego que vê no réu
A partícula por escolher de entre os seus
E tudo o que na existência há por julgar.

Erijo assim o que no Mundo deveria ser,
Não selecciono o próspero que domina.
No vasto grito íngreme das Leis,
Do Nada escolho o Tudo do nascer,
E do Tudo escolho a neblina que é a Vida.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Hábitos de Leitura

Lalala... Como estava a precisar de descontrair um bocadinho com qualquer coisa, resolvi responder a um pequeno questionário sobre hábitos de leitura, seguindo os exemplos de três blogs pelos quais passei hoje a vista: Lydo e Opinado, As Leituras do Corvo, e Estante de Livros.

E aqui vai:

Petis­cas enquanto lês? Se sim, qual é o teu petisco favo­rito?
Se petisco... Bem, se tiver fome, vou buscar alguma coisa para comer, quanto leio. Mas não é algo a que possa chamar petisco. A não ser que tenha gomas escondidas algures pelo quarto... hehe

Qual é a tua bebida pre­fe­rida enquanto lês?
Não bebo enquanto leio. Posso me engasgar, ao ler alguma coisa interessante xD

Cos­tu­mas fazer ano­ta­ções enquanto lês, ou a ideia de escre­ver em livros horroriza-​te?
Anotações? Nunca! Os livros não são para serem profanados!

Como é que mar­cas o local onde ficaste na lei­tura? Um mar­ca­dor de livros? Dobras o canto da página? Dei­xas o livro aberto?
Nunca dobro o canto das páginas e assusto-me só de ver quem o faz. Normalmente utilizo um dos meus marcadores repetidos (ou seja, aqueles que não precisam de estar na colecção).

Fic­ção, não-​ficção, ou ambos?
Sempre ficção, que é uma forma de dar asas à imaginação.

És do tipo de pes­soa que lê até ao final do capí­tulo, ou páras em qual­quer sítio?
Paro ou tiver de parar, mas marco sempre o local onde paro, nem que tenha de pôr o marcador numa orientação fora do normal. Infelizmente, normalmente não posso parar quando quero, tenho de parar quando os outros querem.

És lei­tor para ati­rar um livro para o outro lado da sala ou para o chão quando o autor te irrita?
Pobre livro! O.O Simplesmente rogo umas quantas pragas ao autor.

Se te depa­ra­res com uma pala­vra des­co­nhe­cida, páras e vais pro­cu­rar o seu sig­ni­fi­cado?
Muito, muito, muito raramente. Normalmente tiro o significado pelo contexto, e só quando considero a palavra deveras incompreensivelmente interessante é que vou ver o seu significado.

O que é que estás a ler actu­al­mente?

Destino do Universo - Avatar, de Frederico Duarte; A Origem das Espécies, do Darwin;


Qual foi o último livro que com­praste?

A Fúria dos Reis, de George Martin; Sebastian, da Anne Bishop; Aprendiz de Assassino, da Robin Hobb;

Lês só um livro de cada vez, ou con­se­gues ler mais que um ao mesmo tempo?
Consigo ler mais do que um livro ao mesmo tempo, mas não é coisa que goste de fazer. Normalmente só leio dois livros simultaneamente porque sou obrigada de alguma forma (como agora... que alguém se lembrou de me obrigar a fazer um trabalho sobre a Origem das Espécies...)

Tens um lugar/​altura do dia pre­fe­rido para ler?
Um lugar favorito... no meu quarto, onde ninguém me perturba.

Pre­fe­res livros incluí­dos em séries ou inde­pen­den­tes?
Hm... Desde que sejam bons, tanto me faz que seja uma série ou um livro independente. Tenho em conta que me reservo mais para o género de Fantasia, acabo por ler mais as séries.

Existe algum livro ou autor espe­cí­fico que este­jas sem­pre a reco­men­dar?
O Drácula, do Stoker; a Trilogia das Jóias Negras, da Bishop; as barbaridades que eu própria escrevo... *cof cof*

Como é que orga­ni­zas os teus livros?
Organização? Que palavra tão estranha... Bem, normalmente coloco-os por autor e por colecção (e por vezes por ordem de tamanho)

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Os Abismos


Son of Midnight Sea, by Sedative God

O céu pintado a negro caiu,
Cantando aos deuses o seu choro
Temente de não poder retornar.
Que não retornou do Mar
Onde o seu choro se ouviu.
Tomaram-no em seus braços as ondas,
E aprofundaram-no de mágoa em si.
Profundo, tão profundo,
A profundeza que tingiu de si.
Que se criaram assim, nos recônditos,
Dos frios Mares da Incerteza,
Os negros abismos sem fim.

(Capítulo XI d'O Príncipe do Mar do Interior)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Sem título

O Sol cadente, que antecede o crepúsculo,
Pinta de fogo, o sangue de que é constituído
O mundo, na saga do viver.

Encandeia e queima, essa pintura,
E em cinzas nuas, reserva à noite,
O Luar seu do perecer.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Selecção Natural

Sou o acaso determinante,
E o determinismo casual.
De foice em punho e mão estendida,
Para o ousado que é diferente
Eu dito o modificar.

Clamam-me Deus e Demónio,
O Fado que baila com o que vive.
O juiz cego que vê no réu
A partícula por escolher
E tudo o que há por julgar.

Não erijo o que deveria ser
Não selecciono o dominante,
Mas o que irá ser e dominará.
Que faço do Tudo o Nada por existir
E do Nada escolho a vida que há-de vir.

(oh god, fiz um poema dedicado à SN, estou a ficar maluca!)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Niadin Midarvia


Moonbathing, by Puimun

As Estrelas são espíritos que dignam trajar de luz
O infinito de Sua Graça.
A Noite é barda voz dos sonhos e mitos
Que dominam o mundo.
O Luar é Sua palavra oferecida, cantada e escrita,
No sentir da alma.

Senhora de Olhar de Utopia,
Honram-te aqueles que não olvidam o que foi o tempo a passar,
Na fidelidade do Teu amar onde muitos se perderam.

Minial celdh i ladnar adian, niadin Midarvia

sábado, 1 de maio de 2010

Alma Fugida


Clock, by GruEliSm

A alma que no peito estremece,
É caricatura de sangue e carne escrita.
Do cárcere contido, na memória-cadáver,
É do corpo, seu morto vivo,
No limbo dos murmúrios.

E no tempo fugido do ponteiro que parou,
Antes da última badalada da vida,
Gritou o Ente de sentir vestido a negro,
Do perder que se viu vestido
Num corpo sem alma.