quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
As aves são olhos intrépidos
As aves são olhos intrépidos,
Vales e montes trejeitos,
O sopro do vento é voz de sussurro,
Grito mudo, eterno uivo.
A chuva, timbrada em lágrima,
Embebe os lábios da terra,
Sorvida a lembrança distante
Dos confins do mar,
Donde se perde o mundo
Que nele é fonte e desaguar.
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
A Verdade Mente
A Verdade mente.
É entidade que constrange,
Distopia morta senciente
Que caminha sem pés.
Lacunas de
Dedicatória,
Poesia
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Senta-te à Beira-rio
Senta-te à beira-rio.
Atenta o barco que ali vai
Corrente a baixo, que se esvai
Entre os cabelos do estio.
Entrança seus rumos.
Sê guia do destino, feiticeira,
Sê aquela que é ao olhar sereia,
E ao escutar sussurros.
Toca o Sol ao pôr.
Emprestado toma-lhe então
Luz, aconchego e coração,
Que seu cerne é flama e ardor.
Lança-os ao vento,
Áureo nómada, mensageiro.
Envia-o ao teu marinheiro
Que ao céu reserva-se atento.
Sob o seu toque e beijo será viva
A recordação deixada ao largo,
A doce donzela que de encargo
Vela o regresso à partida.
An Evening in Arcadia - Thomas Cole (1843)
domingo, 22 de setembro de 2013
Mão na mão
Mão na mão,
Alma e sangue no coração,
Conquanto o que vai e volta,
Conquanto o peito que se revolta.
Leve o pesar, peso com sentido a vida
E aguardo, que a guardo sentida,
Fruto do tempo que flui sem fluir,
Fruto do que vai e tarda em vir…
Poema outrora integrado num conto.
Lacunas de
Dedicatória,
Poesia
sábado, 21 de setembro de 2013
Passa quanto passa
Passa quanto passa,
E o que tem de passar,
Que o passo que lhe segue
O compasso de voltar,
Volta sem que o que persegue
Seja Passado e torne a passar.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
Conto os dias que abalam
Conto os dias que abalam,
Conto as teias que fiaram,
As tecelãs do cavalgar;
Que é montado no Tempo
Que infante menino crescendo
Se há-de do mundo olvidar.
Pois malha dada, malha perdida,
Fio cortado à despedida,
Que parco é o decorrer,
Onde Átropos é a ponte,
E o trilho, de nome Caronte,
É tão sempiterno perecer.
| A Golden Thread, John Melhuish Strudwick (1885) |
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Sempre que o Sol fugir, chama por ele
Sempre que o Sol fugir, chama por ele,
Chama até a garganta arder e ser cinzas,
No tom carvão de voz daquele
A quem roubaram o horizonte.
Chama e canta hoje que amanhã
A voz finou a nota do Sol
E engoliu o tom.
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Dá-me o Sonho do Mar
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Dá-me o sonho do mar,
Aquele que embalam as ondas;
Dá-me o desejo de ser e não ser
Sal e areia e concha e reter
O sentido do que é uno,
Escuma revolta do sereno fundo;
Dá-me o toque do desaguo,
E a ebulição do marulhar;
Que se não for para dar,
Donde sopra a sereia sua canção,
Do rochedo íngreme do marejar,
Serei tempestade e aluvião,
E roubarei para mim o mar.
Somos o Ar, somos o Sangue
Somos o ar, somos o sangue,
Somos o corpo exangue
Que quando te respira
Inspira-te da alma a ira.
Suor sem água, soro
Que te alimenta, ó morto,
Somos a carne minada,
Come o verme que come nada.
E não és carne nem corpo,
Não és cartilagem nem osso,
Sem semente, vagem vazia,
És a miragem de um dia.
És a miragem de um dia.
terça-feira, 23 de julho de 2013
As Rimas Roem a Corda
As rimas roem a corda,
Roem por roer o ruminar do fio,
Roedores de luz e de pavio,
Roem, engolem a cera d'outrora.
Restolha a noite, falta a luz,
Falta de cerne sem ser cerzido,
Falta do guia em vela vestido;
Vou, que já não me conduz.
Roeu, roeu, a rima comeu
O sinal do sim, não, talvez não,
Não!, talvez seja um senão
Que se perdeu, quiçá não sou eu.
sábado, 6 de julho de 2013
Rompem-se os fios
Rompem-se os fios que lhes prendem
Pulsos partidos por coser,
Rompem-se e desaguam do céu,
Rio de pedra a pedra, dilúvio d’escorrer.
Unem, ferem, fendem-se d’ablação
De ser unido e não ser,
Que é a fúria que as leva contidas
E apartadas no chover.
Pois caem donde o fogo caiu,
Queimam d’álgido o que é viver,
E degolam, degolam todo o tudo,
Tomam de si o perecer.
E fluem.
26 - Fúria
quarta-feira, 26 de junho de 2013
Dama, Senhora e Sol de Verão
Espiga e espraia a alma quente,
Madura é a fruta a colher,
Se é sopro morno é corrente
Que vaga em escuma de seu ser.
Arde no abraço e o que é olhar
Olvida o tempo, fértil de coração,
No ciclo colhe sempre o semear,
É Dama, Senhora e Sol de Verão.
Dedicado à Tiana,
com um beijinho da Vuo
Lacunas de
Dedicatória,
Poesia
domingo, 16 de junho de 2013
O Sonho Emparedado
A lâmina refulgia a cada corte, a cada trespasse, a cada impacto no Muro
do Inferno. A pedra contorcia-se, gritava com milhares de bocas e espumava lava
ardente dos golpes, como se fosse sangue. Os rostos incrustados no basalto que conseguiam
escapar às espadeiradas atiravam-lhe impropérios e revelavam-lhe o interior da
boca ígnea, de gengivas nuas.
Todos eles eram espíritos malignos, e aquela fora a sua sentença pós-morte:
viverem emparedados pelo crime de terem eles mesmo emparedado fosse o que fosse,
desde um humano do qual desejavam vingança, aos sonhos de uma criança. E ali
fora emparedado um dos seus sonhos, junto com o criminoso. Mas que sonho era?
Ele não fazia ideia, pois ao perdê-lo perdera também a recordação do mesmo.
Com um golpe brusco, a espada rasgou uma das faces que se desfez em pó. Onde
estava a do ser criminoso? Como reconhecê-lo entre todos aqueles infinitos
rostos gémeos de pecado?
De súbito, o coração de Amadis entrou em fibrilação, ameaçando saltar-lhe
do peito. Um olhar vazio cruzara-se com o seu e, sem conseguir evitar, mergulhou
nele de cabeça.
Caiu sob um céu cinzento, sem ter onde se agarrar, até os pés tocarem no
chão. Aterrou com um movimento felino e ergueu uma cabeça. À sua frente, uma
silhueta feminina caminhava ao longo de uma estrada que não tinha fim, num
passo decidido. Mas afastava-se, cada vez mais e mais, de costas voltadas para
si.
Obrigou-se a afastar a visão e rosnou de fúria ao investir contra o
espírito. A espada enterrou-se na fronte do rosto demoníaco que o fitou,
boquiaberto. E o sonho inundou-o, a recordação dela, do seu sorriso, dos
seus resmoneios, enquanto alma se
desvanecia.
Onde estaria Aline?
25 - Lâmina de Sangue
Lacunas de
Conto,
Dedicatória
segunda-feira, 10 de junho de 2013
Proíba-se o não de negação
Proíba-se o não de negação,
Aquele que corta o passo já coxo,
Rouba do optimismo o coração,
E remete a Esperança à cirurgia.
sábado, 18 de maio de 2013
A Semente de Prata - Parte II
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| Silver Leaf, by Latyrx |
Divyn vagueou
pelo bosque, olhando por ente os ramos, enquanto escutava o peculiar tilintar
das folhas quando o vento as agitava. Lembrava a voz das fadas, enquanto
cantavam aos elementos.
“Escolhe uma
árvore” disse Urië, sem aviso, apertando-lhe um pouco mais a mão.
– Porquê? – A
elfo piscou os olhos.
“Por favor,
simplesmente escolhe” pediu ele, esboçando um sorriso enigmático.
Apesar de não
fazer ideia da razão do pedido, Divyn acedeu. Fechou os olhos e caminhou sem
destino certo, deixando-se guiar pelo sexto sentido. Tropeçou numa raiz mais
saliente e só não caiu porque Urië a apoiou. Mas, por fim, a mão acabou por
tocar num dos troncos.
– Esta –
sussurrou, abrindo os olhos para contemplar a sua escolhida. Linhas de prata corriam a casca , esguias, perdendo-se nos labirintos da árvore.
O seu príncipe
fez um aceno e esticou as mãos para um ramo mais baixo. Colheu uma pequena semente, que lembrava uma ervilha prateada e observou-a com atenção, antes de pegar na mão da elfo e depositar nela a semente. A seguir fechou-lhe os dedos.
“Uma
recordação, pelo teu aniversário. O sítio onde a plantares terá de ser
escolhido pelo teu coração, e só por ele” recomendou, prendendo o olhar no
dela. “Não te assustes quando ela desabrochar”.
Franziu as
sobrancelhas.
– Porque me
haveria de assustar? – quis saber, muito intrigada.
“A semente
drena a terra de forma ávida, para conseguir despontar. Mas depois verás”
garantiu.
Divyn remoeu-se de curiosidade e Urië sorriu ao sentir o que
borbulhava na alma da namorada. Ofereceu-lhe um beijo de consolo, para depois a levar para casa.
Os lábios só
se apartaram definitivamente quando ele abandonou o quarto dela, ao despontar
do Sol.
Quando
acordou, já perto da hora de almoço, Divyn procurou a caixinha de madeira
dentro da qual guardara a semente. Ponderou por um pouco, antes de descer até
ao jardim, onde andou às voltas, de regador na mão, até acabar por escolher um
canteiro de pequenas flores azuis. Ajoelhou-se na terra ainda húmida e escavou um buraco com as próprias mãos,
sujando as unhas de terra, até achar que já podia enterrar a semente. Ficou a mirar o lugar por um
bocado, como se a árvore pudesse crescer de um segundo para o outro, mas acabou por perceber o quão tonto isso era. Abanou a cabeça e afastou-se.
No dia
seguinte um burburinho matutino acordou-a. Esfregou os olhos e soltou um bocejo
longo, antes de ir até à varanda, ainda descalça. Piscou os olhos. Os três
jardineiros discutiam de forma acesa, à beira do canteiro onde plantara a sua
semente de prata, e não foi difícil descobrir porquê: todas as pequenas flores
azuis tinham definhado e morrido.
Levou as mãos
à boca, chocada, lembrando-se de imediato do que Urië lhe dissera. Não o compreendera no momento, mas agora era por demais óbvio. Mas o que poderia fazer?
Os dias
passaram sem que a árvore despontasse, o mesmo acontecendo em seu redor, num raio de dois
metros. Todos os dias a elfo regava-a um pouco, frustrada. Ainda tentou inquirir Urië a respeito disso, no entanto ele pediu-lhe apenas mais paciência.
Quase um mês
depois, numa noite de Lua Cheia, Divyn escutou um tilintar abafado, vindo do
exterior. Não o reconheceu logo, mas quando foi espreitar à vidraça, o brilho
das folhas de prata, sob o luar, apanharam-na desprevenida. A árvore despontara, ultrapassara-a em altura, e estava repleta de flores de pétalas quebradiças. Sentando junto à
base da árvore, Urië fez-lhe um aceno com a mão, chamando-a para admirar mais de perto o seu presente de aniversário.
Uma semana
depois, para surpresa sua, e dos jardineiros, o canteiro de flores azuis floresceu mais viçoso do que nunca, quando
a árvore devolveu os recursos que tomara emprestados.
Nota:
Divyn ©
Morgana Du Lac (Ana Santo)
Urië © me
Ambas as
personagens pertencem ao RPG "Terra Negra"
Lacunas de
Conto,
Dedicatória
A Semente de Prata - Parte I
O Sol
escondia-se no horizonte, frente a frente consigo. A visão do pôr-do-sol era
igualmente bela e melancólica, e enchia o espírito de suspiros contidos.
Sentada no
jardim do palácio, Divyn aguardava o seu cavaleiro andante. Lançou um olhar ao
bosque. Urië chegava sempre por entre as árvores, vindo de um algures que ela
ainda não descobrira onde era, apesar de já ter vagueado por ali, em busca de
um portal, uma passagem secreta, um túnel… qualquer coisa. Soltou um dos suspiros
que o pôr-do-sol fomentara.
Quando do
astro rei sobrava somente aquele clarão alaranjado que tinge os céus, a jovem
elfo ergueu-se e sacudiu as calças. Talvez ele não pudesse vir, talvez não
soubesse sequer que dia era aquele. Regressou então para o interior do palácio,
onde a família a esperava para uma pequena festa simbólica. Quando os abraços,
os beijos e as felicitações terminaram, Divyn subiu para o quarto, de coração
pesado. Ele não viera mesmo.
Sentou-se à
beira da cama, mirando as vidraças fechadas através das quais as estrelas a
espreitavam, cintilando segredos. Elas sabiam qualquer coisa, percebia-o no seu
tremeluzir.
A elfo
resmungava para si, quando um relinchar, vindo lá de fora, lhe chamou a
atenção. Ergueu-se de um salto e por um triz não se estatelou, quando o pé
ficou preso no tapete, ao correr para a varanda. Por vezes conseguia ser tão
desastrada quanto a mãe.
Abriu as
vidraças de par em par e debruçou-se no parapeito. Lá em baixo, um bonito
equídeo de pêlo de prata aguardava-a, expectante. O chifre incrustado na fronte
era da cor do marfim ao luar. O unicórnio dobrou ligeiramente uma das patas da
frente e fez-lhe uma vénia respeitosa.
– Estás
atrasado, meu príncipe – notou a jovem. No entanto, a sua má disposição fora
substituída por um bonito sorriso.
“Alguns
contratempos detiveram-me, bela donzela”. A voz dele ecoou-lhe na mente, suave
e contudo firme, revelando uma força que o seu aspecto delicado escondia.
“Posso pedir-te para que desças? Se não puderes, não irei insistir. Deves estar
cansada e a preparares-te para dormir…”
Uma risada
fresca escapou-se-lhe por entre os lábios rosados.
– Tolo! Vou já
descer, não te preocupes – garantiu, já a voltar costas e a correr de regresso
ao quarto. Pegou só num xaile leve que pôs sobre as costas e desceu. Ele já a
esperava junto à entrada do jardim, quando ela passou a porta e se lançou para
ele, abraçando-o pelo pescoço esguio. Acariciou-lhe a crina que parecia seda e
beijou-lhe o pêlo entre os olhos azuis.
Ele recuou um
passo, quando Divyn o largou, e baixou-se um pouco de forma a que a jovem
pudesse trepar-lhe para a garupa.
“Sobe”,
incentivou.
Deixou-se
levar por entre o bosque, até junto de uma velha árvore de tronco encarquilhado
e ramos nus. Pousado nela, um mocho anão observava-os, sem medo. Inclinou um
pouco a cabeça.
Quando o
unicórnio se voltou a baixar, ela desmontou.
– É a partir
daqui que vais para o teu mundo? – perguntou a elfo, curiosa.
"Contigo
sim" disse, aproximando-se da árvore. Depois de a examinar, inclinou a
cabeça, até o corno tocar num nó específico.
Sem aviso, a
madeira gemeu. A casca do tronco estalou, e os ramos debruçaram-se sobre eles, como
terríveis garras de bruxa, que se enterraram na terra. Estavam encurralados.
Divyn chegou-se
mais para ele, assustada. Lembravam duas aves engaioladas.
– Urië –
sussurrou, quando os ramos começaram a reluzir no mesmo tom que o luar.
“É melhor fechares
os olhos” recomendou. “Há quem não goste de assistir à passagem”.
Abanou a
cabeça. Não. Ela queria ver até o mais pequeno pormenor, absorver tudo e
compreender.
A noite
começou a diluir-se, como se fosse uma imagem reflectida num espelho de água.
Por um momento, as estrelas desapareceram, as árvores desvaneceram-se, os sons
apagaram-se. Susteve a respiração, quando o solo lhe raspou nas solas dos
sapatos, mutando a sua consistência.
Aos poucos, um
perfume fresco serpenteou em seu redor, como um feitiço, enquanto o cantar de
água corrente a alcançava. Os ramos retorcidos quebraram-se com o som do pio de
um rouxinol e desfizeram-se em partículas tão pequenas que logo as deixou de
conseguir ver. E a atenção focou-se no novo céu.
Ali também era
noite cerrada. Apesar de as estrelas cintilarem da mesma forma, as constelações
eram outras e o ambiente parecia estranhamente leve, o ar mais puro. Inspirou
fundo.
O toque suave
de uma mão de encontro à sua fê-la baixar o olhar. Constatou de imediato que já
não estavam num bosque, mas sim no topo de uma colina. Lá em baixo, pequenos
cursos de água corriam para destino incerto, rumorejando entre si numa língua
líquida. Muitos pontos brilhantes esvoaçavam um pouco acima das águas e entre a
relva, como se metade das estrelas do céu tivesse caído. E ao longe, para
completar a paisagem digna de ser gravada em tela, erguia-se um belo palácio de
cristal, cujos minaretes reflectiam o luar.
– É tão lindo –
murmurou, quase não conseguindo acreditar. – Trouxeste-me ao paraíso?
Desviou o
olhar para o homem, e não o unicórnio, que estava agora ao seu lado. Uma
estranha beleza reflectia-se do seu cabelo cor de luar; da pele sem rugas, como
que esculpida em mármore; dos olhos cinzentos em forma de amêndoa e
sobrancelhas finas. Parecia um anjo a quem tinham roubado as asas. Sentia-se
pequena ao lado dele, e feia.
"Tola"
os pensamentos dele chegaram até si. Urië era mudo, e o esforço que fazia para
conseguir falar com ela daquela forma martirizava-o. Ele é que era o tolo!
"Hoje não
te vou levar ali" apontou o palácio. "Mas sim ali".
Fê-la dar meia
volta.
Se o espanto
fosse contagioso, tudo em seu redor teria ficado estupefacto. A colina fazia
parte da orla de um bosque de árvores baixas, todas elas da mesma espécie. Porém o mais notável eram as copas espessas, repletas de folhas de prata.
Nota:
Divyn © Morgana Du Lac (Ana Santo)
Urië © me
Ambas as personagens pertencem ao RPG "Terra Negra"
Lacunas de
Conto,
Dedicatória
segunda-feira, 29 de abril de 2013
O Urso e o Lobo
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| Magic Forest, by Andarin |
O Sol
escondia-se entre as copas das árvores, sombreando a floresta, contudo a caçada
ainda não terminara. O rosnar de um enorme urso pardo vibrou em redor e fez
Bahinil escrutinar a vegetação, enquanto os dedos se crispavam na longa lança.
Aquele animal já atacara três homens da tribo do seu cônjuge, ficando um deles
mortalmente ferido. Tinham que acabar com ele.
Avançou com
passos leves, saltando sobre as raízes que se contorciam fora da terra.
Procurou pegadas de urso, marcas de garras nos troncos, dejectos que
demarcassem a sua passagem, contudo a área estava limpa. Demasiado.
Resmungou para
si e baixou-se junto a uma marca. Tocou-lhe ao de leve com as pontas dos dedos
da mão livre, mas apercebeu-se logo de que não poderia ser a pegada de um urso,
apesar do tamanho.
Um leve restolhar
na vegetação fê-la abrir muito os olhos azuis, ao aperceber-se do erro que
cometera ao abstrair-se do resto da floresta por meros segundos.
Num balanço
súbito, varreu o ar com a ponta da lança, antes de encarar um enorme lobo de
pêlo e orbes castanhos, que mirou a arma por um instante, antes de a encarar.
– Pelos
deuses, Dracil – notou Bahinil, retomando a respiração. – Pregaste-me um susto.
Não sabias fazer um pouco mais de ruído?
O lobo abanou
a cabeça, sem tirar os olhos dela.
“Não devias
ter vindo. O teu lugar é na aldeia.”
– O tanas.
Estava preocupada contigo e com o nosso filho. Partiram da tribo ao raiar da
aurora e não voltaram até agora – acusou, baixando a lâmina.
“Porque ainda
não encontrámos o urso. Perdemos-lhe o rasto. E o teu cheiro, no meio disto,
não está a ajudar nada” comentou, erguendo o nariz e farejando o ar.
O esgar de
irritação dela pareceu não afectar o lobo gigante.
“Ele não está
longe. Volta para a tribo” enfatizou, antes de lhe virar a cauda, preparando-se
para voltar a entrar na floresta.
– Seu lobo
presunçoso de uma figa… – rosnou para si, apesar de saber que ele ouviria. –
Vais ficar um mês em abstine…
O resto das
palavras foram aniquiladas por um rosnar tremendo que quase lhe perfurou os
tímpanos. Acocorou-se a tempo de evitar uma patada de garras em riste, que
ainda lhe arrancou meia dúzia de cabelos.
Dracil
aproveitou o espaço livre acima da cabeça da mulher para se impulsionar contra
o urso, de mandíbulas já abertas. Os dentes afiados fincaram-se no antebraço
peludo do animal, arrancando-lhe um rosnar mais forte, onde foi impossível
distinguir a dor da raiva.
Bahinil
levantou-se depressa e afastou-se para uma distância segura onde pôde analisar
a cena. O lobo foi arremessado contra um tronco, deixando escapar um ganido de
dor, mas não tardou a recompor-se, a tempo de se esquivar de outra investida
impulsiva que arrancou pedaços de casca à árvore. Os olhos negros do urso
seguiram o movimento de Dracil, enquanto as narinas se dilatavam. Arreganhou os
dentes e investiu para o lobo, tentando abocanhar-lhe o pescoço.
“Foge daqui,
Bahinil!” urgiu ainda assim uma voz, dentro da cabeça dela.
– Não –
sussurrou em resposta, antes de cerrar os dentes e investir contra o urso.
A lâmina da
lança atingiu-o no flanco esquerdo, perfurando-lhe a pele espessa e a camada de
gordura. O urro que lhe arrancou infiltrou-se na alma e fê-la hesitar um
momento, o que foi o suficiente para que uma patada a atingisse num ombro e a
atirasse ao chão.
Ao vê-la por
terra, o rosnar do lobo subiu de tom e este atirou-se sobre o possante animal.
Ambos tombaram, no entanto os dentes afiados do predador afincaram-se na
garganta do urso, constringindo-lhe a traqueia com intenção de o sufocar. No
entanto o enorme animal não tinha intenções de se deixar matar.
Vindo de
longe, um uivo longo interpôs-se entre os rosnares do urso. No momento seguinte,
como se aquilo tivesse sido uma distracção, o lobo era novamente arremessado
pelo ar com toda a força. Uma das patas dianteiras fora ferida pelas garras da
besta, no desespero de se libertar das mandíbulas do lobo.
O urso ofegou,
depois de se erguer sobre as quatro patas, com a lança ainda ferrada no corpo.
Enquanto o fazia, estudou qual o melhor alvo a atacar, e a escolhida foi Bahinil,
cujo cabelo branco já se manchara de vermelho.
Com um ronco
de ameaça, o animal deu um passo para a presa, que não tardara a desembainhar a
adaga presa à bota de couro. Apontou-lha, enquanto recuava um passo lento.
Lançou uma mirada a Dracil, pelos cantos olhos. Atordoado, ele ainda se
recompunha da queda.
Inspirou fundo
e recuou um novo passo, antes de se precipitar por entre as árvores numa
corrida desenfreada. O urso não tardou um segundo a partir no seu encalço,
quebrando arbustos e ramos mais baixos à passagem da sua forma corpulenta.
– Anda,
segue-me – sussurrou Bahinil, por entre os dentes.
No entanto,
mal o disse, ele parou de a perseguir, desviando a sua rota e desaparecendo
entre a vegetação.
– Filho da mãe
– sussurrou depois de parar, ofegante.
A escuridão que
caíra demasiado depressa tomava conta das sombras como uma mãe, encobrindo
nelas o grande animal.
Usou aquele
momento para recuperar o fôlego e pensar. O urso parecia ser mais inteligente do
que aquilo que era normal, não podia precipitar-se. Apurou então os ouvidos.
Conseguia escutar um restolhar à distância, talvez fruto da lança que o animal
trazia presa em si. Quando deixasse de a ouvir, era sinal de que ele parara e
esperava que fosse a presa a alcançá-lo, como acontecera momentos atrás. Como
previra, não tardou a que fosse só o ruído da noite a sussurrar mais alto.
Trocou a adaga
de mão e pegou num pau comprido. Raspou-lhe uma das extremidade para improvisar
outra lança e partiu em busca do predador, com mais cautela do que antes, atenta
a qualquer roçagar ou a um respirar mais ruidoso. Para além disso, fez por
ignorar o ardor na nuca.
Após algum
tempo, escutou um ruído furtivo atrás de si. Fingiu ignorá-lo e continuou em
frente, esperando dar confiança suficiente à besta para se aproximar um pouco mais.
“Estou perto,
o Cedric está à tua frente” sussurrou a voz de Dracil, como se houvesse a
possibilidade de lhes ouvirem os pensamentos. “Continua a avançar.”
Bahinil engoliu
em seco, expectante, e fê-lo, até não poder ignorar mais e olhar para trás. A
primeira coisa que descortinou entre a vegetação foi o brilho dos orbes negros,
e só depois o corpo que se camuflava com o anoitecer. Quando o urso percebeu
que ela dera pela sua presença, rosnou e lançou-se sobre ela.
“Baixa-te,
Mãe!”
O grito
estremeceu-lhe a cabeça, já de si meia atordoada. Hesitou um instante, antes de
se acocorar. Outro lobo, um pouco menos corpulento que o primeiro, lançou-se
sobre o urso com toda a força, tombando-o. O chão estremeceu sob os pés de
Bahinil, com o impacto.
Não tardou a
que o pai se juntasse ao filho, de dentes arreganhados, e juntos combateram o
enorme urso. O lobo mais pequeno conseguiu recuperar a lança e devolveu-a a
Bahinil enquanto Dracil ocupava o urso com ataques esquivos que não eram de
todo mortais mas também não o deixavam fugir. O seu plano era exauri-lo, até se
tornar numa presa fácil.
Quando o
inimigo estava já mais lento, Bahinil sopesou a lança na mão e atentou os
movimentos incessantes do enorme animal. Respirou fundo antes de dar balançou
ao braço, fazer pontaria, e arremessar a arma. A lança cortou o ar e cravou-se
no peito do urso. Não estava certa de que lhe tivesse acertado no coração,
contudo após mais alguns segundos o enorme animal tombou e não se voltou a
erguer. O lobo mais pequeno estava para lhe abocanhar o pescoço quando, de
súbito, toda a enorme forma refulgiu, iluminando a noite com um azul espectral,
antes de rebentar em múltiplos flocos de luz.
Dracil ergueu
o nariz e voltou a farejar o ar. Uma dessas partículas que lembrava um
pirilampo tocou-lhe no nariz e, acto feito, rebentou em partículas ainda mais
pequenas, que se extinguiram pouco depois, deixando-os na penumbra. Do corpo do
urso pardo não havia sinal.
– O que foi
isto? – murmurou Bahinil, estupefacta.
Enquanto isso,
o corpo dos dois lobos sofrera uma metamorfose abrupta, até retomarem à forma
humana.
– Bruxaria, ou
um monte de espíritos da floresta que decidiu divertir-se à nossa conta. Estou
inclinado para a última hipótese – retorquiu Dracil, de mau humor. Era um homem
alto, de porte intimidante para os homens e apelativo às mulheres. – E tu
arriscaste-te demasiado. Cheiras a sangue…
– Foi só uma
cabeçada – notou Bahinil, levando uma mão à nuca. – E tu, que tens o braço todo
estraçalhado?
– São só uns
arranhões, exagerada – defendeu-se, flectindo o braço ferido e contendo um
gemido de dor, para não dar parte de fraco.
Enquanto discutiam,
o filho aproximou-se deles e passou os braços sobre os ombros de ambos.
– Vá, não
discutam, que estou faminto. Vamos antes voltar para a aldeia. Estou mortinho
por provar o bolo que a mãe fez para o teu aniversário.
Dracil piscou
os olhos e mirou a esposa, muito espantado.
– Fizeste um
bolo para mim?
– Não – fungou
Bahinil, indo recuperar a lança. – E, já agora, vais dormir na rua.
Cedric deu uma
risada animada, enquanto olhava o pai, de soslaio, esperando uma reacção. E teve-a.
Dracil
alcançou-a com passadas largas, agarrou-lhe o rosto sem aviso, e roubou-lhe um
beijo. Antes que Bahinil pudesse barafustar, pegou nela e lançou-a sobre um
ombro.
– Vá, vamos lá
comer esse bolo – disse, dando-lhe uma palmada no traseiro.
Bahinil corou
que nem um tomate e deu-lhe uma palmada nas costas, enquanto esperneava.
– Põe-me no
chão, rafeiro! Vou arrancar-te os lábios à dentada!
Dracil soltou uma
gargalhada mais descontraída. Adorava deixá-la fora de si.
Nota:
Cedric & Dracil © Morganadu Lac (Ana Santo)
Bahinil © me
Ambas as
personagens pertencem ao RPG "Terra
Negra".
Lacunas de
Conto,
Dedicatória
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Da Cecile, com Amor...
“Lá fora, a noite caía
tempestuosa. A chuva fustigava as altas janelas e os belos vitrais feitos em
honra do rei e da rainha do Submundo abanavam sob o impacto do vento. Jihm
soltou um suspiro cansado e passou uma mão pelos olhos que teimavam em
fechar-se, como se as pálpebras pesassem uma tonelada. Já era tarde, e a sua
família esperava-o. Nenhum deles previra que se demorasse muito mais que o
normal, no seu próprio dia de aniversário. Mas trabalho era trabalho.
Passou a penugem da pena pelo
queixo, enquanto observava o inventário de livros que a bibliotecária mestre o
deixara a preencher. Não podia sair dali enquanto não o terminasse. Contudo,
ainda faltavam tantas páginas! Soltou um gemido angustiado que fez a chama da
candeia estremecer em solidariedade para com ele. Por fim, voltou a pegar nos
pergaminhos e levantou-se da cadeira estofada e demasiado confortável, para ir
passar revista aos livros.
A lareira de fogo mágico
crepitava, lançando vagas de calor que muitos leitores nocturnos apreciavam,
principalmente em dias como aquele. Além disso, já ouvira rumores de que alguns
dos príncipes gostavam daquele espaço para dar asas a outros divertimentos.
Felizmente nunca testemunhara mais do que olhares comprometidos, e um ou outro
beijo.
Quando alcançou o lado norte da
biblioteca real, levantou o braço e iluminou uma prateleira ao nível do seu
peito, onde repousavam três dos quatro exemplares que ele próprio escrevera.
Sorriu com um orgulho de pai e passou revista à restante estante.
As luzes oscilavam, criando
sombras que o perseguiam ao longo dos corredores formados pelas gigantescas
estantes. Rastejavam ao longo do chão, envolvendo-se com a própria silhueta do
bibliotecário, e tentavam saltar-lhe em cima a partir das prateleiras mais
altas. Num instante súbito quase todas se extinguiram, quando um descomunal relâmpado
iluminou a biblioteca. Jihm estremeceu e desviou o olhar para as janelas, a
tempo de ver um vulto cortar a luz, antes de desaparecer com o extinguir da
luz. O ribombar do trovão não se fez esperar, parecendo fazer oscilar os
alicerces do palácio.
– Pelos deuses – sussurrou, recuando um passo.
– O que foi aquilo?
“Aquilo?”
A pergunta ecoou em redor, por
mais tempo do que o suposto, impedindo-se de ser absorvida pelos livros. A voz
que a pronunciara era suave, quase melíflua, e, ao mesmo tempo, terrivelmente
assustadora. Os cabelos da nuca do rapaz eriçaram-se, mas foi só quando o fogo
mágico da lareira se apagou que Jihm percebeu que deveria ter fugido antes,
pois agora já não teria tempo.
De um só ímpeto, a escuridão
encurralou-o dentro de um pequeno círculo. A sua protecção era apenas concedida
pela chama que tremeluzia dentro da candeia, por isso ergueu-a acima da cabeça,
tentando aumentar o raio que o separava da negrura. Contudo, a sua posição
tinha um ponto fraco do qual o seu atacante se aproveitou.
Usando a zona de sombra no topo
da candeia, um tentáculo de escuridão serpenteou esquivamente até à sua mão. O
toque veio com a dor fina de uma picada, que o fez soltar a candeia.
O estilhaçar não se equiparou ao
barulho do trovão, contudo foi como se o seu coração parasse de bater. A chama
durou apenas um instante de segundo, antes de as sombras se abaterem sobre
Jihm, tragando-o.”
Piscou os olhos e levantou o
olhar para a namorada, que o mirava com uma expectativa de criança perante uma
suposta obra-prima. O cabelo cor de fogo e as sardas que lhe pintalgavam as
bochechas realçavam-se sob a luz das velas, e os olhos verdes brilhavam.
– Acaba assim?
– É só o princípio. Para o ano
dou-te mais um bocadinho da história. Quando tiveres aí uns 300 anos terás o
fim – disse ela, com um sorriso amplo. – Mas não vais morrer, é tudo o que te
posso adiantar.
Jihm não conseguiu evitar rir-se.
Pousou as páginas escritas numa letra gorducha e certinha, mostrando o quão
ponderadas tinham sido as palavras. E, pela falta de erros ortográficos ou texto
riscado, ele supunha que Cecile escrevera e revira enésimas vezes aquele
pequeno pedaço de história.
– A partir de agora, vou esperar
ansiosamente pelo meu aniversário, só para saber as tortuosidades que me vais
fazer – notou, esticando uma mão para o rosto macio dela. – Obrigado, meu amor.
Cecile corou um pouco e chegou-se
mais para ele, roubando-lhe um beijo terno.
– Parabéns, meu escritor –
sussurrou, deixando o nariz roçar-se no dele.
![]() |
| Lantern 02, by Snowfake |
Nota:
Jihm © Morgana du Lac (Ana Santo)
Cecile © me
Ambas as personagens pertencem ao RPG "Terra Negra".
Lacunas de
Conto,
Dedicatória
domingo, 31 de março de 2013
É Conceito de Voz Poente
![]() |
| Sunrise by the Ocean, by Vladimir Kush |
É conceito de voz
poente
O explicado que ecoa
Sob as lascas,
senciente
Invólucro, casca em
proa.
Quebra o olho, quem é
Vidro em vinho que
bebe,
E rasga a definição
de pé
Que oscila, tão imberbe.
Não consta o grito
sineiro
Que foi e deitou-se
para não ser
Quanto do sentido de
permeio,
Perdido o caudal de
saber.
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