domingo, 10 de março de 2013

Lágrima


Longe leva a lágrima
O vento ledo de alguém.
Lento lobriga a lavra,
Onde deve cair além.

Que se empluma rebento
Sem semente se é nada
Levado em mãos de vento.
É pela terra tragada.

E a água guarda-a no leito,
Líquido de cerne em berço
Fátuo e amparo de trejeito.

Que querendo por não querer,
A lágrima é resquício que teço
Para o mundo colher.

24 - Lágrima

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Donde Sopra a Alma


Donde sopra a alma
Os vagares do sonho,
Sopra o que foi, suponho,
E o que será;
Que o vento é segredo,
E as partículas do tempo
Andam cá e lá.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Vogais Asas da Borboleta

The Ship, Salvador Dalí (1943)

Vogais asas da borboleta
Branca escuma que te conhece
Encanto dos anos idos em água
Vinda escondida que é prece

E sombreias balanços tontos
Tantos que a febre fenece
De reza que sereia santa
É ela que te canta a prece

Ladainha que vem envolta
Ao largo do que prende terra
E oferece mar de olhos
Chorosos a quem deserda

Da vida o vento cicia
Lendas dos cabelos véus soltos
Do teu peito de madeira
Nesses trajes revoltos

23 - Caravela

domingo, 6 de janeiro de 2013

Brisa, abraça a Montanha





Brisa, abraça
A montanha de dentes
Brancos cor de nada.
Abraça-a e salteia
Os seus bolsos de pedra
Pária e terra húmida
E insectos que arrulham
Nas cavernas fundas.

Traz contigo o ouro
Que te adorna o ar
Livre, leve, louco
De voar e amor
Dos sonhos idos,
E dos que irão ficar
Embebidos qual suspiro
De jóia em ti.







22 - Abraço

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Amálgama do Céu além Molde



Nasceu estrela quando era só
Sonho em caixa de coração,
O correr apressado do dia
Que dorme, essa ilusão.

Rebento de luz, calor, gelo,
Pó de cometa sem sê-lo.

Foi, será, até deixar,
Amálgama do céu além molde,
Que a lembrança é do Tempo,
E o Universo evolve.



21 - Lembrança

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Ritual


Sonho a vida dos condenados
No teu cabelo cor de neve,
Oiço os ecos que, desmembrados,
Alvoram ao sangue que os inspira,
Urdem fugas da carne mole
E escondem o cerne da mentira.
Que com a tua voz de menina
Selo o frasco do embrião.
A roda gira o tempo,
O tempo prende-se na mão
E dança, dança louco,
Sem coração.


(Epílogo do Prín)

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A Estrada Correu

A estrada correu
Com longas braçadas em par,
Que as pernas alguém lhe comeu
Na fome de caminhar.

Deixa-me então provar-lhe os braços;
Encontrarei neles asas para voar
Dos toscos passos dados
No trilho que é nada imaginar.

Alma e Larva


Fundamentas com reversos de terra
A vida que em ti habita.
Afirmas que com fé prospera
No firmamento da alma rica:
A bolota que o esquilo enterrou,
Larva no limbo do teu avô.

Que os ascendentes e a terra
Regurgitam vermes de entranhas
Cheias, que a Ceifeira é certa,
E a foice promessas santas.
O óbolo é soturna Sorte
De como te rouba a Morte.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Semeei Flores no Regaço Cálido

Ces Jours de Lumiére, por Emilie Leger



Semeei flores no regaço cálido
Do céu que é minha manta.
Semeei sempre de mão aberta,
Que a vontade era quanta,
A de ver cada rebento florir
Aleatório na vida que há-de vir.


E floriram de pétalas mortas,
Sob o sopro do nevoeiro.
Assim o contam, que não as vi.
Das mãos abertas caiu paradeiro
Dos olhos que semeei
Com os mistérios de El-Rei.

domingo, 25 de novembro de 2012

Caminhas Passos Invisíveis


Caminhas passos invisíveis
Num lugar pintado de inexistente.
Olhas para trás e vez nada,
O mesmo nada onde o poente
Do Sol é luz rasgada
Pela adaga roubada à noite.

Caminhas e os teus pés são
Ossos descalços do coração.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Quanto se conta do Vento

©Stephanie Pui-Mun Law








Quanto se conta do vento
Num suspiro do Tempo?
Conta-se tudo, que todos são
Indistintos na imensidão.



sábado, 6 de outubro de 2012

Somos o Dito Pão do Pecar (Caderno dos 80 temas - Kath)




The Seven Deadly Sins and the Four Last Things,
 by Hieronymus Bosch, 1485



O querer, não querer, por querer,
O quase que desvirtua o sentido,
Somos a ira dos olhos por ver,
O coração em pompa consumido.

O arrepio na pele carnal do ser
O que te engasga por ser demais,
Somos o ter tudo e não ter,
E o reclinar dos fundos abissais.

O pesadelo que é sonhar,
E que deliciado dorme contigo;
Somos o dito pão do pecar,
Os fiéis amigos do inimigo.

 20 - Sete Pecados

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Conto "Gula"

Para quem quiser ler, aqui fica o conto que escrevi para o blogue "Fantasy & Co", dedicado à literatura fantástica!

domingo, 1 de julho de 2012

O Fogo é Líquido no teu Cabelo

O fogo é líquido no teu cabelo
Debruçado à janela dos sonhos.
Pinga das madeixas soltas ao vento,
E vem aquecer-me,
Abraçar-me num toque lento
De quem teme e foge
Do mundo.

Não temas, que o temor
Tem vontade de roubar a vida,
E é imensa a que resguardas
Longe do olhar, perdida,
Nos bosques do pensar.
E temo, temo tanto,
Por te magoar.

Foges sem correr,
Incendeias com palavras
O que desejas nunca ver
Em chamas tão argutas de vivas.
Não compreendes então
Esta silenciosa mão
Que se estende para ti.

Aguardo e escuto
O crepitar que te enche,
A ameaça que é mentira nua
Contada a ti por ti, só tua.
E apago-a com um abraço
Tão sincero que me perco
No fogo líquido do teu regaço.

domingo, 24 de junho de 2012

Longe Senta-se o Olhar



Longe senta-se o olhar,
Mãos pousadas no regaço ledo,
Atenção vasta no além do mar,
Quando o alcançam sussurro e segredo
Vindos do mundo a marear.

Aportam a seus pés desnudos,
Levados à areia por volúveis ombros,
Fortes de escuma em água e ar unos.
Enviados são, erguidos dos escombros,
De alma deitada aos mares profundos.

Ao olhar reflectem a réstia passageira
Que se arrasta pelos trilhos dos que são
Terra e Mar em união.

Foram do mundo essência verdadeira
E conquista lançada ao vento,
Qual semente sem rebento.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Palavras

As palavras são um mundo
Vasto qual o veludo negro além céu,
Denso como o cerne da estrela mãe,
Vivo igual à chama de Prometeu
Que levou o Homem para Além!

São a levedura que tinge o sonho,
E dão vida a imagens mil,
Que se nem mil palavras descrevem uma,
Uma palavra de nome senil
Caracteriza a mente cega e surda.

Que uma única palavra tem em si
A brisa que na alma enfuna
O elo do Universo.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Cataratas da Memória

O fôlego da vida é um sonho
Simples como o primeiro e árduo voo
Escondido no inspirar.
Quando o roubam, o rio cai,
Cantando às cataratas da memória,
Contando essa antiga história
Que se afasta para o mar.
E ele está cheio de recordações,
Que ondulam serenas, num dia;
Revolvem o profundo em lágrimas e temer,
No outro revolto dia que te dizia
Para não esquecer.

(Capítulo XVII do Prín)

terça-feira, 20 de março de 2012

Arranhar das Engrenagens (O Caderno dos 80 Temas - Kath)

Oiço o arranhar das engrenagens,
Ferindo a carne, as veias secas,
Retardando um pulso da pulsação,
Desfazendo os ossos, roendo os nervos,
Oxidando o coração.

Sintomas de doença sem crença
Que enferruja o que há a minar;
Rompe a pele, enruga o pensamento,
Desencobre a máquina da alma velha
Consumida pelo Tempo.

Cada peça dentada é pó à brisa
E o espírito ferrugem do firmamento.

19 - Ferrugem da Alma

segunda-feira, 19 de março de 2012

Escarpas do Fim do Mundo (O Caderno dos 80 Temas - Kath)

Em ti ressoam as escarpas do fim do mundo,
Trajadas de burcas e despidas do olhar,
Pairam nas bainhas do tom profundo
Da alva escuma do espiar.

O trovejar do canto é melodia rouca,
Resmoneio contigo do interior do mar.
Vem às ondas e lança a voz, que é louca
A donzela sereia que te vem escutar.

18 - Música