quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Uma Esfera do Caos



Seguro nas mãos o mundo.
Descrevo-o como esfera imperfeita,
E cada contorno desnudo,
É um sonho que me deleita.

Quantos não são, então,
Os sonhos que habitam em si?
Infinitos, por coração
Que vive escondido de mim.

Encobrem-se nos sussurros mudos
Dos bosques feitos de pedra
E nas alturas dos muros turvos.

Pensam voar e não voam, não.
Caiem e deslizam pela superfície
Das rugas e contornos do que são

E rasgam a mente, definham
A Utopia em sonhos maus...

Que estas mãos agora sustinham
Somente uma esfera do caos.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

No Ninho Escutam o Vento


As aves sonham com o voar,
Quando no ninho escutam o vento.
Sonham com o voo do libertar
E a inspiração que por dentro
É chama e ardor quente,
O aconchego e um sussurro,
Que se esconde no Presente
E se reflecte no Futuro.

Pois um dia saberão voar.
Será o sonho fundado
No querer ser e no indagar
Daquilo que foi Passado.
E escutarás o suspiro d'alento
Da penugem daquele ninho.
Que foi um etéreo momento
Do seu íngreme caminho.

sábado, 23 de julho de 2011

A Tapeçaria do Mentir

Sou sussurro na alma do ente,
Que mistura o melífluo com o fel.
Sou sonho doce e inocente,
E pesadelo de teias tricotado,
Que implanta o que é semente,
E colhe os frutos do enganado.
As minhas agulhas choram de fingir,
E cada palavra é uma malha dada,
Na tapeçaria ténue do mentir.
Mas a malha perdida é falhada
E a presa acorda e escapa do enlaço
Com que fora enganada.

(Capítulo XV do Prín)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A Alma dos Mil Nomes


Escuto o uivar do Vento que se adensa nos céus nocturnos, tocando a Deusa que se ergue pálida no veludo negro. E ao que escuto dou significância, uma diferente daquela que dou ao Mar trovejante cuja escuma se empluma até à areia fina, trazendo notícias das profundezas: as batalhas dos reis tritões, as conquistas das sereias, o gorgolejo dos afogados.

Mas foram ambos, Vento e Mar, que um dia me contaram do Seu aportar à minha terra. Na verdade, aportar não seria o termo correcto, que não existe qualquer porto ou cais, somente a praia que se alarga e sitia a ilha, até alcançar o perímetro dominado pelos rochedos íngremes e de presas afiadas. O diálogo entre os Filhos da Natureza suscitou-me curiosidade e, com passos leves de pés descalços, deixei o bosque, abeirando-me da margem. Segui a percepção que a areia transmitia, localizando pouco depois o corpo transportado nos braços das águas – embalo que lhe fora fatal.

Ajoelhei-me à sua beira e estendi a mão para tomar percepção do que ali estava deitado. Toquei-lhe o rosto agora sem expressão, atentando aos traços firmes que falavam por si: era um homem. Os meus dedos deslizaram um pouco, sentindo-lhe os lábios semi-abertos dos quais não se vertia qualquer respiração, e seguiram um trilho que desceu pelo pescoço, parando somente ao alcançar o peito. Confirmava-se, o coração caíra no cansaço e deixara de bater. No entanto, o espírito ainda não quisera abandonar a prisão que era o corpo de alguém que estava impossibilitado da execução de uma projecção astral. E isso talvez fosse um Sinal.

- Ceri omorirê ê vulian sa nimanarhiô… - sussurrei, debruçando-me junto ao ouvido do homem.

Pouco depois, o corpo estremeceu sob o toque da minha mão. Ele sentou-se subitamente, acometido por uma tosse que tentava expelir toda a água salgada que se entranhara pelas vias respiratórias ao tentar tomá-las como domínio. Aguardei que se acalmasse primeiro, pousando ambas as mãos no colo, enquanto escutava a vida correr-lhe novamente nas veias.

Quando a tosse quis cessar, o Vento murmurou-me ao ouvido com uma leve brisa: “Ele está a olhar para ti…”. Sorri face àquela constatação. Já o tinha sentido. Na verdade, não me era difícil sentir os olhares dos outros, crescera a aprender fazê-lo.

- Sê bem-vindo à minha ilha, jovem do mar – cumprimentei, aguardando a libertação de uma torrente de questões que estariam presas na mente dele. Mas o homem ficou em silêncio e quase me perguntei se seria mudo, até que por fim ganhou voz.

- O teu cabelo é feito de neve?

Não, não era a pergunta que esperava escutar. Estava errada. A primeira questão deveria ser outra.

- O meu cabelo não tem cor, tal como a neve não tem. Mas não são feitos da mesma essência – afirmei-lhe. Ele deixou-se cair novamente em silêncio, antes de uma nova questão, desta vez um pouco menos estranha.

- És uma sereia?

- Não sou uma sereia. Não tenho barbatanas sequer. – Desta vez sorri.

Ele moveu-se, como quem espreita para confirmar o que lhe dissera.

- Não, não és… - A respiração dele aproximou-se do meu rosto, observando-me mais de perto. – A noite não me está a enganar. És cega. Os teus olhos são quase tão brancos quanto o cabelo.

Não deixei de sorrir. Aquele estranho homem tinha razão. Porém, apesar da afirmação, as perguntas ainda não tinham atingido a recta final.

- Que palavras estranhas me sussurraste ao ouvido? Não as compreendi, mas senti-as como uma onda que percorreu os músculos, quando pensei que nunca mais seria capaz de os mexer.

- “Que reencontres o sopro da vida…” foi o que te disse, chamando-te à consciência. São as palavras da Deusa.

- Oh… és uma Deusa? – Havia espanto na voz enrouquecida. Mas nada mais que isso.

- Não. Sou a Alma dos Mil Nomes, somente uma serva que cuida da ilha, protegendo e auxiliando os seus habitantes.

- Porquê mil nomes e não um?

Soltei um suspiro. Aquele humano parecia ter retrocedido até à infância. Normalmente só os pequenos faziam tais perguntas em momentos tão inusitados quanto aquele. Acabara de ressuscitar e, apesar de tudo, parecia pôr esse facto de lado.

- Porque cada ser me chama por aquilo que pensa que devo ser chamada – expliquei. – Não tenho um só nome mas, na verdade, todos os nomes formam um único, impronunciável. Podes nomear-me como te aprouver. Mas isso é acessório, existem coisas mais importantes a discutir. Lembras-te como foste ter ao mar?

Senti-o acenar e desviar o olhar para as águas.

- O navio onde seguia prisioneiro foi atacado por uma criatura das profundezas. Uma enorme serpente branca de dentes afiados que quebrou e engoliu o navio. Pensei que fosse morrer… e morri realmente, não foi? Mas encontraste-me e trouxeste-me à vida, mataste-me e ressuscitaste-me.

Entreabri os lábios sem que nenhuma palavra se escapasse, completamente emudecida. Como percebera ele a verdade do acontecimento? Que percepção mística o poderia habitar?

- Os teus olhos são iguais aos da serpente. O teu cabelo é tão branco como eram as suas escamas brilhantes donde escorriam ribeiros de água quando se elevou para silenciar o navio corsário. E és estranhamente bela. Uma libertação, um golpe violento que antecede a paz.

Dei-me conta que as palavras do homem não eram nenhuma percepção mística, mas a visão de quem via além, de quem queria alcançar outro patamar dentro da alma. E este estranho náufrago subira vários ao longo da vida.

- Como te chamas? – Acabei por perguntar, procurando a mão dele com a minha. Encontrei-a facilmente e explorei-a, sentindo as calosidades e a aspereza que a vida lhes provocara. Mas também a gentileza que se escondia sob elas.

- Espírito Sem Nome. – E consegui perceber um sorriso naquela resposta, um sorriso doce como o luar. – Enquanto tiveres mil nomes, não terei nenhum.

- Então, Espírito Sem Nome, vamos até um sítio onde possas descansar e alimentar-te. Depois encontrar-te-emos um nome.

Levantei-me da areia e levei-o pela mão, aquele novo habitante da ilha.

(Conto para o Fórum Mundo Marillier
exactamente 1000 palavras xD)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Um Coração nas Tuas Mãos


Quando, ao segurares nas mãos o coração de alguém,
Te esqueceres a quem pertence;
Quando perderes a sensibilidade do toque
E deixares de sentir o seu palpitar,
Lembra-te que ainda é um coração,
Vivo ao morto.

Lembra-te que te foi oferecido
Não por ser indesejado, mas por te desejar.
E por isso, não feches a mão.

Trata dele e tenta revivê-lo,
Porque apesar de não ser o coração que vive
Latente no teu peito,
Não deixa de ser teu pertence
A alma nele contida.

Um ente que te acarinha
Sem mesmo sentires.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Partícula


Dust in the Wind..., by Skategirl

Estilhaçou-se a partícula d'armadura,
A que forçava a união das juntas
A que prendia as conjecturas
Nos braços mortos da solidão.

Atingiu-a fulgor ressequido
Rumante das tochas forçadas,
Ao silêncio da escuridão.

Perdeu-se assim do caminho.
Um passo nas sombras
Que não a encontras,
É a queda de uma divindade.

Um passo no inconsciente
Que ela é demente.
E esqueceu-se da liberdade.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O Mundo Perdeu o Sentir

A chuva devora o mundo mudo,
De mil maneiras tingidas sem cor.
A Terra devora o rio de chuva surdo,
E seca do mundo o tacto da dor.

Insensível é ele, então.
Sem sorrisos, sem gritos,
Sem coração.

E quem o vê com peito
É cego de defeito.

Que o mundo perdeu o Sentir.

sábado, 23 de abril de 2011

Sem título

Como uma ave que canta
Ária de sentimento e sabedoria,
Tisnaste no papel de seda
Istmo, promontório e vereda
Acesa no sonho que alumia.

Singraste e calcorreaste
Olvidada montanha e campina.
Finda a viajem em porto seguro,
Içaste velas e saltaste o muro:
Azul é o céu que se te destina.

Abres, então, asas e foges
Levada na brisa de semente.
Ares os teus serão clareira,
Orla, bosque soltos na corrente.

Gostarias então de lembrar
O que para trás se deixou.
Narrar o semeado nos vales,
Contar sobre o que ousou
Amanhecer na noite caída.
Lendo, lembrança é assim dita,
Vista no espelho do passado.
Eterno pensar repensado,
Semente crescida, és Vida…

(Acróstico para uma das fitas que tenho de escrever xD)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Por Pintar


Quando o sonho é horizonte
Onde perdes o olhar,
Quando o horizonte é tela pintada
De sonhos somente d’outros
Pela tua prisão de sonhar,
Sabes que é semente a solidão
Que pinta retratos evasivos
Em cores de coração.
Que o último contorce-se indeciso
Segurando na mão o pincel de indagar.
Que a resposta não está no pintado,
Mas no que ficou por pintar.

(3ª tentativa de poema para o capítulo do Prín, escrito durante o pequeno-almoço num bocado de papel rasgado... nada como um input de deprimência matutina para acabar com as dúvidas. Este é o escolhido! xD)

sábado, 2 de abril de 2011

Sonho Eterno, Mas Já Não Teu


Sparrow, by Rock My Life

Sonhaste que eras pardal
Que vagueava solto no cantar perdido,
Calcorreando os céus d’ouro do olhar.

E, de súbito, vês-te cair.
Em rodopio vertiginoso varres o horizonte,
De modo vertical.

Feneces no suspiro dos que pisam,
Dos que pisoteiam sem sapateado sincrónico
A calçada morta.

Soltas um último pio mas não acordas.
E o sonho continua eterno,
Mas já não teu.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Espírito Sem Cor


Sopraste tintas no dispersar
Da tua imaginação,
E pintaste mundos de sinergia,
Sonhos que são tua companhia
E reflexos vivos do coração.
Então bailas em bicos de pés,
Solitária nos campos criados em flor;
Cantas à compreensão surda
E semeias fragmentos de Amor.
Porém o que é cego ao sentido
Esborrata a branco e, desentendido,
És um espírito sem cor.

(Substituição de um dos capítulos do Prín, dedicado a Dederyeh)

quinta-feira, 3 de março de 2011

4 Mini-contos


Nessa noite, foi só um truque de magia que correu mal… Da cartola de que me munira durante o espectáculo para o rei e a sua corte, o coelho branco espreitara sem vontade de sair e mergulhara nas entranhas mágicas do poço sem fundo, o que me envergonhou profundamente. Amaldiçoei o animal e disse com estas mesmas palavras: que o que me envergonhou acorde morto na amanhã do próximo dia! Não sabia eu que tão simples sentença surtiria tamanho efeito… Foi assim que todo o país passou a ser controlado por uma corja de nobres mortos-vivos, pois o meu sentimento de vergonha fora devido a quem observava o meu fracasso e não ao que me levara a fracassar. Incapaz de desfazer a teia criada com uma intenção mal destilada pelas palavras, fugi para os confins remotos da cartola mágica. Fosse para onde fosse, o jantar seria assado de coelho branco.
*
Chamo-me Florya. Nasci quando os raios de Sol tocaram as pétalas da primeira flor que desabrochou. As asas nas minhas costas igualam-se às das borboletas que um dia existiram. Sou a primeira e última fada que o mundo conheceu. Todas as que vieram depois de mim foram já levadas na brisa entristecida. Caíram ao ver perecer a vida amada, suicidaram-se para não deixar vingar o ódio que perverte a alma. Porém era meu destino permanecer, ver crescer os desertos e os reflexos de mentiras que suprimiam a Natureza, e acabar com esse falso sonho de assassinos. Cresci entre eles, aprendi com eles e parte de mim transformou-se neles para compreender. Mas não compreendi o porquê da troca da vida pelo metal, por flores mecânicas com perfume de veneno. E por isso acabei com o Tudo, deixando o Nada. Hoje sou pó que restou. Eles são as cinzas mortas do egoísmo.
*
Estendi a mão, permitindo que nela perecesse um daqueles flocos de neve que se precipitavam dos céus. Derreteu-se, formando uma ínfima poça de água e sangue. Levei-a junto ao rosto, cheirando-a primeiro e depois provando-a. Era aquela a prova de que necessitava. Um sorriso aflorou-me aos lábios e voltei-me para aqueles que aguardavam, expectantes. Mostrei-lhes a mão como prova do que iria dizer de seguida.

- Tem gosto de anjo. Eles finalmente estão a cair dos Altos, faltam-lhe as asas que os sustentam! É chegada a hora de escrevermos o nosso próprio destino, filhos do Inferno e da Terra!

Observei de olhos rubros e fascinados e reacção daqueles que seguiam um demónio e a mentira que lhes contava. Subir ao céu naquele momento seria um mero suicídio. Mas era disso que Ele precisava, agora que não lhe sobrava uma única pluma de anjo. E eu dar-lhe-ia as almas que desejava escravizar e devorar para o paraíso do seu estômago. Que não era diferente dos Outros.

- Partamos à conquista! – Gritei, sendo acompanhado por um urro grotesco de apoio. Feito isto, invoquei a passagem até ao portão dos céus, para o qual os idiotas correram de armas em punho, mergulhando nas entranhas de Deus, perante a minha expressão maldosa. Fiz uma vénia à enorme boca devoradora de almas e voltei à Terra para resgatar mais crédulos e deixar os cépticos reconstruírem um mundo pós-apocalíptico.
*
Luzes cruas e artificiais precipitavam-se sobre a planta. Fora feita de uma única célula proveniente da sua mãe, também ela nascida daquela forma de reconstituição. E apesar da sua clara efemeridade, era diferente de todas as outras. Na sua extremidade superior segurava uma flor fértil, prestes a desabrochar. Um formigar correu as pétalas, forçando-as a abrir uma a uma e perecerem à vontade de outrem, revelando o que se desenvolvera no ovário, protegida do exterior pela cúpula de interior em veludo. Espreitou curiosa, o corpo humanóide perfeitamente delineado numa escultura de mulher minúscula. Nas costas amparava duas asas por abrir raiadas a rubro.

Todo o processo foi monitorizado por um cientista que pulou da cadeira e correu até ao laboratório. Porém, quando abriu a porta e os seus olhos caíram sobre o pequeno ser, este desfez-se em cinzas. Que o olhar humano queima e mata uma fada filha da Natureza.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Mensagem , Fernando Pessoa - Brasão, Os Campos



(Juro que vou estrangular o Movie Maker por comer caracteres nas fichas...)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

5 sentidos na Água


Magic River, by Gilad

Oiço o tímido tilintar gotejante
Estilhaçar-se no trilho irregular.
Oiço e escuto a voz sonante
Da chuva e do seu cantar.

Vejo ao longe a una multidão
De partículas, que se precipita.
Escorrega pelo leito do coração
No rio fluído que leva a vida.

E sigo-o, correndo vales,
Degustando o sabor da beleza.
Que se estende em mil abraçares
Ao estuário longínquo da certeza.

E certa é a sua chegada,
Diz-me o perfume que não engana.
Regressado nessa madrugada
À que a si se chama: maré mundana.

Paro então, de pés descalços n’areia,
Sentindo a essência fria e líquida,
Sentindo espuma viajada até minha beira,
O sussurro da água distraída.

Que o Mar fala de tudo o que é,
De tudo o que foi e de tudo que será.
Escuto, diviso e cheiro essa sua fé,
Tacteio e saboreio a vida que me dá.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Ler


Book, by Blind Man Photo

Uma palavra escuta-se ao ouvido do pensar.
É sentida com um vislumbre de desatenção,
E observada quando o não saber
Chama a atenção do coração.

Explora-a assim, e às que a seguem,
Em modo de as conhecer.
Saltando de linhas, degrau a degrau,
No seu perene desentender.

Porém hesita e recua aquele saltitar.
Que no ver passar, a curiosidade
Brincou às cócegas com o espírito
Desejando sua a insanidade.

Retorna então ao início e inicia.
Mas que recomeço é esse do recomeçar?
É o entender o desentendido
Que só a leitura sabe pintar.

Que somos cegos à primeira frase
Até nos chegar a palavra perdida.
Que ler, para quem sente a leitura,
É viver vivo outra vida.

Natureza do Amor (Algo lamechas II... nhe!)


Bajo la raiz, by NuriaMM

A “Natureza do Amor” tem o fogo
Que se empluma desnudo,
Recriando a cor do que é o amor
Pintado em telas do Mundo.

É com essa cor que pintaste
As mil e uma do meu coração,
Que és o carinho da vida minha
O calor de que se traja a paixão.

Um sonho de tintas esborratadas
O qual só tu sabes pintar.
És artista abstracto e matizaste
A vida e a vontade de sonhar.

E eu retribuo com o canto
De versos tímidos do florir.
Que o idílico é o teu alento,
Os teus lábios, e o teu sorrir.

Então, que nos ramos se adensem
As flores que despontam no coração,
Para se colherem, que amadurecem,
Os frutos da nossa estação.

Pois as raízes se aprofundam
E prendem a si da terra o fervor.
Que sejam esses os alicerces vivos
Do nosso eterno amor.

Algo lamechas... nhe!

Quis um dia meu olhar contemplar
O que a Evolução fez de perfeito,
O que é Sol e estrela do pensar,
E anseio no meu peito.

Quis um dia minha alma sentir
Sentimento semeado ao vento,
Vontade tonta de sorrir,
A que sinto com teu alento.

Que és meu licor aquecido
Nos abraços densos da paixão,
O embriagar do que chamo espírito,
O embalar do coração.

Chamo-te “Mundo”, que és o meu,
Por entre um beijar ao inato.
Mundo e universo de Galileu
Que és o céu… e o que faço?

Escrevo-te versos toscos, desnudos
Do que é fútil ao beijar.
Que nestas quadras estamos juntos
E pinto nelas o amar.

Aquele que te pertence, esborratado
Em cores do amanhecer e d’aurora.
Que é tua a beleza do sonhado
Onde perdi a solidão de outrora.

(Não gosto de poemas deste género xD)

Lince Ibérico (Acróstico)


Lince, by Griffin

Lembrança de gato há muito perdida,
Inato desconfiado, olhar arguto de intenção felina.
Nuances selvagens da Ibéria são essas das pupilas
Cor de liberdade, cor do passado das vidas,
E da esperança de um dia.

Imiscui-se o mistério na tua pelagem
Banhada do sonho de garras afiadas.
És pequeno e doce de cerne selvagem,
Rumor, que no bosque voas sem asas!
Istmo do querer prevalecer, teus rosnares
Cantam o ser de mim e, no meu coração,
Oiço o lince Ibérico em extinção…

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Nos Bolsos do Tempo


Flown With the Wind, by Vladimir Kush

Albergo a voz inconstante do pranto, nos alforges roubados.
Fugiram nos bolsos do Tempo que corria célere,
Num corrupio de dança ousada, sapateado louco de dia de chuva
E canoro canto de rouxinol enrouquecido.

Mas vi-os saltar, de súbito, na lama esborratada do trilho sinuoso,
Que, ao longe, tropeçou Ele num pedaço caído d’alma.
Quem perdia pedaços de si, sem se aperceber que desfaleciam
Donde a vontade se esquecia de viver?

Quedei-me a observá-lo, apanhando os restos deixados no caminho
Contido dos que gritavam sem se ouvir.
O vento restolhava aos Seus ouvidos e apanhou-o também
Conservando-o nos alforges de caminhante que coleccionava o mundo.

Depois saltou a fronteira e precipitou-se do limite do que era para o que será.
Franzi as sobrancelhas, que o deixara de ver por entre as folhas crespas.
Fora consumido pela visão matreira, levando o furto de um dia,
De mãos untadas no sangue castanho da terra.

Quem sabe, construiria um novo castelo de cartas, para além do que vi.
E quando pronto, libertaria o vento guardado no bolso fundo de fim do mundo,
Sopraria o pranto unido no calor do cerne para, na distância do inalcançável,
O perecido pedaço d’alma se encontrar com o apartado.