terça-feira, 20 de março de 2012

Arranhar das Engrenagens (O Caderno dos 80 Temas - Kath)

Oiço o arranhar das engrenagens,
Ferindo a carne, as veias secas,
Retardando um pulso da pulsação,
Desfazendo os ossos, roendo os nervos,
Oxidando o coração.

Sintomas de doença sem crença
Que enferruja o que há a minar;
Rompe a pele, enruga o pensamento,
Desencobre a máquina da alma velha
Consumida pelo Tempo.

Cada peça dentada é pó à brisa
E o espírito ferrugem do firmamento.

19 - Ferrugem da Alma

segunda-feira, 19 de março de 2012

Escarpas do Fim do Mundo (O Caderno dos 80 Temas - Kath)

Em ti ressoam as escarpas do fim do mundo,
Trajadas de burcas e despidas do olhar,
Pairam nas bainhas do tom profundo
Da alva escuma do espiar.

O trovejar do canto é melodia rouca,
Resmoneio contigo do interior do mar.
Vem às ondas e lança a voz, que é louca
A donzela sereia que te vem escutar.

18 - Música

sexta-feira, 16 de março de 2012

Vollüspa - Antologia de Contos de Literatura Fantástica


Prefácio:

Muito mais que um título, Vollüspa significa renovação, a morte do velho e o nascimento do novo, purificação, se o leitor preferir. Foi deste vocábulo da mitologia Nórdica, retirado do Edda Poético, fonte de inspiração de muita da literatura fantástica, que surgiu a ideia um trabalho desde tipo.

A ideia é simples: juntar alguns dos melhores autores portugueses de literatura fantástica com vozes mais desconhecidas, mas não menos importantes, e dar a conhecer os seus trabalhos de ficção curta. O objectivo é claro: ajudar a alcançar uma revitalização no género da Ficção Científica e do Fantástico! A literatura fantástica precisa destes projectos. É necessário dar a conhecer novos mundos, bem como oferecer uma nova base de trabalho para os autores, onde possam desenvolver a sua paixão.

Os três grandes géneros da literatura fantástica estão representados neste volume: a Ficção Científica, com textos de Afonso Cruz, João Ventura, Luís Filipe Silva, Carlos Silva e também com um texto da autoria do coordenador, Roberto Mendes. É notória uma aproximação ao Terror e ao Realismo Mágico nos textos de José Pedro Lopes e de José Manuel Morais. A fantasia de Joel Puga, Carla Ribeiro, Álvaro de Sousa Holstein, Regina Catarino, Marcelina Gama Leandro, Nuno Gonçalo Poças, Carina Portugal e o conto de Pedro Ventura, que recupera o ambiente de Rod Serling, oferecendo ao leitor uma viagem no universo típico de Twilight Zone, completam o ciclo desta primeira Vollüspa. O leitor pode deambular entre a história de um último vampiro, receber os recados de máquinas que escrevem sozinhas, conhecer raças alienígenas que dominam os humanos num futuro distante, assistir à queda de Roma, ouvir os acordes de uma música que toca as almas de uma forma muito especial, ser levado ao limite pela figura mítica da morte, viajar pelos céus descobrindo os seus segredos e celebrar um natal artificial, onde tudo imita o verdadeiro, sempre com a devida patente registada…

Autores:

Afonso Cruz
Álvaro de Sousa Holstein
Carla Ribeiro
Carlos Silva
Carina Portugal
João Ventura
Joel Puga
José Manuel Morais
José Pedro Lopes
Luís Filipe Silva
Marcelina Gama Leandro
Nuno Gonçalo Poças
Pedro Ventura
Regina Catarino
Roberto Mendes

A antologia custa 13€ e por agora pode ser adquirida no site da HM editora.

Correio do Fantástico

P.S.: Muito em breve será disponibilizado um .pdf gratuito com um dos contos da antologia.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Como um sopro de Primavera


Getting Zen, by Claudia

Ser mulher é como um sopro de Primavera
Num exalto ao espírito da vida;
É como ser em sonho a Flor da Terra,
Que com o coração fértil semeia o inconstante
Do Ser que nasce navegante
E remexe o olvidar da criação;

É como ser água que irriga a semente até ao mar,
E a leva nos braços bravos a conhecer o mundo;
É como ser o infinito num só olhar,
Onde se reflecte a magia do que é profundo.

Que a mulher é como a chuva de Verão,
Onírica.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Livro "O Retrato da Biblioteca"


Bem, depois de algumas tentativas para editar o meu 1º livro, e de ter recebido "não's", "sim's mas com patrocínio do autor" e "Sim's, mas o contrato não apareceu até hoje", decidi publicar uma versão e-book, mesmo sabendo que não é muito apelativo para algumas pessoas.

Ao princípio pensei em vendê-lo por 2€, como preço simbólico, mas acabei por considerar deixar que fosse o leitor a decidir. Ou seja, leitura grátis para quem quiser (claro que ficava contente se recebesse qualquer coisa para comprar o passe :p)!

Podem ver informações básicas do livro aqui:
O Retrato da Biblioteca, Goodreads

E mais informações aqui: O Retrato da Biblioteca, página do Facebook

E, se estiverem interessados, basta mandarem-me uma mensagem :)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Aline (O Caderno dos 80 Temas - Kath)

- Parte III -

– Talvez seja mesmo melhor ir-me embora e deixar-vos aqui fechada, donzela – acabou por concluir, regressando para junto da janela. – Talvez outro cavaleiro não se importe de socorrê-la. E talvez esse outro cavaleiro deseje mais recompensas para além do vosso bem-estar.

O corpo de Amadis começou a esfumar-se no ar e foi levado pela brisa. Lá em baixo, o unicórnio soltou um relincho quando o seu legítimo dono o montou, afastando-se no horizonte escuro, poucos segundos depois.

Com um piscar de olhos, Aline regressou para junto da cama de dossel rasgado, após apanhar os binóculos do chão. Deixara a sua hipótese de fuga ir-se embora com o vento e ficara sozinha novamente, sem saber como sair. Um cisco inoportuno entrou-lhe para um dos olhos, levando a que uma lágrima se vertesse. Ou pelo menos seria essa a desculpa que a caçadora utilizaria se alguém lhe perguntasse a razão do seu choro.

– Amadis… – sussurrou, encolhendo-se um pouco sobre os joelhos. – Porquê que és um idiota?

A superfície lisa do espelho emitiu um brilho fugaz e a extremidade de um tabuleiro surgiu acompanhada por uma mão, que se preparava para pousar o jantar da caçadora. Ela lançou-lhe um olhar torto e não pensou um instante antes de arremessar novamente os binóculos. Desta vez falhou o alvo, conseguindo a mão escapar ilesa. Praguejou, chamando-lhe todo um chorrilho de nomes menos próprios em francês.

Ficou muito quieta, pensando em como tudo aquilo tinha começado. Não conseguia recordar-se perfeitamente, só sabia que um dia acordara e estava ali, deitada naquela cama, no cimo daquela torre feia e meia torta que cheirava a mofo. E lembrava-se de como o calor e o frio alternavam, com o nascer e o pôr-do-sol que aconteciam a um ritmo acelerado. Estremeceu e abraçou o próprio corpo, esfregou os braços para se aquecer, mas sabia que não iria sortir resultado. Era como se um demónio glaciar soprasse à janela e inundasse o quarto com o seu frio. Em resposta àquela sensação, os dentes começaram a tiritar.

Deixou-se então deitar na cama, sem se tapar. Quando adormecia, os lençóis brancos transformavam-se em fantasmas que a agarravam, e o melhor método para o evitar era dormir sobre eles. Tentara destruí-los à pancada e com virotes de besta, mas eles resistiram e ficaram somente esburacados.

Com um inspirar fundo, chamou a calma a si, para que pudesse dormir mais uma curta e longa noite. Se um dia apanhasse o Deus Hipno e os filhos, ensiná-los-ia a não se meterem consigo…

Um toque leve no rosto despertou-a, e não foi preciso mais do que isso para ela saltar da cama e afastar-se numa corrida, antes de sequer ver quem poderia ser.

– Minha donzela – começou o príncipe Amadis, ainda com a mão estendida perto do local onde a caçadora tivera a cabeça –, trouxe-vos auxílio, após uma árdua busca.

Os olhos da caçadora saltaram para uma figura diminuta, ao lado do vampiro. Por um momento pensou que era uma daquelas fadas que ele descrevera, até se lembrar que estas deviam ser cinco vezes mais pequenas. Era uma miúda maltrapilha, com a boca suja de chocolate e o cabelo desgrenhado. Ela retribuía-lhe a atenção com dois olhos muito expressivos que a escrutinavam de cima a abaixo, como se conseguissem ver para além de si.

– Uma criança... – constatou, fingindo-se pouco crédula. – Como é que uma criança me pode ajudar?

– Chamo-me Magda e sou bruxa – ripostou a miúda, num tom cáustico. – Respeitinho ou transformo-te numa lesma ranhosa.

Amadis afastou-se um passo despercebido, como para se certificar de que a ameaça não se dirigia também a ele por engano ou por arrasto. A suposta pequena feiticeira ignorou-o e aproximou-se do espelho, enquanto tirava o resto do chocolate do bolso do vestido de bainhas descosidas. Deu-lhe uma dentada enquanto observava as inscrições estranhas.

– Aqui diz que – começou, de boca cheia – “O pensamento frontal e maiúsculo reflecte o enigma: testemunha a esperança e sonha a terra adventícia”.

Aline e Amadis observaram a menina que saboreava o chocolate, enquanto pensava naquelas palavras enigmáticas. Nenhum dos dois compreendeu o que poderia querer dizer a frase.

– Ah, é fácil – acabou Magda por afirmar, voltando-se para a ex-princesa. – Tens de encostar a testa ao espelho.

O silêncio instalou-se entre eles, ao ouvirem aquela afirmação, só interrompido pelo relinchar impaciente do unicórnio.

– Encostar a testa ao espelho… e como é que chegaste a essa conclusão? Qual é mesmo a tua lógica? – Aline cruzou os braços sobre o peito. Algo que lhe dizia que a miudinha estava a tentar aldrabá-la.

Magda revirou os olhos, antes de apontar com o chocolate à inscrição do espelho.

– “Testemunha a esperança e sonha a terra adventícia”, se fizermos um acrónimo com isto, ficamos com a palavra TESTA. E depois ainda há esta parte do pensamento frontal, que também remete para “testa”, e a parte da reflexão. Tendo em conta que este espelho não reflecte o raio que o parta, talvez possa reflectir os teus pensamentos se encostares lá a cabeça – explicou.

A cabeça de Amadis acenou, parecendo ficar extremamente convencido com aquela explicação. Quanto à caçadora, fez um leve esgar de dúvida. Todavia não perdia nada em tentar. No máximo fazia figura de parva. Avançou até perto da superfície espelhada que nada reflectia e no momento a seguir já lhe tinha encostado a fronte. Nada aconteceu.

– Estou a fazer alguma coisa mal? – perguntou, pouco amavelmente.

– Hm… fecha os olhos – ordenou Magda, dando outra dentada no chocolate.

Com um ranger de dentes, obedeceu à criança. Sentiu-se igual: em pé, com a testa contra um espelho frio, a seguir os conselhos de uma fedelha gulosa. Contudo, instantes depois, um beijo leve mas frio tocou-lhe a bochecha.

– Amadis? – questionou, antes de ser acometida por uma vertigem brusca que lhe roubou o chão dos pés. A mente toldou-se com uma névoa negra e as costas bateram sem aviso, mas não sobre a pedra do quarto. Lembrava-lhe mais um colchão. A superfície do espelho tornou-se húmida, macia e moldável, mas continuou fria. Atreveu-se a abrir as pálpebras, hesitante, e viu o rosto dele próximo do seu. – Amadis?

– Sou eu – confirmou, com um sorriso terno. – Fico feliz por te ver acordada. Já te íamos levar ao hospital se a febre não baixasse.

Piscou os olhos, assimilando o que escutava. Hospital? Febre? Com cuidado levou uma mão até à testa, sentindo a toalha fria. Com que então era isso. Soltou um suspiro e não deixou de sorrir. Fora tudo um pesadelo.

– Sonhei que eras um príncipe encantado bissexual com um unicórnio, morceguito – comentou, fechando os olhos e não deixando de sorrir ao dizer aquilo.

– Por acaso, comprei um unicórnio de peluche para te oferecer, minha caçadora… como é que adivinhaste?

Aline riu-se baixinho. Aquele já era o seu Amadis.

FIM

16 - Aline

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Aline (O Caderno dos 80 Temas - Kath)

- Parte II -

– Pára de ser idiota, eu só quero sair daqui. – Voltou a olhar lá para baixo. Era mesmo um unicórnio que estava parado à beira da torre, a desbravar um arbusto com os dentes. Podia discernir perfeitamente o corno pontiagudo entre as orelhas.

– Ah, aquilo é uma cenoura – esclareceu Amadis, espreitando também lá para baixo. – Serve para ele andar mais depressa. Como está de noite, a minha nobre princesa não consegue ver muito bem.

A caçadora crispou a mão no binóculo, contendo-se para não o atirar janela fora, e respirou fundo três vezes consecutivas, antes de se voltar para ele.

– Vamos pôr as peças no lugar e falar como gente crescida. Eu não sou deste mundo, prenderam-me nesta torre através daquele espelho – apontou-o, sim tirar os olhos do seu príncipe vampiro com comportamentos estranhos. – És capaz de fazê-lo funcionar ao contrário?

Com uma expressão circunspecta, Amadis achegou-se ao espelho, observando-o mais de perto. Bateu-lhe com os nós dos dedos e depois desencostou-o da parede, mirando a parte de trás, onde só estavam uns arabescos elegíveis, fortemente cravados na superfície de metal.

– Hm… tendes mesmo a certeza de que não sois uma princesa louca? – Quis saber, só para se certificar da resposta. Foi nessa altura que os binóculos voaram na direcção da cabeça do príncipe.

Ao contrário do que qualquer um poderia pensar em relação a reflexos sobrenaturais, Amadis não os teve e o objecto acertou-lhe mesmo a meio da testa, não fosse Aline uma óptima atiradora. Com a dor súbita, ele levou uma mão à cabeça, mirando a donzela com todo um ar tremendamente magoado.

– Pensei que isso não doesse particularmente. – Notou a caçadora.

– Doeu-me na alma! Cada palavra, cada atitude tua, só servem para me destroçar… – Soltou um soluço, ameaçando desfazer-se em lágrimas.

– Mas tu és um príncipe ou uma princesa? É que estás a comportar-te como um maricas de primeira…

Ele abriu a boca para lhe responder, ultrajado com aquelas suposições.

– Para vossa informação, sou bissexual. E não vos atreveis a dizer que então sou princesa e príncipe ao mesmo tempo, senão deixo-vos aqui fechada para toda a eternidade! – Era uma ameaça a ter em conta, depois de o vampiro lhe ter adivinhado as próximas palavras.

Os braços de Aline cruzaram-se. – Não eras capaz. Eu conheço-te.

Não obteve nenhuma refutação àquelas palavras, apesar de ele ter tentado pensar em alguma coisa, antes de se embrenhar novamente nas inscrições místicas do espelho.

– Penso que está escrito na língua das fadas dos pântanos do sangue – confidenciou, de sobrancelhas franzidas. – Não sei como o ler. Mas…

– Fadas dos pântanos do sangue? – Interrompeu, não gostando da forma como lhe soava aquela denominação.

Amadis lançou-lhe um escrutinar muito sério, tão sério que parecia ter perante ela um novo vampiro e não o príncipe encantado do unicórnio.

– São terríveis criaturas, com não mais do que um palmo de altura. Vivem em pequenas comunidades criadas com bolsas de ar, abaixo da superfície das águas estagnadas. É aí que se canibalizam quando não encontram as suas presas favoritas: humanos. Infelizmente, muitos são os tolos que pensam nelas como meros contos para assustar as crianças, entrando nos seus territórios para serem devorados. Quando a presa passa perto dos seus lares, elas trepam até à superfície e agarram-na pelos pés. A pessoa pensa que ficou presa no pântano mas, quando olha para baixo, já a restante comunidade lhe sobe pelo corpo, chegando rapidamente à pele descoberta do rosto e começando a devorá-la rapidamente. Algumas dirigem-se aos olhos, outras entram-lhe pela boca. É uma morte terrível, nunca ninguém sobreviveu.

Aline levara uma mão ao pescoço, engolindo em seco, até escutar a última frase.

– Então… como é que tu sabes isso?

– Bem, eu já passei no pântano, a bem da verdade. Ia com dois companheiros humanos. Eles foram devorados, mas eu não. As fadas tentaram fazê-lo contudo, quando a primeira me mordeu a ponta do nariz, percebeu que o meu corpo não era humano e partiram em retirada. E aquela dentada doeu. – Levou uma mão à ponta do nariz, afagando-o.

– Devias ter mais pena dos teus companheiros do que do teu nariz. Era bem-feita se te tivessem mordido a ponta de outra coisa. – Notou, num tom azedo.

Amadis arrepiou-se visivelmente, acabando por largar o espelho e preferindo não voltar a comentar o que aquela donzela mal-educada e desrespeitadora estava para ali a insinuar.

continua...

16 - Aline

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Aline (O Caderno dos 80 Temas - Kath)

- Parte I -

Era uma vez, numa torre alta que rompia as nuvens, uma princesa de nome Aline. Ela era diferente das donzelas restantes daquele reino remoto – não trajava qualquer vestido, mas uma roupa pouco típica da época deste conto: jeans, uma camisa e ténis práticos. Na sua expressão podia ler-se o mau humor de viver enclausurada num quarto sem portas, e à sua volta via-se como já expressara o permanente estado de espírito através dos pratos e copos partidos, o dossel da cama rasgado e uma desarrumação que meteria respeito à criança mais rebelde. Porém, por entre tudo aquilo, um espelho alto mantinha-se intacto. Atípico, pensam alguns, que imaginariam que aquela seria a primeira relíquia a ser estilhaçada por entre os ataques de fúria que consumiam a princesa mais vezes do que o recomendável. Mas vou contar-vos um segredo: nem o golpe de um ogre seria capaz de quebrar o espelho, e esta não é a sua única particularidade. Quem se aproximar o suficiente para espreitar por ele, não verá o próprio reflexo. Mas não se assustem, não foram transformados em vampiros sem darem conta. A verdade é que, por entre todas as paredes unas, aquela é uma das únicas formas de se entrar na torre. Quem quisesse sair teria de usar a janela, e não era recomendável fazê-lo porque a aterragem não estaria munida de simpatia.

É então este o cenário que temos dentro da torre da princesa Aline. Sei de antemão que se estão a perguntar quando virá o príncipe para a salvar. Digo-vos, ele aproxima-se celeremente, montado num corcel da mais pura brancura. Do cimo da torre, a donzela escutava-o e preparou-se. Pegou na besta, já montada ao seu lado, e aproximou-se da janela. Ela achava que deveria ser mais algum tarado a pedir-lhe para lançar o cabelo. O seu cabelo era castanho e dava-lhe pelos ombros, estava longe de ter aparência de Rapunzel.

Ninguém gritou por si, para que espreitasse, no entanto deixara de escutar o galope, o que significava que o cavaleiro tinha parado. De súbito, ele apareceu à janela e Aline deu um salto, disparando o virote que falhou o alvo, cravando-se numa das falhas entre as pedras da parede.

– Hey, Hey! Por favor, princesa, venho em paz! – Disse ele de imediato, não fosse ela voltar a disparar. Mas ela não voltou.

– Amadis, és tu? – Mirava-o, incrédula. – E que roupas são essas?

Ele olhou para si mesmo, depois de ter descido do parapeito da janela. Tinha toda uma indumentária principesca, mas o que mais se realçava à vista era a capa lilás.

– São roupas normais, minha princesa. Como sabeis o meu nome? – Retribuiu o olhar. – Nunca vos tinha visto antes, e vós nunca me haveis visto. Sonhasteis comigo?

Aline franziu as sobrancelhas, desconfiada.

– Eu não gosto que gozem com a minha cara, Amadis, por isso acaba com as parvoíces…

Ele abanou a cabeça, sem compreender o que ela estava para ali a dizer. Começou a ponderar na hipótese de aquela princesa ter enlouquecido por todo o tempo que ali ficara fechada.

– Vim salvar-vos do vosso cárcere, bela donzela – declarou, abrindo os braços. – Vinde comigo e levar-vos-ei de regresso ao reino onde pertenceis.

Ela ponderou por um pouco, mas nunca considerando agarrar-se a ele.

– Tu não me conheces, dizes. És deste mundo, então. E vieste salvar-me só porque sim? Não queres nada em troca, como casar-te comigo porque pensas que sou filha de um rei qualquer?

– Não estou interessado em riquezas, se é o que pensais. Nem a desposarei, se não for essa a vossa vontade – afirmou, com toda a dignidade. – Estou somente aqui para salvar a bela princesa.

– Eu não sou princesa – declarou, pousando a besta e tirando do bolso uns pequenos binóculos. Aproximou-se da beira da janela e espreitou lá para baixo. – Amadis, aquilo é um unicórnio?

– Não… não sois? – Perguntou, com uma ignorância inocente de quem nunca imaginara tal coisa. – Sois o quê, então? Uma bruxa disfarçada que me quis capturar?

Aline lançou-lhe um olhar de soslaio, algo ameaçador.

– Chamo-me Aline e sou caçadora de vampiros.

O príncipe só não empalideceu porque, na verdade, já era imensamente pálido. Mas felizmente não brilhava ao Sol.

– Então… foi tudo preparado para me capturar e matar? Foi isso? – Amadis recuou um passo. – Que jogo vil e cruel. Subi a esta torre para vos salvar e recebo uma estaca no coração! Aquele virote estava embrenhado em água benta, não estava?!

A suposta princesa semicerrou os olhos, revelando a sua tão típica falta de paciência para aturar conversas daquele género.

Continua...


16 - Aline

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Noite de Breu (O Caderno dos 80 Temas - Kath)

Escondes o sorriso melífluo
No veludo das saias do vestido
Negro.

Escondes o olhar de estrela
Cadente à brisa nocturna do sussurro
Mudo.

Escondes o cabelo níveo,
Invernal de história e de labirinto
Cego.

Escondes-te e não te alcança
A contemplação do devaneio
Belo.

És pesadelo, Senhora dos Mahr,
Noite de rosto e breu de voz
Gutural.

16 - Noite de Breu

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Sopro (O Caderno dos 80 Temas - Kath)

Fora um dente de leão, no primeiro dia em que o vi. Hoje era um pompom que aguardava a brisa. Vestira-se de branco, como uma noiva no altar, e estendia os braços ao alto, esperando que o tomassem. Oscilava, bailando sozinho. O seu par tardava em vir.

Foi quando o arranquei de modo brusco. Ele estremeceu de medo, sem saber o que lhe aconteceria a seguir. “Seria aquilo o fim do seu sonho?” perguntou-se. Não queria acreditar que, depois de toda aquela espera, acabaria assim.

Limitei-me a sorrir, antes de acabar com a ânsia daquele pequeno pompom. Inspirei profundamente e depois soprei com força, criando o vento tão almejado. Podia jurar que o ouvi a rir-se de alegria quando foi tomado pelo sopro e se quebrou em múltiplas porções. Flutuou até encontrar uma vaga de vento verdadeiro que o tomou nos braços e bailou com ele, afastando-o de vista.

Suspirei e olhei para o que restava. No topo do caule ainda ficara uma pequena parte representativa da vida latente do dente de leão. Voltei a soprar, mas a semente estava bem presa, como se não fosse seu desejo voar e viajar pelo mundo. Depois de pensar um pouco, tirei-a do caule com a ponta dos dedos e deixei-a cair ao lado do sítio donde arrancara a planta que outrora fora.

Talvez ela quisesse simplesmente permanecer na segurança do vaso do meu quarto, para florescer sem preocupações e sonhar com a brisa.

15 (2) - Sopro

domingo, 29 de janeiro de 2012

O Caderno dos 80 Temas - Kath

O canto das aves imiscuía-se no raiar do Sol e eu, sentada à beira do precipício, observava como o céu se matizava com o passar dos minutos. Era uma visão digna dos deuses.

– Em que pensas?

– Não tenho a certeza. Acho que penso em nada – respondi, cruzando as pernas. – Penso em nada para poder sentir tudo. Faz sentido?

Ao meu lado, a bela jovem abanou a cabeça. Os seus cabelos eram de puro ouro, revoltos e reluzentes. O rosto revelava-se uma mescla estranha de expressões que se harmonizavam – parecia simultaneamente triste e alegre. Mas, para mim, isso também não fazia sentido.

– Então, diz-me o que pensas. – Pedi, com um sorriso curioso.

Ela hesitou um pouco, levando um dedo ao queixo enquanto meditava.

– Penso que não penso. Penso que pensar destrói, penso que te estou a destruir ao pensar, por isso não vou pensar mais – respondeu, com um sorriso demasiado feliz para se coadunar com as suas palavras. – Se pensar demasiado, a vida morrerá nesse pensar.

Fiz uma careta de desgosto. As reflexões dela criavam-me nós na mente, e depois tinha de passar todo o dia a tentar desfazê-los. Era sempre assim.

– Mas, se não pensares de todo, a vida não chega a nascer sequer. – Notei, perguntando-me o que iria ela responder àquilo.

Vi-a ficar novamente pensativa. Quanto mais pensava, mais os cabelos cresciam, alargando-se pela superfície em seu redor, mergulhando no penhasco, sem medo. Quando senti que uma madeixa me tocou a mão, estremeci por dentro, sofrendo a sua queimadura na pele e na alma.

– Porque me fazes perguntas tão difíceis? Já disse que não quero pensar. Estou a magoar-te. – Concluiu, sem deixar de sorrir, mas ainda assim com tristeza no olhar.

Encolhi os ombros. Não era nada de novo, só significava que estava na minha hora de recolher, que precisava de me afastar. Mas só depois de sentir um pouco mais daquela dor. Queria que ela pensasse. Queria uma resposta. Insistiria até à eternidade se fosse necessário.

– Não faz mal. Continua a pensar. – Pedi simplesmente, observando-a. Mas até olhar para ela já me magoava.

E ela pensou, pensou até os seus cabelos se perderem no horizonte, pensou até eu sentir o corpo tremer. Quando dei conta que já não aguentaria mais aquele tormento, fechei os olhos.

– Volto amanhã e esperar-te-ei aqui, à mesma hora. Não faltes e traz-me a tua resposta – volvi, deixando-me cair do penhasco com um mero impulso, como se se tratasse da brisa do vento. – Não faltes, Madrugada.

Senti o seu olhar, até me perder de vista na escuridão daquele abismo.

– Até amanhã, Noite – chegaram as suas palavras até mim, antes de me sentir a adormecer. Ela já pensara o suficiente para que a vida nascesse e seguisse o seu trilho sinuoso.

15 - Triste e Leda Madrugada

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O Caderno dos 80 Temas - Kath

Lanças um dado pintado
Das cores da Sorte e perguntas,
Ao rolar do mundo que se agita
Nas vagas do querer,
Se o Destino é descrito nas fases
Da Lua que não queres ver.

E o dado responde que não,
Responde que sim e responde que não,
E alterna a cada rolar,
A cada pirueta que pensa dar
Num círculo de vida.

Aguardas.
Vês o passar do rio,
A curva que dá ao desaparecer
No horizonte que o devora.
E quando retornas o olhar ao dado,
Ele desapareceu devorado
E o Destino fugiu.

Que cada face que te mostrava
Era uma escolha de escolheres na hora.
A decisão tomada foi deixá-lo rolar
E permitir que outrem decidisse
A Sorte do teu azar.

14 - Azar

domingo, 1 de janeiro de 2012

Doravante, à Alma


Doravante, os sonhos serão sóis
Que ofuscam a vida
Guardada num cofre de ossos.

Doravante, o reencarnar da fénix
Será o teu coração
Que destila a alma a cada batimento.

Doravante, será essa a purificação
Dos desejos que imbuis
Nas palavras não ditas.

Doravante, dar-te-ei a mão,
Entrelaçarei os dedos nos teus,
E passearemos noutros horizontes.

Partimos à conquista do Mundo Encantado;
Minha Donzela, não te apartes de mim,
Que sem alma sou lembrança.

E as lembranças são Passado…

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Phoenix

Perhaps there is a strange moon,
Here, in the sky which calls you.
Only the bravest can reach it soon,
Entering the stars, knowing the dark blue.
No one talks about it, it's a mystery,
Imaginary legend that comes true.
Xmas flows on the wings of theory,

However, you are a Phoenix and you fly
On the wings of eternity.

You are immortal and free...
Stardust that will reborn.

(Um presente de Natal para um amigo)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pirilampos


A noite encobre-se de cobertores,
Mantas pintadas de sonhos pardos
E lanternas que luzem tremores
Ao cantar do vento nos escuros prados.

Escuta-se dos pequenos o ciciar,
Escondidos na Natureza.
Se espreitares, vê-los a brilhar
Para o caminho da incerteza.

Que eles guardam trilhos de fada
E túneis de gnomos reis.
Para o povo da terra encantada
São chamados "soldados fiéis".

Para ti, que os vês tão belos,
São somente presentes de iluminar.
Pirilampos pequenos de singelos,
Caídos um dia do veludo estelar.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O Caderno dos 80 Temas - Kath

Mergulhei as mãos profundamente. Era tinta a que via,
tanta que se mesclava na mente solta como um véu
que adere às paredes enrugadas. Tanta que escorre
pelos vales entre os dedos. Tanta que era,
imensa.

Quando olhei para ti, tinhas perdido os tons
rosados. Tinhas perdido o calor
de um ser acordado. Eras
cadáver.

E a tinta era vida. Era suspiro
que segreda à noite. Que
sacia.

Retratar-te-ei como ela. E ao teu espírito,
rubro.

10 - Rubro

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Teias


Escuta o eco surdo das árvores,
Ao correres por entre elas,
Em busca do coração.
Firmes, sente, presos nos trajes,
Os dedos das almas alvas
Que te buscam em vão.
Corres, sob um trilho submerso,
Presa às teias de sangue,
Essas guias de solidão.
E cada brusco repuxar de teia
É denúncia à rainha cega,
Que te sente na sua mão.

(Capítulo XVI do Prín)

sábado, 29 de outubro de 2011

A Bênção da Floresta

Perdido. Sir Ludovic estava completamente perdido numa floresta pintada de branco mas que, daí a menos de uma hora, seria terrivelmente negra. Quase conseguia pressentir os uivos do anoitecer, que lhe farejariam o rasto, esfomeados, sedentos da sua carne e sangue. E, por essa razão, não poderia parar.

A cada passo, as botas enterravam-se na neve gélida dificultando-lhe a jornada, como se também ela lhe conjurasse um destino fúnebre. O ar saía-lhe da boca condensado, revelando o quão grande era a diferença de temperatura entre o corpo e o ambiente em redor. E a mão que segurava a besta já mal conseguia mover os dedos, deixando que Ludovic pusesse em causa a utilidade que teria em caso de um ataque surpresa. Matá-lo-iam e o cadáver devorado até aos ossos seria depois encoberto por algum nevão.

Fizera mal em pensar nisso. Como se as nuvens lhe escutassem a mente, deixaram escapar pedaços congelados delas próprias e a neve começou novamente a polvilhar a região. Mas o tom cinzento do céu agoirava uma noite árdua. Se parasse para descansar, congelaria e não voltaria a acordar.

Como adivinhara, menos de uma hora depois de as trevas se instalarem na floresta, escutou o chamamento dos lobos que partiam em busca de alimento. Mas existiam criaturas mais temidas que os membros de uma alcateia, seres feitos de sombra que rastejavam aos pés das presas e as engoliam, e mesmo as próprias árvores dizia-se que atacavam as pessoas por falta de nutrientes junto às raízes. Quem nunca fora ali pensaria que eram só descrições de loucos e trapaceiros, mas Ludovic preferia não arriscar essas ideias ou subestimar a Floresta.

Vagueou durante horas, na mais densa escuridão, sem mostras de aproximação de um único predador. Tentou que os passos fossem silenciosos, que o vento disfarçasse a sua presença e que o frio inutilizasse o faro dos inimigos, tal como lhe congelava o nariz. No entanto, numa situação de cegueira como aquela, era inegável a sensação de estar a ser observado.

De súbito, deixou de conseguir mover as pernas, como se estas se tivessem enterrado num lodo muito espesso. Praguejou interiormente. Fora capturado por um Pesadelo de Sombra, um ser que rastejava sem se escutar e que era feito de escuridão. Quando capturava uma presa, não deixava qualquer vestígio dela. Sem precisar de muita pontaria, Ludovic apontou a besta para baixo e carregou no gatilho, quase não se importando que pudesse acertar nos próprios pés. Felizmente, não foi o caso. Um guincho de dor baixo destilou-se da consistência pouco material da criatura, no entanto ela não lhe libertou as pernas, insistindo em tê-lo como refeição. Voltou a carregar a besta, porém o monstro começou a absorvê-lo, enterrando-o em si. Quanto mais tentava fugir, mais desaparecia.

Foi quando sentiu como que duas serpentes a envolverem-lhe os pulsos e a puxarem-no. Numa ocasião normal, tal não teria resultado, porém a criatura deixou-o ir, libertando-o das suas mandíbulas sem dentes e ainda assim mortais. Ficou pendente no ar, sem ver nada em seu redor, sem saber o que se passava na realidade. Mas aquilo que o agarrara movimentava-se também, sentia-se balançar no ar como um fantoche.

- Larga-me… - rosnou, puxando os braços com força. – Maldição… maldição! Maldita floresta do demónio!

A constrição em redor dos seus pulsos aumentou, como se o ser que o prendia não tivesse gostado da ofensa. Pouco tempo depois, sentiu as costas baterem de encontro ao tronco de uma árvore, no entanto este não se manteve rígido e imóvel. A madeira começou a ganhar uma concavidade, para a qual era empurrado gradualmente. Antes de poder fugir, a concavidade acabou por se fechar, como se o tronco da árvore o tivesse comido. Berrou até a garganta arranhada ser incapaz de fazer muitos mais sons. Só quando o silêncio em redor foi mais forte é que a escutou, uma voz que lhe sussurrava, vinda da madeira da árvore, pairando junto a si.

“Nobre cavaleiro, descansai, estais seguro” dizia, num tom suave, feminino, lembrando-lhe uma fada. Talvez fosse mesmo uma. Ou um espírito que o quisesse matar, mas era impossível fugir, de qualquer forma. “Ele não te poderá alcançar aqui. Dorme nos meus braços, nada temeis da floresta. Os corações puros serão poupados”.

- Quem és? – Quis saber Ludovic, piscando os olhos na escuridão. – O que queres de mim? Sê sincera!

Estranhamente, sentiu um leve estremecer no interior da árvore, como se ela se ressentisse com a aspereza. Como se fosse demasiado sensível, tal e qual uma donzela.

“Não vos desejo mal, cavaleiro. Quero apenas auxiliar na demanda que vos leva para longe da floresta, e nada peço em troca”, sussurrou.

- Quem és, então? – Repetiu, franzindo as sobrancelhas.

“Ninguém. Perdi o nome há muitos anos atrás”, respondeu apenas, deixando-se depois cair em silêncio.

Ludovic não fez mais questões. A parte lógica da sua mente dizia-lhe para desconfiar daquele ser. A parte emotiva queria confiar na voz frágil da árvore. Em todo o caso, tentou manter-se atento. Porém o sono, naquele aconchego estranho, chegou depressa e tomou conta de si, embalando-o no interior do tronco.

Foi a brisa fria que o despertou, como um estalo forte. Tremeu e abriu os olhos, deparando-se com o manto branco que cobria o solo da floresta. Ainda estava encaixado na madeira, mas apressou-se a saltar dela, observando depois aquilo que o ajudara na noite passada. Era simplesmente uma árvore despida, os ramos tão nus quanto um bebé que chega ao mundo. O vento agitava-os, dando-lhe um estranho aspecto de aceno à despedida.

- Obrigado – sussurrou, com sinceridade. Fez uma leve vénia antes de partir. O Sol nascera há pouco tempo, por isso ainda teria luz durante várias horas. Tinha de as aproveitar.

Caminhou incansavelmente, ignorando o estômago que o torturava. Por vezes olhava para trás, pensando escutar algum rastejo furtivo, mas nada via. Sentiu que a noite chegou demasiado depressa, e com ela o predador voltou a atacá-lo sem hesitação. Ludovic pensou que não se safaria dessa vez, todavia novamente a Floresta o auxiliou, novamente a árvore mais próxima de si o incorporou, salvando-o. Desta vez não esperneou nem esbracejou, deixando-se simplesmente levar.

- Obrigado, novamente – disse, já no interior do tronco. Pousou uma mão na madeira macia e um pouco morna. – Continuo sem compreender porque me ajudas, mas devo-te a vida e gostaria de retribuir.

“O único contributo que desejo é que continueis a viver”, disse a mesma voz da outra noite. “A vida é sagrada”.

- Na verdade não sei se duro muito mais – declarou, com uma certa ironia. – Não sobrevivo da neve. Mas agradeço o t… seu esforço.

Repensou o modo do tratamento para alguém que o salvava pela segunda vez sem pedir nada em troca.

“Posso alimentar-vos, se o permitir, com a minha seiva de reserva”.

- Seiva…? Como? – Mal colocou a questão, escutou a madeira mover-se e uma extensão criada pela árvore tocou-lhe os lábios. Para eles escorreu primeiro uma gota doce, em modo de prova. Ludovic tomou-a, agradecido. Pouco depois bebia avidamente todo o espesso líquido que lhe era dado. Mas depressa acabou a sua refeição.

- Quero sinceramente agradecer-lhe. Deixai-me, por favor – implorou, fazendo uma festa na madeira, já que a árvore não tinha mãos. Já lhe dera tanta salvaguarda…

“Um beijo”, foi o que a árvore disse, ainda mais baixo, como se pudesse ser censurada e tivesse a esperança de que ele não a escutasse.

- Um beijo? – Estava impávido. – Desejais o beijo de um homem?

Não houve resposta para a sua questão. A árvore estava arrependida do que ousara dizer. Ludovic ponderou por um pouco sobre qual poderia ser o significado de tudo aquilo.

- Dar-te-ei um beijo, quando sair daqui – declarou. Seria tolo se não desse ouvidos à cautela. Existiam tantas histórias que descreviam o final trágico a que um beijo poderia levar…

A árvore não voltou a falar e o ambiente no interior do tronco pareceu tornar-se algo pesado, soturno. Ele tentou não pensar no assunto e, pouco depois, adormeceu.

Vários dias passaram, durante os quais a dormida na árvore se tornou regular. Ela foi sempre educada e nunca mais tocou no assunto do beijo. Ludovic acabou por se descobrir a falar com ela, contando-lhe a sua vida pouco amável e trabalhadora. O espírito que habitava as árvores foi sempre um ouvinte atento.

Até ao dia em que a noite caiu e as luzes da povoação já se conseguiam distinguir por entre os troncos da floresta agora menos densa. Olhou indeciso para as árvores em seu redor, perguntando-se qual delas escolher, para falar. Acercou-se do tronco mais próximo.

- Árvore? – Perguntou, por falta de nome mais específico. Nada aconteceu. – Preciso de falar contigo. Responde-me, por favor.

A única resposta que obteve foi a do vento, soprando álgido e insensível. Foi então até outra árvore e tentou falar com essa também. Aconteceu o mesmo. O espírito parecia já não estar ali. Ludovic sentiu-se como que abandonado e um vazio estranho preencheu-o. Era só uma árvore, não era? Porque haveria de se sentir assim? Na verdade, durante aqueles últimos dias, não a considerara tanto como uma planta mas como uma donzela. Aconchegara-o no seu corpo como se fosse uma, dera-lhe um carinho que há muito não sentia vindo de alguém, e de modo tão desinteressado! E agora parecia ter desaparecido. Abanou a cabeça, tão desiludido como se fosse uma verdadeira mulher a deixá-lo para trás, fugindo para os braços de outro, talvez um viajante perdido que necessitava do seu auxílio.

- Prometi-lhe um beijo – sussurrou para si, com a mão apoiada no tronco. – Espero que ela o sinta.

Aproximou os lábios do tronco repleto de nós, e pousou-os levemente na casca áspera, por alguns segundos. Quase que esperava sentir outros lábios corresponderem àquele beijo, mas tal não aconteceu.

- Adeus – sussurrou, fazendo uma última festa no tronco, antes de voltar costas. Os passos que o levavam para longe eram lentos, em comparação com aqueles que já caminhara.

Quando abandonou a floresta, olhou para trás, como última despedida. No entanto, as sobrancelhas ergueram-se quase de modo próprio ao ver uma jovem a observá-lo da fronteira que separava a floresta das restantes terras níveas. O cabelo preto, comprido e desalinhado emoldurava-lhe o rosto delicado e muito claro. A cor de safira do seu olhar alcançava-o, mas não se moveu para ir ter com ele. Era uma imagem triste e solitária, de pés descalços, dentro de um vestido branco que se camuflava com a neve, lembrando um fantasma a adejar na brisa. Fora o beijo que a fizera surgir?

Ludovic hesitou só por um segundo antes de dar meia volta e correr para ela. A donzela desconhecida piscou os olhos, sem compreender porque corria ele para si daquela forma e abrindo os braços ao mesmo tempo. Nunca ninguém lhe fizera aquilo. A maioria fugia quando a via. Sentiu-se abraçada de modo um pouco bruto mas terno e encolheu-se contra aquele corpo forte, estremecendo de frio pela primeira vez em muito tempo.

- Vem para minha casa, estás tão fria – notou Ludovic, sem a largar. – Vem comigo, quero agradecer-te por tudo.

Ela abanou a cabeça, sem dizer uma palavra. Dentro da sua mente escutou a voz feminina com que a árvore sempre lhe falara.

“Não posso ir. O vosso beijo foi o suficiente, nobre senhor”.

- Não aceito – declarou com firmeza. – Diz-me o porquê de não poderes.

Apartou o abraço para a poder fitar nos olhos. Estes desviaram-se dos seus, sem lhe dar resposta. Ficaram um pouco mais brilhantes, revelando as lágrimas que tentava conter. Ludovic agarrou-lhe o rosto com ambas as mãos.

- Fica comigo, deixa-me cuidar de ti. O que te prende a este sítio? Permite-me que quebre essas correntes – implorou. Lembrava-lhe tanto uma criança perdida. A donzela abanou a cabeça simplesmente. – Então… fico contigo na floresta.

Os olhos azuis da jovem abriram-se muito, completamente estupefacta ao ouvir aquilo.

“Porque… porque farias isso?!”, quis saber, sem abrir os lábios sequer. Talvez fosse muda.

- Porque, de agora em diante, és a senhora do meu coração – respondeu, encontrando-lhe os lábios para um novo beijo apaixonado, observados pela noite e pela neve de Inverno.

Nenhuma das suas palavras mentia e assim quebrou-se o encantamento que prendia aquela jovem donzela à floresta, aquele que a fazia vaguear de árvore em árvore, como uma guardiã e prisioneira que espera a hora de partir nos braços de quem ama. Na aldeia receberam-nos de olhares desconfiados, contudo, com o passar dos anos, a estranha jovem que não falava integrou-se. Não obstante isso, a Floresta continuou com todas as suas lendas. Aquela era só mais uma para juntar ao folclore da região. Uma história de amor entre um cavaleiro e uma donzela encantada sem nome.

sábado, 22 de outubro de 2011

O Caderno dos 80 Temas - Kath

Lembras-te dos dias em que o céu chorou?
Estendeu os seus dedos das nuvens e tocou
Tons molhados sobre os secos pintados de pó.
Ouve novamente esse choro ao longe, ele chama-te.

01 - Leto

Canta, canta, que os sonhos sobem
Aos céus da madrugada.
Toscos, pintam-nos de pontos que sorriem
Amor gentil e olhos de prata.
Riem-se as estrelas que não sabem ler,
Inveja é a delas por não sonhar!
Noite adentro, os sonhos são o teu saber
Ansioso e com asas de voar.

02 - Catarina