domingo, 17 de fevereiro de 2013

Donde Sopra a Alma


Donde sopra a alma
Os vagares do sonho,
Sopra o que foi, suponho,
E o que será;
Que o vento é segredo,
E as partículas do tempo
Andam cá e lá.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Vogais Asas da Borboleta

The Ship, Salvador Dalí (1943)

Vogais asas da borboleta
Branca escuma que te conhece
Encanto dos anos idos em água
Vinda escondida que é prece

E sombreias balanços tontos
Tantos que a febre fenece
De reza que sereia santa
É ela que te canta a prece

Ladainha que vem envolta
Ao largo do que prende terra
E oferece mar de olhos
Chorosos a quem deserda

Da vida o vento cicia
Lendas dos cabelos véus soltos
Do teu peito de madeira
Nesses trajes revoltos

23 - Caravela

domingo, 6 de janeiro de 2013

Brisa, abraça a Montanha





Brisa, abraça
A montanha de dentes
Brancos cor de nada.
Abraça-a e salteia
Os seus bolsos de pedra
Pária e terra húmida
E insectos que arrulham
Nas cavernas fundas.

Traz contigo o ouro
Que te adorna o ar
Livre, leve, louco
De voar e amor
Dos sonhos idos,
E dos que irão ficar
Embebidos qual suspiro
De jóia em ti.







22 - Abraço

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Amálgama do Céu além Molde



Nasceu estrela quando era só
Sonho em caixa de coração,
O correr apressado do dia
Que dorme, essa ilusão.

Rebento de luz, calor, gelo,
Pó de cometa sem sê-lo.

Foi, será, até deixar,
Amálgama do céu além molde,
Que a lembrança é do Tempo,
E o Universo evolve.



21 - Lembrança

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Ritual


Sonho a vida dos condenados
No teu cabelo cor de neve,
Oiço os ecos que, desmembrados,
Alvoram ao sangue que os inspira,
Urdem fugas da carne mole
E escondem o cerne da mentira.
Que com a tua voz de menina
Selo o frasco do embrião.
A roda gira o tempo,
O tempo prende-se na mão
E dança, dança louco,
Sem coração.


(Epílogo do Prín)

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A Estrada Correu

A estrada correu
Com longas braçadas em par,
Que as pernas alguém lhe comeu
Na fome de caminhar.

Deixa-me então provar-lhe os braços;
Encontrarei neles asas para voar
Dos toscos passos dados
No trilho que é nada imaginar.

Alma e Larva


Fundamentas com reversos de terra
A vida que em ti habita.
Afirmas que com fé prospera
No firmamento da alma rica:
A bolota que o esquilo enterrou,
Larva no limbo do teu avô.

Que os ascendentes e a terra
Regurgitam vermes de entranhas
Cheias, que a Ceifeira é certa,
E a foice promessas santas.
O óbolo é soturna Sorte
De como te rouba a Morte.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Semeei Flores no Regaço Cálido

Ces Jours de Lumiére, por Emilie Leger



Semeei flores no regaço cálido
Do céu que é minha manta.
Semeei sempre de mão aberta,
Que a vontade era quanta,
A de ver cada rebento florir
Aleatório na vida que há-de vir.


E floriram de pétalas mortas,
Sob o sopro do nevoeiro.
Assim o contam, que não as vi.
Das mãos abertas caiu paradeiro
Dos olhos que semeei
Com os mistérios de El-Rei.

domingo, 25 de novembro de 2012

Caminhas Passos Invisíveis


Caminhas passos invisíveis
Num lugar pintado de inexistente.
Olhas para trás e vez nada,
O mesmo nada onde o poente
Do Sol é luz rasgada
Pela adaga roubada à noite.

Caminhas e os teus pés são
Ossos descalços do coração.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Quanto se conta do Vento

©Stephanie Pui-Mun Law








Quanto se conta do vento
Num suspiro do Tempo?
Conta-se tudo, que todos são
Indistintos na imensidão.



sábado, 6 de outubro de 2012

Somos o Dito Pão do Pecar (Caderno dos 80 temas - Kath)




The Seven Deadly Sins and the Four Last Things,
 by Hieronymus Bosch, 1485



O querer, não querer, por querer,
O quase que desvirtua o sentido,
Somos a ira dos olhos por ver,
O coração em pompa consumido.

O arrepio na pele carnal do ser
O que te engasga por ser demais,
Somos o ter tudo e não ter,
E o reclinar dos fundos abissais.

O pesadelo que é sonhar,
E que deliciado dorme contigo;
Somos o dito pão do pecar,
Os fiéis amigos do inimigo.

 20 - Sete Pecados

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Conto "Gula"

Para quem quiser ler, aqui fica o conto que escrevi para o blogue "Fantasy & Co", dedicado à literatura fantástica!

domingo, 1 de julho de 2012

O Fogo é Líquido no teu Cabelo

O fogo é líquido no teu cabelo
Debruçado à janela dos sonhos.
Pinga das madeixas soltas ao vento,
E vem aquecer-me,
Abraçar-me num toque lento
De quem teme e foge
Do mundo.

Não temas, que o temor
Tem vontade de roubar a vida,
E é imensa a que resguardas
Longe do olhar, perdida,
Nos bosques do pensar.
E temo, temo tanto,
Por te magoar.

Foges sem correr,
Incendeias com palavras
O que desejas nunca ver
Em chamas tão argutas de vivas.
Não compreendes então
Esta silenciosa mão
Que se estende para ti.

Aguardo e escuto
O crepitar que te enche,
A ameaça que é mentira nua
Contada a ti por ti, só tua.
E apago-a com um abraço
Tão sincero que me perco
No fogo líquido do teu regaço.

domingo, 24 de junho de 2012

Longe Senta-se o Olhar



Longe senta-se o olhar,
Mãos pousadas no regaço ledo,
Atenção vasta no além do mar,
Quando o alcançam sussurro e segredo
Vindos do mundo a marear.

Aportam a seus pés desnudos,
Levados à areia por volúveis ombros,
Fortes de escuma em água e ar unos.
Enviados são, erguidos dos escombros,
De alma deitada aos mares profundos.

Ao olhar reflectem a réstia passageira
Que se arrasta pelos trilhos dos que são
Terra e Mar em união.

Foram do mundo essência verdadeira
E conquista lançada ao vento,
Qual semente sem rebento.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Palavras

As palavras são um mundo
Vasto qual o veludo negro além céu,
Denso como o cerne da estrela mãe,
Vivo igual à chama de Prometeu
Que levou o Homem para Além!

São a levedura que tinge o sonho,
E dão vida a imagens mil,
Que se nem mil palavras descrevem uma,
Uma palavra de nome senil
Caracteriza a mente cega e surda.

Que uma única palavra tem em si
A brisa que na alma enfuna
O elo do Universo.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Cataratas da Memória

O fôlego da vida é um sonho
Simples como o primeiro e árduo voo
Escondido no inspirar.
Quando o roubam, o rio cai,
Cantando às cataratas da memória,
Contando essa antiga história
Que se afasta para o mar.
E ele está cheio de recordações,
Que ondulam serenas, num dia;
Revolvem o profundo em lágrimas e temer,
No outro revolto dia que te dizia
Para não esquecer.

(Capítulo XVII do Prín)

terça-feira, 20 de março de 2012

Arranhar das Engrenagens (O Caderno dos 80 Temas - Kath)

Oiço o arranhar das engrenagens,
Ferindo a carne, as veias secas,
Retardando um pulso da pulsação,
Desfazendo os ossos, roendo os nervos,
Oxidando o coração.

Sintomas de doença sem crença
Que enferruja o que há a minar;
Rompe a pele, enruga o pensamento,
Desencobre a máquina da alma velha
Consumida pelo Tempo.

Cada peça dentada é pó à brisa
E o espírito ferrugem do firmamento.

19 - Ferrugem da Alma

segunda-feira, 19 de março de 2012

Escarpas do Fim do Mundo (O Caderno dos 80 Temas - Kath)

Em ti ressoam as escarpas do fim do mundo,
Trajadas de burcas e despidas do olhar,
Pairam nas bainhas do tom profundo
Da alva escuma do espiar.

O trovejar do canto é melodia rouca,
Resmoneio contigo do interior do mar.
Vem às ondas e lança a voz, que é louca
A donzela sereia que te vem escutar.

18 - Música

sexta-feira, 16 de março de 2012

Vollüspa - Antologia de Contos de Literatura Fantástica


Prefácio:

Muito mais que um título, Vollüspa significa renovação, a morte do velho e o nascimento do novo, purificação, se o leitor preferir. Foi deste vocábulo da mitologia Nórdica, retirado do Edda Poético, fonte de inspiração de muita da literatura fantástica, que surgiu a ideia um trabalho desde tipo.

A ideia é simples: juntar alguns dos melhores autores portugueses de literatura fantástica com vozes mais desconhecidas, mas não menos importantes, e dar a conhecer os seus trabalhos de ficção curta. O objectivo é claro: ajudar a alcançar uma revitalização no género da Ficção Científica e do Fantástico! A literatura fantástica precisa destes projectos. É necessário dar a conhecer novos mundos, bem como oferecer uma nova base de trabalho para os autores, onde possam desenvolver a sua paixão.

Os três grandes géneros da literatura fantástica estão representados neste volume: a Ficção Científica, com textos de Afonso Cruz, João Ventura, Luís Filipe Silva, Carlos Silva e também com um texto da autoria do coordenador, Roberto Mendes. É notória uma aproximação ao Terror e ao Realismo Mágico nos textos de José Pedro Lopes e de José Manuel Morais. A fantasia de Joel Puga, Carla Ribeiro, Álvaro de Sousa Holstein, Regina Catarino, Marcelina Gama Leandro, Nuno Gonçalo Poças, Carina Portugal e o conto de Pedro Ventura, que recupera o ambiente de Rod Serling, oferecendo ao leitor uma viagem no universo típico de Twilight Zone, completam o ciclo desta primeira Vollüspa. O leitor pode deambular entre a história de um último vampiro, receber os recados de máquinas que escrevem sozinhas, conhecer raças alienígenas que dominam os humanos num futuro distante, assistir à queda de Roma, ouvir os acordes de uma música que toca as almas de uma forma muito especial, ser levado ao limite pela figura mítica da morte, viajar pelos céus descobrindo os seus segredos e celebrar um natal artificial, onde tudo imita o verdadeiro, sempre com a devida patente registada…

Autores:

Afonso Cruz
Álvaro de Sousa Holstein
Carla Ribeiro
Carlos Silva
Carina Portugal
João Ventura
Joel Puga
José Manuel Morais
José Pedro Lopes
Luís Filipe Silva
Marcelina Gama Leandro
Nuno Gonçalo Poças
Pedro Ventura
Regina Catarino
Roberto Mendes

A antologia custa 13€ e por agora pode ser adquirida no site da HM editora.

Correio do Fantástico

P.S.: Muito em breve será disponibilizado um .pdf gratuito com um dos contos da antologia.