quinta-feira, 20 de março de 2014

Sê Ínfimo e o Infinito Tal



Sê ínfimo e o infinito tal,
Filho dos meandros e dos pequenos
Que são eternos do que é menos
E restos d'infinitesimal.

domingo, 16 de março de 2014

Metamorfose

Spring Delight, Vladimir Kush 

Observei-a um último instante. Ela estava viva. O seu riso tímido brotava a cada brisa solta que a tomava nos braços, a cada doce ave que lhe pousava nos ramos frágeis, a cada despontar ligeiro que espreitava o mundo. Eram rebentos de si, seiva da sua seiva, vida da sua vida, um multiplicar frágil com que beijava o ar e tentava alcançar o céu. Com um abraçar ao mundo, interrompera a nudez do seu ciclo e dançava nos novos tons.

Num derradeiro sorriso de despedida, dei vontade à metamorfose e fluí entre partículas, absorvido pela terra. Alimento seu, parte dela.

Cem Palavras: desafio de escrita criativa (Primavera)

sábado, 8 de março de 2014

Hoje há quem tenha o Amanhã


Hoje há quem espreite tímido
Por entre as gotas da chuva ida,
Há quem se esconda ao sol
Que de intenso olvida,
Há quem flutue, fátuo,
Na nuvem que navega o céu,
Há quem seja fumo no nevoeiro,
E indistinto no seu véu.
Hoje há quem tenha o Amanhã
Mas seja o que o Ontem viveu.


Na Dušičky, Jakob Schikaneder (1888)



domingo, 16 de fevereiro de 2014

São não ditos



O que eram, o que são,
Os ditos que vão,
Os que eram por ser,
Sem sentido,
Os que juraram morrer
Contigo?
São ditos por dizer,
São não ditos.


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Ouve o sonho que sussurra


Ouve o sonho que sussurra
Aos ouvidos da madrugada;
Escuta e estranha moldura
De som que te enquadra,
Dedos alvos d'alvorada,
Suspiro doce d'aurora
Que ansiosa te aguarda.


Roman Campagna, Thomas Cole (1843)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Sentai-vos e Escutai o Bardo



Sentai-vos e escutai o bardo.
Na sua voz fala a Lenda,
No seu tom canta o Mito.
Distante, tão longe e perto a verdade,
Que em pensamento hesito.
Encanta a palavra, o verso, a rima,
Encanta tão longe que acredito.


O Espadachim



Só porque sim,
Porque o “era” deixou de ser.
Trespassado a pena, o espadachim,
Tomado em braços sem os ter
Tombou nos braços de mim,
Letra fria, caligrafia negra d’escrever,
Tinta em sangue, tão carmim.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Aroma a Amora (acróstico)


Ainda o Sol passeia;
Respira o toque do seu doirar.
Ontem eras cor de floresta que anseia
Mil tons do que encandeia
A essência do maturar.

Amadurece.

Amanhã tuas bagas serão
Murmúrio de negra veste,
Olvido do sangue que ungiu coração.
Retorna ao toque de ser silvestre,
Aroma doce, que és Verão.


Amoras Silvestres, foto de Carina Portugal


















28 - Amora

sábado, 25 de janeiro de 2014

Volta quando Voltares

Girl Standing at the window, Salvador Dali (1925)
Volta quando voltares,
Que no regresso se esvai
Saudade densa que é nuvem
Plúmbea e chuva que cai.

Não permitas que se atrase
Ou seja perda que se desfez
O espírito que tomou caminho
Um passo de cada vez.

Que te espera o que ficou,
Mutável porém de essência sua,
Só, na unidade que faz a multidão,
Só e de alma nua.

Espera-te na cadeira do Tempo,
Mãos no regaço, de olhar além.
Apega-se ao triste tom grisalho,
Quiçá à espera de ninguém.


27 - Reencontro

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Rio que é sem ser



É aquele que não existe,
O que corre sem se ver,
Linha d'água que chora triste,
Por onde escorre o falecer,

É o que não é morte ou vida,
E de cujo leito transborda saber,
Dizem-no Tempo, aragem que suspira,
Fantasma e rio que é sem ser.


©Stephanie Pui-Mun Law, 2013

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

As aves são olhos intrépidos



As aves são olhos intrépidos,
Vales e montes trejeitos,
O sopro do vento é voz de sussurro,
Grito mudo, eterno uivo.

A chuva, timbrada em lágrima,
Embebe os lábios da terra,
Sorvida a lembrança distante
Dos confins do mar,
Donde se perde o mundo
Que nele é fonte e desaguar.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A Verdade Mente



A Verdade mente.
É entidade que constrange,
Distopia morta senciente
Que caminha sem pés.


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Senta-te à Beira-rio

Senta-te à beira-rio.
Atenta o barco que ali vai
Corrente a baixo, que se esvai
Entre os cabelos do estio.

Entrança seus rumos.
Sê guia do destino, feiticeira,
Sê aquela que é ao olhar sereia,
E ao escutar sussurros.

Toca o Sol ao pôr.
Emprestado toma-lhe então
Luz, aconchego e coração,
Que seu cerne é flama e ardor.

Lança-os ao vento,
Áureo nómada, mensageiro.
Envia-o ao teu marinheiro
Que ao céu reserva-se atento.

Sob o seu toque e beijo será viva
A recordação deixada ao largo,
A doce donzela que de encargo
Vela o regresso à partida.


An Evening in Arcadia - Thomas Cole (1843)


domingo, 22 de setembro de 2013

Mão na mão


Mão na mão,
Alma e sangue no coração,
Conquanto o que vai e volta,
Conquanto o peito que se revolta.

Leve o pesar, peso com sentido a vida
E aguardo, que a guardo sentida,
Fruto do tempo que flui sem fluir,
Fruto do que vai e tarda em vir…


Poema outrora integrado num conto.

sábado, 21 de setembro de 2013

Passa quanto passa


Passa quanto passa,
E o que tem de passar,
Que o passo que lhe segue
O compasso de voltar,
Volta sem que o que persegue
Seja Passado e torne a passar.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Conto os dias que abalam


Conto os dias que abalam,
Conto as teias que fiaram,
As tecelãs do cavalgar;
Que é montado no Tempo
Que infante menino crescendo
Se há-de do mundo olvidar.

Pois malha dada, malha perdida,
Fio cortado à despedida,
Que parco é o decorrer,
Onde Átropos é a ponte,
E o trilho, de nome Caronte,
É tão sempiterno perecer.


A Golden Thread, John Melhuish Strudwick (1885)

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Sempre que o Sol fugir, chama por ele


Sempre que o Sol fugir, chama por ele,
Chama até a garganta arder e ser cinzas,
No tom carvão de voz daquele
A quem roubaram o horizonte.

Chama e canta hoje que amanhã
A voz finou a nota do Sol
E engoliu o tom.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Dá-me o Sonho do Mar





Dá-me o sonho do mar,
Aquele que embalam as ondas;
Dá-me o desejo de ser e não ser
Sal e areia e concha e reter
O sentido do que é uno,
Escuma revolta do sereno fundo;
Dá-me o toque do desaguo,
E a ebulição do marulhar;
Que se não for para dar,
Donde sopra a sereia sua canção,
Do rochedo íngreme do marejar,
Serei tempestade e aluvião,
E roubarei para mim o mar.

Somos o Ar, somos o Sangue


Somos o ar, somos o sangue,
Somos o corpo exangue
Que quando te respira
Inspira-te da alma a ira.

Suor sem água, soro
Que te alimenta, ó morto,
Somos a carne minada,
Come o verme que come nada.

E não és carne nem corpo,
Não és cartilagem nem osso,
Sem semente, vagem vazia,
És a miragem de um dia.