domingo, 7 de setembro de 2014

Ledo o sorriso que é Sol


Ledo o sorriso que é Sol,
Sob a sombra que o quer cegar,
Ledo o gesto que é flor
Ao vento agreste, tempestade,
Cujo intento é arrancar
Raiz, florir, sua vontade.

Ledo o toque que é sonho,
Sob o lento decair do Tempo,
Leda a palavra que aconchega
Ante a censura que a rasga,
Tão cruel, que é tormento,
E contudo não se apaga.

Leda a lágrima que é mar,
Sob as vagas do Mundo,
Leda porque é d'alento e mágoa,
Fruto que a vida deu,
Reflexo do que é fecundo
E do que faleceu.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Hoje, embala-me em ti


Hoje, embala-me em ti,
Gota de espírito de Verão.
Toma-me que sou Outono,
Melancolia e brisa extinta,
De folhas dispersas no chão.

Larva de sentimento que escava,
O que era contorce-se no coração,
Aprofunda e busca por nada,
Que nada é o que ficou,
Só aquele sentir, que é tão vão.

Abraça, canta e bane-a.
A dor que repica e ecoa é no mar
Escuma de lágrima e areia
Que em tempestade serena aguarda
Tua doce maré e teu embalar.

Sê berço do Presente, aconchego,
Meu, só meu, vasto mar.
Que nos teus braços adormeço,
Mergulho em ti e és sonho
De não mais acordar.


A Wooded Path in Autumn H. A. Brendekilde (1902) 


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Senta-te e aproxima-te do pensamento


Senta-te e aproxima-te do pensamento.
Observa-o ao largo, sem idade.
É tão demente que é são,
Alma tricotada a piedade,
E terrível besta sem coração.

Identifica-lo. Passo ante passo,
Cautela se é verdade que muta,
Conquanto indefinido. Olhar baço
De quem está e não está, permuta,
É brisa doce e suspiro de aço.

Então perde-te, na orla de floresta negra,
Onde o sopro tem perfume a maresia,
As folhas são de cor mil, oceano,
E o céu, teu, tão teu, é magia,
Mundo além, mundo arcano.

Imiscui-te. Idílico, vagueias
Onde o Nada, se labirinto, é escudo,
Compreensão de lâmina cega, espadachim,
Canto de quem tem o tom mudo,
Finito – quão finito? –, que não lhe vês fim.

Subsiste o complexo de raiz profunda,
Com e sem tronco, ignoto ao olhar.
Não o nomeies, é selvagem, etéreo, desnudo,
Do qual o grito, eterno rumorejar,
É o resto, e tão somente Tudo…

Faz do pensamento teu Lar.


quinta-feira, 10 de julho de 2014

Avizinha-te do pôr-do-sol


Avizinha-te do pôr-do-sol
E estende-lhe a mão.
Toca-lhe no raiar que se esvai,
Calor terno e sensação
De despedida ao partir.

Toca-lhe e pede
Para que não tarde em vir
No voo alto da aurora,
Ao escutar baixinho, só para si,
O bocejo da noite.


Golden Light of California, Albert Bierstadt

quarta-feira, 9 de julho de 2014

"Silêncio" sussurra o Vento



"Silêncio" sussurra o Vento,
No segundo em que tudo é ruído,
Tudo é denso e desatento.

Escuta-o a flauta que é seu soprar,
Escuta-o, que do silêncio
Nada mais irás escutar.

Não queiras Voar



Não queiras voar,
Que do voo vão é fogueira
Feita com penas de ar,
E insuflada a que se abeira,
De asas abertas, da ladeira,
Sem destino a rumar.


sábado, 5 de julho de 2014

Ladrão do Céu

Dark Phoenix
©Stephanie Pui-Mun Law, 2009




Estrelas…
Embalsama quantas houver no céu.
Esconde-as, é colheita do para-além,
Frutos vivos. Roubados são os espíritos,
Tão teus e de ninguém.

Que ninguém sabe que roubaste,
Segredo tão segredo, ao olhar
Cintilam alto no seu véu,
Espelho de jóia, é teu guardar,
Corvo eterno, ladrão do céu.

domingo, 15 de junho de 2014

Há Flores que Caminham



Há flores que caminham.
Sensíveis são os dedos de pétalas,
De ouro o cabelo, corola-de-rainha,
O busto de verde vestido é elegância,
As folhas asas do que se adivinha,
E as raízes pés descalços e substância
Que aviva, ávidas de dança, bailarinas,
Pares do áureo sopro que é Vento,
Vontade de ser semente e rebento
Lançado ao mais além, voo incerto,
Do que é viver.


quinta-feira, 12 de junho de 2014

Há quem não sonhe



Há quem não sonhe,
Só, nos braços de alguém,
Consciente da consciência que tem
O não ter utópico do mundo
Que viaja ao ser profundo,
Confim de paisagem distante
E tesouro de um sorriso privado.


sexta-feira, 6 de junho de 2014

Gota a gota, há chuva


Gota a gota, há chuva,
Corpo feito de bruma
Líquida, condensada,
Suspiro de nuvem caiada,
Cal de cinza, impura;
E o frio, sanguessuga,
Sonda a lã do prado despido,
Balido que foi, balido ido,
Que não demora a entranhar
Fundo, que te rouba o ar.


domingo, 1 de junho de 2014

Olvido o Cardo e a Rosa



Olvido o cardo e a rosa. Ego,
Não há quem deseje vida trajada
De espinhos, espelho externo,
Que a compreensão vendada
Não compreende. Eterno
Será o cego, será nada,
Que nada é o que enxergo.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Há Cansaço



Há cansaço,
Onde os muros são cinza,
E o vento leve, tão leve,
Pesa o mundo.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Hoje hão-de ir e ficar



 Hoje hão-de ir e ficar
Resquícios do que é passar,
Qual onda que vai e vem,
Vem e vai mais além,
Levando e trazendo o mar,
Concha, areia, escuma e naufragar;
Que se erodida do que não tem,
Sedimenta memória de ninguém.


Miranda - The Tempest (1916), by John William Waterhouse

sábado, 3 de maio de 2014

Espírito do Ar

©Stephanie Pui-Mun Law, 2014



Sois alma de canto doce,
Sois sonho e sonambular,
Sopro do vento que dança,
E flor por desabrochar.

Sois só o que é seda branca,
Sois suave de tricotar,
Lagarta esguia, tão cândida,
Na crisálida que é teu lar.

Sois sombra do mais subtil,
Floresta virgem e ramalhar,
Asas de íris e utopia efémera,
Sois, sim, espírito do Ar.

domingo, 30 de março de 2014

Sombra

Erlkönig, Julius von Klever (1887)


Encolheu-se no seu canto escuro. Tinha medo, medo que a vissem, medo que a pisassem e interferissem com o seu ser mutável.

Olhou em redor, muito quieta. Nos céus, dois pares de asas recortadas rasgaram a noite, intrometendo-se entre ela e o luar que era seu pai e mãe, gerador de um fruto sombrio. Estremeceu, parte de si esvaindo-se, substituído por qualquer coisa igual mas diferente. Mas o morcego depressa desapareceu e, com sorte, manter-se-ia igual a si.

Então, os olhos negros escancararam-se. Cavalgando abaixo das estrelas, uma horda de terríveis nuvens armadas de chuva e relâmpagos aproximava-se, empurrada por um vento que se ergueu dos confins da noite. O coração invisível parou, enquanto juntos lhe pilharam o luar. E, na escuridão, ela desapareceu.

Quando as nuvens se afastaram para paragens desconhecidas, uma entidade ressurgiu naquele mesmo lugar. Era ela e não era. Porque as sombras são mutáveis e efémeras.

Cem Palavras: desafio de escrita criativa (Noite)
Versão estendida

sexta-feira, 28 de março de 2014

Vazio


Ele grita, grita tão alto,
Tons que assombram,
Conquanto vozes de ninguém.

E rompe o peito sem ter
Carne, osso, alma a romper.

Dizem-no nada;
Dizem-no por dizer.

Pétala apartada da flor,
Imaginário que é rio
De leito seco. Vazio.

domingo, 23 de março de 2014

E se as cores sangrassem?



E se as cores sangrassem?
Se fosse mar e dilúvio
A paleta que é vida além
Tela tisnada a pincel
Com guache de ninguém?

E se a chuva fosse tinta?
Se cada gota pintasse,
Ao toque molhado
Dos seus dedos sem fim,
Viçosos verdes de prado?

Seria guache, seria tinta, seria cor,
Seria dilúvio, mar, chuva e gota,
Seria pincel, seria dedos,
Seria vida de além e mundo
D’eternos segredos.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Sê Ínfimo e o Infinito Tal



Sê ínfimo e o infinito tal,
Filho dos meandros e dos pequenos
Que são eternos do que é menos
E restos d'infinitesimal.

domingo, 16 de março de 2014

Metamorfose

Spring Delight, Vladimir Kush 

Observei-a um último instante. Ela estava viva. O seu riso tímido brotava a cada brisa solta que a tomava nos braços, a cada doce ave que lhe pousava nos ramos frágeis, a cada despontar ligeiro que espreitava o mundo. Eram rebentos de si, seiva da sua seiva, vida da sua vida, um multiplicar frágil com que beijava o ar e tentava alcançar o céu. Com um abraçar ao mundo, interrompera a nudez do seu ciclo e dançava nos novos tons.

Num derradeiro sorriso de despedida, dei vontade à metamorfose e fluí entre partículas, absorvido pela terra. Alimento seu, parte dela.

Cem Palavras: desafio de escrita criativa (Primavera)