Esborratei a parede com tinta-da-china que não escorreu e observei como as linhas se emaranhavam e recriavam a teia negra das suas entranhas. Com cuidado, juntei-lhe um pincel e ajudei-a na reunião de cada gota de sangue obscurecido pela essência. E pouco depois tinha-a, mais corpórea que o sonho, mais viva que o retrato da Morte. Carinhosamente estendi-lhe a mão que ela, muito tímida, segurou na sua frieza. Os veios de tinta uniram-se com os meus vasos sanguíneos, quebrando-os e imiscuindo-se num reconhecimento de alma recém-nascida. Estendi a outra mão, e puxei-a da parede que a prendia para que fosse livre da tela onde fora tão bruscamente criada. Trôpega, contactou com o chão, a nova pintura onde se movia, não compactada de encontro a ele, mas corpórea. Parecia simplesmente estupefacta, enquanto eu sorria, apontando-lhe uma mesa ao meu lado, onde reunira todas as cores do mundo, todas as essências roubadas, todas as vozes, todos os gritos, todos os prantos e todos os sorrisos. Tudo para ela. Então, não esperou e precipitou-se, mergulhando nas tintas de Vida, ganhando a sua, misturando-se com a base de negro original. Observei a felicidade de que se ungia, enquanto perdia a minha. Pelas mãos que a agarrara escorriam o sangue, a pele, os sentidos, o pensamento. E no meu último olhar consciente, ela era uma sombra livre. Agora, serei eu o seu ser servente, um vulto capturado na liberdade de outrem.
domingo, 2 de janeiro de 2011
sábado, 1 de janeiro de 2011
Lágrimas do Mar
Três lágrimas pereceram no oceano
Lavado das angústias que suspira.
E correram por ele escutando
Velha cantiga, a do seu pranto,
Vontades levadas, vontades caídas.
O corpúsculo molecular que se adensa,
Da densidade da força se imiscui.
E grita no grupo desunido,
Que as lágrimas serão suas de suspiro,
E que entrecortada a respiração cessará.
Que não respiram já as ondas,
Superaram o seu langor do inspirar.
E no meu colo expiraram o sal da desventura.
A escuma que se abate perdeu a brancura,
Que agora são somente lágrimas do mar.
Confinadas ao eterno que adensa e evapora,
Lágrimas vertidas são hoje o mar da demora
Dessecado em alma e cristal carmim.
Ergue-se o vento e sopra o que foi desfeito,
O sonho é Fénix que te aquece o peito
E as lágrimas são flores que navegam o mar do fim.
Lavado das angústias que suspira.
E correram por ele escutando
Velha cantiga, a do seu pranto,
Vontades levadas, vontades caídas.
O corpúsculo molecular que se adensa,
Da densidade da força se imiscui.
E grita no grupo desunido,
Que as lágrimas serão suas de suspiro,
E que entrecortada a respiração cessará.
Que não respiram já as ondas,
Superaram o seu langor do inspirar.
E no meu colo expiraram o sal da desventura.
A escuma que se abate perdeu a brancura,
Que agora são somente lágrimas do mar.
Confinadas ao eterno que adensa e evapora,
Lágrimas vertidas são hoje o mar da demora
Dessecado em alma e cristal carmim.
Ergue-se o vento e sopra o que foi desfeito,
O sonho é Fénix que te aquece o peito
E as lágrimas são flores que navegam o mar do fim.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Alumiar da Noite
O alumiar que raia na noite
É de olhares e esgares pintado.
O perfume que emana enfeitiça
E o sonho que é engana a Justiça,
A Sorte dada, e o Deus por cair.
Quão imenso se adensa no nevoeiro…
Perdida, a alma toma-o por trilho,
Luz essa que cega, Luz do encobrir.
Porém a dor que transmite consome
O conto que o chama Alumiar.
Que alumiação é agora a Fome
E a doce Mentira do cantar.
(Capítulo XIII do Prín)
É de olhares e esgares pintado.
O perfume que emana enfeitiça
E o sonho que é engana a Justiça,
A Sorte dada, e o Deus por cair.
Quão imenso se adensa no nevoeiro…
Perdida, a alma toma-o por trilho,
Luz essa que cega, Luz do encobrir.
Porém a dor que transmite consome
O conto que o chama Alumiar.
Que alumiação é agora a Fome
E a doce Mentira do cantar.
(Capítulo XIII do Prín)
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Acróstico
Amas o céuNacarado de vida e luz,
Acha ardente que se derrama.
Filha do firmamento,
Ilustra o sonho de um dia longo
Levando a lua em teus braços,
Irmã do que um dia foi
Portal fechado do mundo ancião,
A árvore caída que deu semente.
Governas assim o mundo e é tua
União a que um dia em latência pereceu.
Estepes frias, as do tiritar,
Respondem amanhã ao sol lunar,
Respondem que a senhora da lua
Alumia e floresce a noite.
Sim, sabes o segredo apagado.
Interna a voz que se esconde
Leva em si contido o canto do viver.
Valsas são bailadas ao escurecer,
A brisa é calma e o coração adormece.
Grandíloquo então é o grito
Orlado de luz fria que pinta em retrato
Manchas da prata e d’ouro celta.
Estranha o que baila ao som do antes
Som do agora, alma pura.
Donde o vento grita
A semente aprende a brotar.
Perdes então a lua em teus braços,
Infinita nos céus ascende a Deusa.
Embora a distância que aparta corações,
Doravante o âmbar branco que se incendeia
Abraça o profundo.
Doravante será noite iluminada
E poderás ver o mundo.
Para Joli, de quem muito gosto, e que está algures num país para além do meu mapa de Portugal
(daaah!)
Já há uns bons tempos que não escrevo poesia (e não ficou nada de especial, diga-se...)
Lacunas de
Dedicatória,
Poesia
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Pacto Quebrado
Tudo o que se inicia tem um dia um fim. Mesmo para nós, ditos imortais, nós que permanecemos para além da idade para que fomos construídos. Porém, quão grande é a dor que nos consome, quando os vimos partir muito antes do previsto, quando estamos deitados à sua beira, apertados nos seus braços, e sentimos que o último suspiro se esvai levado pela devoradora do tempo, aquela que dilacera o corpo e deixa somente a alma extenuada. Assim foi com a Pequenina. Durante a noite, trajado no seu vestido de anjo, o espírito abandonou o corpo onde habitara durante cinco anos. Senti quando o invólucro que me apertava esfriou, e abri os olhos sem pálpebras para fitar o tecto gretado, com os meus pequenos olhos em forma de pérola. E vi-a, um espectro esguio de olhar incompreendido, tão pequeno como outrora fora. Não, ela não percebia o que acontecera. Mas o meu inato sabia-o, nascera para o compreender, pois todos nós nascíamos para perder aqueles que amávamos. Porém, não assim.
Saí de entre os braços mortos que me abraçavam e trepei pela almofada, estendendo os membros superiores pequenos e sem dedos para o espírito. “Vem a mim, regressa e vive. Não voes para as distâncias desconhecidas do ermo mundo dos céus, não para já, Pequenina. Volta”.
Notei o espanto que se espalhou na sua face translúcida. Eu acabara de fazer o que ela sempre ansiara, algo que estava proibido de fazer, por todas as Leis que me mantinham vivo. Uma pressão súbita apertou-me o peito, esmagando-me o coração de esponja. Mas não deixei de lhe estender os braços, de a chamar a mim.
“Regressa e volta a rir e a chorar, volta a perguntar o porquê das coisas”.
E ela estendeu ambas as mãos de dedos pequenos para mim, tentando agarrar-me, mas sem ser capaz de fazê-lo. Quando o seu corpo incorpóreo passou através do meu, pude constatar o quão frio e líquido parecia. Lembrava-me as vezes em que a progenitora da minha Pequenina me colocara na estranha máquina que me enchia de água e espuma e me fazia rodar incessantemente.
“Não. Antes tens de voltar para ali”, indiquei com o meu braço azul e esponjoso.
Ela olhou para o corpo e acenou negativamente. Não queria regressar. A voz da minha Pequenina chegou até mim: “É triste, estou sozinha”.
“Não estás, eu estou contigo, vou sempre estar, como sempre estive”.
Ela fitou-me por uns momentos, pensando nas palavras que escutara. E, por fim, sorriu.
“Sim, estiveste”, constatou o seu espírito.
E, sem esperar por autorização, desceu de volta ao corpo. Abeirei-me da face dela, tocando-lhe com o tecido que me cobria. Quanto ao meu interior, estava a ser percorrido por sucessivos laivos de dor não demonstrada, mas aguardei até ver o que desejava. As pálpebras da Pequenina estremeceram e o seu rosto ganhou nova cor. Os olhos abriram-se, revelando a íris castanha-clara, pontilhada de estrelas douradas. A minha menina voltara! Quando ela mexeu os braços para me agarrar, senti que algo se rompia no meu inato e soltei um grito mudo. O Pacto fora quebrado, uma humana viva vira-me vivo, eu, um simples urso de peluche. Não mais a visão humana contemplaria o meu corpo mexer-se. Todos tínhamos uma oportunidade e eu gastara a minha, pela minha Pequenina. Ainda escutei a sua vozinha chamar por mim, mas a resposta extinguiu-se antes que pudesse pronunciá-la. E agora sou um peluche cego, insensível… morto. Mas a minha menina vive.
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Prosa
sábado, 2 de outubro de 2010
Outono
Se o vento soprar forte e murchar a vida, não é desdito o seu acto. Se perecerem dos altos as folhas douradas de um dia presente, chama-lhes hoje Passado. Que se esvai a vida num sono despido ao frio que se agita. E enquanto conto os ramos nus, adormeces também tu no teu aguardar. Almejas, sonhando, nascente Sol, que o seu raiar se eterniza, cantando. Divagas pelas brumas campestres dos tons quentes que se destilam. E perdes-te, perfume efémero de flor, nos meandros retratados. És pintura melancólica que contemplo de olhar espelhado. És sussurro que se exalta, sussurro silenciado. As lágrimas cerúleas fustigam teu corpo. As partículas gelam-te a alma. E o vento grita. A noite adensa-se. Retornaste, Decaído. Retornaste…
(Para o Colinas de Palavras)
(Para o Colinas de Palavras)
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sábado, 18 de setembro de 2010
Voou
Voou. A brisa amena que insuflava a vida, soprou-lhe a alma para os campos áureos do outro mundo, conferindo-lhe as asas de tempos idos, desejadas pelos vindouros. Observo-a então, do meu pedestal de nébula primordial, esperando que brisa essa vagueie até mim, enquanto me mantenho de braços abertos. Aguardo aquela pequena alma livre, para a prender de retorno a um corpo. Que só permito a liberdade aos merecedores, àqueles que sopram e não são soprados. Aos que cortam as asas para outros voarem. Serão esses que, no final, planarão sobre a brisa, em direcção ao etéreo das estrelas. E soprarei para que voem mais alto.
(Para o Colinas de Palavras)
Lacunas de
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Prosa
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Romeu Insano
(Os candeeiros fracos de rua iluminam o corpo esguio e desnutrido, vestido de farrapos, enquanto a neve cai. Ao fundo, as luzes das casas chegam parcamente até Romeu, que olha em volta, apresentando-se confuso e desnorteado)
Romeu: Onde… onde estou? Que lugar inóspito e despido de vida é este, onde observo a sentença ditada pelo meu crime?
(Faz uma pausa e dá dois passos incertos em frente, perscrutando o público não iluminado)
Romeu: Deuses, digam-me que horror fiz eu, senão amar o sangue que no seu corpo corria e lhe dava a existência doce de que me alimentei? Onde a esconderam? Onde enclausuraram a vida que era minha? Onde estás, Julieta?
(Os olhos iluminam-se de reconhecimento, de súbito, e abre os braços para receber algo. Fecha-os logo a seguir, abraçando o seu próprio corpo)
Romeu: Oh! Estás aqui, amor, minha doce candura terna de Sol vespertino.
(Os lábios beijam o ar apaixonadamente e o abraço desfaz-se. Romeu abre os olhos, fitando o público sem o ver)
Romeu: Diz-me, Julieta, porque te escondeste de mim, deixando-me esfomeado e sem rosa do coração que me guiasse? Que infame monstro da humanidade te prendeu em suas garras e permitiu que te apartasses do que sofre no meu peito, correndo vales e montanhas do Inferno em busca da tua paz? Oh, Julieta… Não imaginas o que padeci sem os teus beijos de carinho, o teu toque de veludo e o teu perfume fresco de Lírio. Não sabes como foram álgidas as minhas noites, aquelas em que implorava à Lua para que deixasse de brincar comigo e devolvesse o ente em que estava contido o meu coração. Pois o és, admito-o. Viver sem ti é como se perdesse aquilo que me mantém são, a alma que faz de mim pessoa. Quantas não foram as barbáries por mim perpetradas, na busca pelo destino em que te findaste? Mas eis que surges perante mim, no teu vestido níveo, noiva minha! Caída dos céus, por mim! Mas…
(Sem aviso, os olhos de Romeu abrem-se desmedidamente, conferindo-lhe uma expressão algo horrorizada)
Romeu: Não… Não! Não te ides, imploro-te! Não me deixes outra vez que esta dor esquarteja a minha carne em decomposição. Sim, ouves bem! Sem ti o meu corpo apodrece e é consumido por esses vis bichinhos que tudo corroem. Por favor, fica!
(Nisto, Romeu lança-se do palco de braços abertos, querendo apanhar o ar e estatela-se no chão com um grito de dor. Depois, escuta-se um choro miudinho de tristeza. E somente este choro chega até ao público, durante cerca de um minuto. Por fim, Romeu levanta-se, os olhos vermelhos e a cara lavada em lágrimas. Com uma mão apoia-se no palco e sobe para cima dele. Porém, desequilibra-se e cai prostrado, a cara encoberta entre os braços)
Romeu: Porquê, meus deuses… porquê? Porque me tiram tudo aquilo que amo e me torturam com a solidão…
(Ajoelha-se, voltado para o palco. A sua expressão é agora determinada e grita)
Romeu: Porquê, maldição que me alvejaste de morte?! Pois se é morte que quereis, é morte que tereis. Regarei sangue com sangue e banhar-vos-ei nele!
(As mãos palpam os bolsos fundos, perscrutando-os, e instantes depois Romeu retira deles um punhal desembainhado. Uma luz incide sobre a lâmina, a qual é mostrada ao público)
Romeu: Vede, deuses, vede o meu troféu sobre vós! Causastes o meu flagelo e eu terminá-lo-ei. Nada me impedirá de me unir a Julieta, nem vós nem os demónios da alma… ninguém!
(Encosta o punhal ao peito, enquanto as lágrimas se vertem e os lábios estremecem. Volta a gritar)
Romeu: Perecerei e serei livre! Livre para amar! Livre para abraçar Julieta de encontro a mim e sentir o seu sangue no meu! E vós não mais o podereis impedir, malditos deuses!
(O punhal desvia-se um pouco do seu alvo, para ganhar balanço e penetrar melhor na carne)
Voz que vem de algures: Cala-te, idiota! Quero dormir!
(Uma pedra voa pelo ar, acertando-lhe na cabeça. Romeu cai desfalecido, enquanto o seu sangue se verte pelo palco)
Romeu: Onde… onde estou? Que lugar inóspito e despido de vida é este, onde observo a sentença ditada pelo meu crime?
(Faz uma pausa e dá dois passos incertos em frente, perscrutando o público não iluminado)
Romeu: Deuses, digam-me que horror fiz eu, senão amar o sangue que no seu corpo corria e lhe dava a existência doce de que me alimentei? Onde a esconderam? Onde enclausuraram a vida que era minha? Onde estás, Julieta?
(Os olhos iluminam-se de reconhecimento, de súbito, e abre os braços para receber algo. Fecha-os logo a seguir, abraçando o seu próprio corpo)
Romeu: Oh! Estás aqui, amor, minha doce candura terna de Sol vespertino.
(Os lábios beijam o ar apaixonadamente e o abraço desfaz-se. Romeu abre os olhos, fitando o público sem o ver)
Romeu: Diz-me, Julieta, porque te escondeste de mim, deixando-me esfomeado e sem rosa do coração que me guiasse? Que infame monstro da humanidade te prendeu em suas garras e permitiu que te apartasses do que sofre no meu peito, correndo vales e montanhas do Inferno em busca da tua paz? Oh, Julieta… Não imaginas o que padeci sem os teus beijos de carinho, o teu toque de veludo e o teu perfume fresco de Lírio. Não sabes como foram álgidas as minhas noites, aquelas em que implorava à Lua para que deixasse de brincar comigo e devolvesse o ente em que estava contido o meu coração. Pois o és, admito-o. Viver sem ti é como se perdesse aquilo que me mantém são, a alma que faz de mim pessoa. Quantas não foram as barbáries por mim perpetradas, na busca pelo destino em que te findaste? Mas eis que surges perante mim, no teu vestido níveo, noiva minha! Caída dos céus, por mim! Mas…
(Sem aviso, os olhos de Romeu abrem-se desmedidamente, conferindo-lhe uma expressão algo horrorizada)
Romeu: Não… Não! Não te ides, imploro-te! Não me deixes outra vez que esta dor esquarteja a minha carne em decomposição. Sim, ouves bem! Sem ti o meu corpo apodrece e é consumido por esses vis bichinhos que tudo corroem. Por favor, fica!
(Nisto, Romeu lança-se do palco de braços abertos, querendo apanhar o ar e estatela-se no chão com um grito de dor. Depois, escuta-se um choro miudinho de tristeza. E somente este choro chega até ao público, durante cerca de um minuto. Por fim, Romeu levanta-se, os olhos vermelhos e a cara lavada em lágrimas. Com uma mão apoia-se no palco e sobe para cima dele. Porém, desequilibra-se e cai prostrado, a cara encoberta entre os braços)
Romeu: Porquê, meus deuses… porquê? Porque me tiram tudo aquilo que amo e me torturam com a solidão…
(Ajoelha-se, voltado para o palco. A sua expressão é agora determinada e grita)
Romeu: Porquê, maldição que me alvejaste de morte?! Pois se é morte que quereis, é morte que tereis. Regarei sangue com sangue e banhar-vos-ei nele!
(As mãos palpam os bolsos fundos, perscrutando-os, e instantes depois Romeu retira deles um punhal desembainhado. Uma luz incide sobre a lâmina, a qual é mostrada ao público)
Romeu: Vede, deuses, vede o meu troféu sobre vós! Causastes o meu flagelo e eu terminá-lo-ei. Nada me impedirá de me unir a Julieta, nem vós nem os demónios da alma… ninguém!
(Encosta o punhal ao peito, enquanto as lágrimas se vertem e os lábios estremecem. Volta a gritar)
Romeu: Perecerei e serei livre! Livre para amar! Livre para abraçar Julieta de encontro a mim e sentir o seu sangue no meu! E vós não mais o podereis impedir, malditos deuses!
(O punhal desvia-se um pouco do seu alvo, para ganhar balanço e penetrar melhor na carne)
Voz que vem de algures: Cala-te, idiota! Quero dormir!
(Uma pedra voa pelo ar, acertando-lhe na cabeça. Romeu cai desfalecido, enquanto o seu sangue se verte pelo palco)
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terça-feira, 14 de setembro de 2010
Pintura a Palavras
Genealogy Tree, Vladimir KushNada é disforme na disformidade do mundo. O tempo decai e avança no decair, consumindo e recriando o que consome e dando mostras do que se faz e desfaz nas rotas do mundo. Um dia foi criança que não se vê nos primórdios perdidos, no outro a árvore que cresceu e floresceu, oferecendo os seus frutos aos meninos esquecidos, para que deles não mais se esquecessem. Mergulhando no distante dos dias idos, retornando ao longínquo que se adensa nos dias que virão. E dás uma dentada que se incendeia na boca que não come, alumiando o espírito de fogo arrefecido. Que ele acorde, se ergue dos ramos e voe, que é vida eterna.
Para o Colinas de Palavras
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terça-feira, 7 de setembro de 2010
O Que Julgo...
O alvo sentimento incorpóreo
Que vedes no olhar em ti perdido,
Das palavras algures proferidas
Destoa do que escutastes, ao ser dito,
Num tom que refuto, sem fé,
Por ser o que não é.
Que o teu olhar diz algo mais,
O que o coração não corrompe,
O que na mente algures olvidais.
E o que julgo é o teu olhar,
Palavra não dita que em ti irrompe
Do profundo da alma, desse mar.
Que vedes no olhar em ti perdido,
Das palavras algures proferidas
Destoa do que escutastes, ao ser dito,
Num tom que refuto, sem fé,
Por ser o que não é.
Que o teu olhar diz algo mais,
O que o coração não corrompe,
O que na mente algures olvidais.
E o que julgo é o teu olhar,
Palavra não dita que em ti irrompe
Do profundo da alma, desse mar.
Céu
Olhai! Se não é o céu
Que se desvenda nos meandros da terra,
Nascido da morte de que se despoja.
Contai o tempo em que renasceu
Pintado em tinta de plebeu
E preenchido do sagrado que em si aloja.
Que se ergue de plumas brancas
E lembranças trajadas do amargo.
Mas pereceu e renasceu,
Que da vida não se apartou o Fado.
E aos altos o céu se ergueu
Na luz que um dia foi o passado.
Que se desvenda nos meandros da terra,
Nascido da morte de que se despoja.
Contai o tempo em que renasceu
Pintado em tinta de plebeu
E preenchido do sagrado que em si aloja.
Que se ergue de plumas brancas
E lembranças trajadas do amargo.
Mas pereceu e renasceu,
Que da vida não se apartou o Fado.
E aos altos o céu se ergueu
Na luz que um dia foi o passado.
Sonho Envenenado
Sonha um novo sonho
Ao embalo que te canta a noite.
Sonha que sonhaste o voo
Sob o luar vítreo da madrugada.
Que de sonhos se constrói o mundo
E o castelo das tuas cartas.
Sopra o vento e o castelo decai.
Sopra o vento, que a vida se esvai.
Que um sonho só é sonho
Quando o desejo é semente plantada.
Mas o sonho morre se de veneno
For o rebento da orvalhada.
Sonha que sonhaste o voo
Sob o luar vítreo da madrugada.
Que de sonhos se constrói o mundo
E o castelo das tuas cartas.
Sopra o vento e o castelo decai.
Sopra o vento, que a vida se esvai.
Que um sonho só é sonho
Quando o desejo é semente plantada.
Mas o sonho morre se de veneno
For o rebento da orvalhada.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
A Mais Simples Flor

Perscruto o mar da incerteza
No canteiro a níveo florido.
Que não carece da ebúrnea beleza,
A mais simples flor do jardim.
Traja-se dela a sua própria pele,
De veludo e seda contrastante, assim
Lembrando a amizade mais pura,
A que é nua de preconceitos,
Tricotada de perfume e candura,
Desabrochada em orvalho e condão
De fada, a varinha minha,
Que lhe tocou o coração.
(Pertencente à nova dedicatória do Retrato)
Lacunas de
Dedicatória,
Poesia
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Palavras Mudas
Words, by... me
Suspiras o não sabido
Que tão bem sabes conhecer.
E nos lábios prendem-se as palavras
Que falam mudas aos teus ouvintes
Sequiosos de o saber.
Mas o que é dito não é dito,
Fala o espírito que não se escuta.
Que saber inato é o teu
Pintado em tom de inaudito,
Pintado e escrito em letras sem ver?
Somente um pensamento que desdito
Se esconde no não dizer.
(Capítulo XI do Prín,
substituindo "Os Abismos", que passa para o capítulo XII)
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Necromancia (Acróstico)

Metamorphosis II, by Vladimir Kush
Níveo, o cadente desaparecer que se consome
Ergue ao mundo o dito por dizer,
Clamando o nome que caiu.
Rumo ao Hades escurecido do profundo,
Orei por cada remar penado que ali me guiava.
Morta a Vida e viva a Morte que se escondia
Ao meu passar servil de olhar sadio
Nascido para a ver, desiludido para a chamar.
Conquanto o nome se esvaia no esquecimento,
Imortalizo-o, o da alma, e pinto-o no meu espírito.
A voz que clama é a minha, à qual há-de Ela abarcar.
(Dedicado ao meu querido necromante, o Leonardo)
Lacunas de
Dedicatória,
Poesia
quarta-feira, 21 de julho de 2010
O Suspiro das Pétalas

.Wind, by masKade
O Luar que alumia o horizonte remoto,
Transcreve-se nas pétalas efémeras
Que um dia murcharam sob o teu olhar.
Cada pétala espelha-se num suspiro cantado,
De tom soprado à subtil brisa do vento,
Que foi um dia o respirar.
Um suspiro que se expirou
Foi o escutado provindo de tão bela flor
Nascida do Sol da madrugada.
O despontar do perdido que se adensa
Por cada desabrochar que vai sendo luz
E cegueira, à vista magoada.
Que não vês o sentir que baila serpenteante,
Coberto de veludos nesse prado florido
De espinhos que tacteias.
As agulhas floridas são de toque melífluo,
Ínfimas abelhas que de flor em flor passeiam,
E te recolhem o mel das veias.
E a tua semente é abandonada na terra,
Submergida na espera do Tempo,
Sem ver que destino é o seu traçado.
Cantará assim teu sangue ao Luar,
Lembrando os dias em que era Vida
Sem vida e faminta pelo Fado.
No embalo do resguardo da Noite,
Suspiros de pétalas cantadas
São hoje o esquecimento.
Pintada a negro sobre o que era cor
Soprou a voz das Eras desbotadas
E escutou-se o uivar ledo do vento.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Dias Passados

Voltei os dias do avesso e sacudi-os.
Libertaram ledos espectros de temor
E almas quelatadas que da morte sofriam
Quanta da sua Fortuna, era a férrea dor,
A dos dias passados, a do desvario.
Voltei a sacudir, num ímpeto de raiva,
E tombou o coração do mundo,
Que não mais palpitava.
Escorreram as lágrimas já secas
E lânguidas de há muito não chorar.
Sacudi e resvalaram as mentiras do amar,
As tochas acesas que queimavam
Quando tocavam nas paredes dos dias.
Extingui-as, para não mais ver então
A pétrea luz dessa lassidão.
E, por fim, daquele somente sacudir,
Caíram-me os dias ao chão.
Os estilhaços extraíram entranhas de vida
E vivissecaram o tempo da terra ida,
No quebrar da eterna imensidão.
(sim, a foto feia fui eu que tirei!)
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Dama Incorpórea

Air Spirit, by Moon Blossom
Remeto-te para o incorpóreo da alma,
Desdenhando da figura inerte que pende
Presa por veias de sangue.
A noite que te antecede é virgem.
Pintei-a nos teus cabelos ebúrneos d'obsidiana,
Um brilho obscuro de pura dama,
Que olhos teus são o Fado perdido da imensidão.
E um passo na Escuridão.
Um cantar de sussurro venéreo largado ao longe,
Efémero…
O doravante é escrito nos ossos que ficaram.
O corpo é vazio e destilado,
Trajado do fútil e ela do Nada trajada.
Por fim, etérea, minha doce amada.
(A ouvir "The Kraken")
quinta-feira, 3 de junho de 2010
O Acordar e Adormecer do Infinito
Tudo começou com um estrondo que estremeceu o Infinito, acordando-o do seu sono prolongado e aquecendo-o no que se tornaria um local repleto de vida, uma vida que pontilhava o que se chamaria Universo, um local belo e inóspito, repleto de antagonismos que floriam suaves e grosseiros.
E um desses antagonismos que desabrochou foi a espécie humana, animais bípedes de inteligência metódica, que se propagaram qual praga infestante, para lá do que deveria ser um lar, para além daquilo que diziam ser deles, mas que nem isso era. A Terra.
Passaram de terrestres a extraterrestres, esqueceram as suas origens e deixaram de ser quem eram, perdendo a alma que os definia como humanos, a integridade tricotada por uma compostura de células que se modificaram até serem mais e menos do que eram. Tornaram-se Asquerosos, seres tentaculares de espinhos dorsais e crueldade acrescida, que dominaram e dominaram até nada mais haver para dominar, que o Universo, que um dia nasceu, começou depois a regredir, murchando flores decompostas e deuses caídos.
E novamente o Infinito adormeceu, num sono vazio, assombrado por almas que se não deixaram diluir, por não serem moléculas nem átomos. Mas apenas memórias do antagonismo que existiu.
E um desses antagonismos que desabrochou foi a espécie humana, animais bípedes de inteligência metódica, que se propagaram qual praga infestante, para lá do que deveria ser um lar, para além daquilo que diziam ser deles, mas que nem isso era. A Terra.
Passaram de terrestres a extraterrestres, esqueceram as suas origens e deixaram de ser quem eram, perdendo a alma que os definia como humanos, a integridade tricotada por uma compostura de células que se modificaram até serem mais e menos do que eram. Tornaram-se Asquerosos, seres tentaculares de espinhos dorsais e crueldade acrescida, que dominaram e dominaram até nada mais haver para dominar, que o Universo, que um dia nasceu, começou depois a regredir, murchando flores decompostas e deuses caídos.
E novamente o Infinito adormeceu, num sono vazio, assombrado por almas que se não deixaram diluir, por não serem moléculas nem átomos. Mas apenas memórias do antagonismo que existiu.
(Texto feito para o passatempo do blog BranMorrighan)
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