segunda-feira, 21 de março de 2016

Pensamento Mudo



Há, nos confins sem nome,
Um pensamento mudo.
Do seu inato vasto diz-se
Que se escuta um sussurro,
Mas nem murmúrio ou ciciar
Existe, de si qualquer som é
Extinto no ar.

Há sim, ecoando por aí,
A vibração de seu pensar,
De confim em confim pairando,
Palpável ao Louco que em si,
Por aí caminhando,
Tem pensamentos que vão andando,
Sem destino ao partir.

Lado a lado, trilham o mundo.
Ele sente e traduz no linguajar
Doido o que há a palpar.
Não entendo eu, não entendes tu,
De mudo a insano, o seu inspirar
É verdade que se destila pura
Sem ninguém para a abarcar.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Gostaria de Compreender a Arte do Cinismo



Gostaria de compreender a arte do cinismo,
E o prazer da dita difamação,
Assim como o dote d'ambos andarem
Juntos no dia-a-dia, mão com mão.

Falar bem ou falar mal,
Frente e costas são distintas no comunicar,
Na segunda é usado o punhal,
Na primeira a mentira do enganar.

Oh, é este o dom da representação,
O das palavras que são sem serem,
O dos gestos que são em vão!

Que em mim fica por compreender
Tal arte, drama, comédia, tragédia,
A do cinismo e do mal dizer.


sábado, 20 de fevereiro de 2016

Eles não mais Vos olham



Eles não mais Vos olham.
Seus orbes caíram dos céus,
Cegos de tanto ver.
Penais, porque outrora réus,
Sois agora o que desejastes ser.

Oh, deuses sem dever,
Vós, criações do ínfimo
E da quase inexistência,
Sois produto d'alma sem imo,
Sombra, pó e demência.


(imagem: fonte desconhecida)

domingo, 17 de janeiro de 2016

O Cais dos Últimos Dias



Há olhares esguios que seguem a vida,
Pela beira do cais dos últimos dias.
O seu inspirar oscila na margem da existência,
Por vezes ido, pendendo demasiado para lá,
Para voltar num sopro do vento,
De regresso ao tão pouco, mas ainda muito,
Que ainda há, e aguarda expectante,
No lado de cá.

Os olhares turvam-se com o entrechocar
Da onda que, no repique que persiste,
O tenta tragar e apenas deixar
Memória daquele seu inspirar sentido no riso,
No pranto, no gesto efémero de acenar.
Quando as pálpebras fecham, no instante a seguir,
A onda levou o seu inspirar no entretanto
De um suspiro do partir.


No Cais do Tejo, Alfredo Keil (1881)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Último de seu dia

@2012 Stephanie Pui-Mun Law



Último de seu dia,
Conquanto seja imensidão.
Passa o que tem a passar, passado
O Futuro foi o que poderá ser, não será
O que não poderá deter no tempo.

Foge e pára, reflecte quanto de si passará,
Parcela, fragmento ínfimo, nada,
Que parte será antiga no renovar?
Reflecte, tenta, mas resolve não decidir;
Isso haverá o Tempo de ditar.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Sopra Segredos



Sopra segredos na sua forma de falar
E tem cerrado sotaque de abismo profundo,
Roufenho o tom embebido no afogar,
Conta quanto conquistou do mundo,
E quanto é mistério no seu marulhar.
Quem o ouve, sente… quem lhe fala
É marinheiro afundado nos confins do mar.


Clearing Up—Coast of Sicily, by Andreas Achenbach (1847)

sábado, 19 de dezembro de 2015

Há no Vento Nomes que Inspiram




Há no vento nomes que inspiram,
Não vivos – limbo –, não mortos.
Nuances de imortal que vacilam,
De consciência em consciência,
Constantes de tempo, inconstantes
De pensamento.


sábado, 21 de novembro de 2015

Verte-se a Lágrima


Verte-se a lágrima. É hipócrita,
Tingida de dor que é só lençol de linho escuro,
Sujo do que é sentir e não sentir, do fingir
Sem a percepção do acto dramático; e encena-se
Uma peça de vida, uma cena de morte.
O palco corrói-se no lamento
Que não o é, que não o foi…
Mas sê-lo-á? Quando a cortina arder
  
E o palco findar.


Musical Fête, Giovanni Pannini (1747)




quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Há Tempo que não é Tempo



Há tempo que não é tempo,
Mas eternidade.
Eterna a espera contínua,
Longa, tão longa. O horizonte
É o tudo do infinito onde aguardas
O tempo que chega no nunca de si mesmo.
Chegará? Quiçá não.
No eterno longínquo do Tempo,
Será a infinda espera um tempo vão?


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Inspiro a Vida que s'esvai


©2013 Stephanie Law - Labyrinthine - Spring




Inspiro a vida que s’esvai, sangue,
Nos detritos que os braços do vento
Toma para si.

Num sussurro, ele suspira os gritos,
E o perfume do seu íntimo
É mescla de medo e dor.

Esse vento vem, esse vento vai.
No incorpóreo da memória
Sedimentam escombros d’eternidade.

Enterra-se e esqueces
O longo passado do que é História;
Para quê lembrar?

O tempo torna-se esquecimento,
Até o Tudo ser olvido
E o vento soprar.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Voo e trespasso o Céu


Voo e trespasso o céu,
Enquanto o Sol se pinta d’encanto,
E a nuvem branca é sombra
Na campina do alto-mar.

Inspiro e inundo-me da maresia
Que saboreia a pele do marinheiro;
É vaga que prova os limites do mundo
Sem mesmo lhes tocar.

Voo entre os braços que se erguem,
Escuma e salpicos de corpo líquido.
E perco-me além-horizonte, só,
Na companhia do mar.

sábado, 24 de outubro de 2015

Entranha-se


Entranha-se
O bocejo de ser vivo.
Contemplo o viver,
Enfado-me de ser
Partícula
Ao olhar do mundo,
E suponho o irreal
Do sonho.


Listen to my Sweet Pipings, J. W. Waterhouse (1911)

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

No Ruído Intenso


Magoa-me
No íntimo da percepção
O ruído intenso.
Assim é silêncio
O estrépito de não te ouvir.
Gritas, sussurras, e é como se cantasses
Muda.

Porém, olho-te.
Sorris e é como se falasses
Com um trejeito ao mundo,
Tão alto, que enquanto
As tuas palavras são silêncio,
O teu silêncio fala,
Terno.


@2013 Stephanie Pui-Mun Law

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Não existe Aurora



Não existe aurora
Que adormeça ao nascer.

Se existir, cego será
Aquele que o possa ver,
E não verá;

Visão tomada pelo Ser,
Em cujo eterno poder
Se banha a faca de cegar
E o ocaso de perecer.


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Chora, Nuvem de Tempo


Chora, Nuvem de Tempo.
Há tinta nas lágrimas que são
Corpo e espírito e pensar,
Unguento de criação,
Na tela de pintar.

Vertidas no corpo vazio,
São negro decomposto,
Tons mil de Horizonte vasto,
São o suposto
E o supor nefasto.

Pintam sem pincel ou guia,
Incertas são certeza
Que é somente instinto,
Alento, senão tristeza,
Sentimentos. Sinto…

Sensações, que fui pintada,
Em aguarelas de chorar,
Corro pelo Horizonte,
Corro para a alcançar
E tocar a Fonte.

De existência padece o mundo,
Maleita onde a cor pintada
Se esvai, e o sentimento
Retorna pela estrada
À Nuvem de Tempo.

Persigo a lágrima, desespero!
E corro… corro pela tela,
Atrás de mim ele é tanto,
Vazio espreitando à janela
Que me consome o pranto!

Antes da derradeira perda,
Tomo-a de súbito num abraço.
Será minha lágrima contida,
Semente e rebento no vazio baço
De que se pinta a vida.

sábado, 11 de julho de 2015

Num sussurro há quem nada diga



The Crystal Ball [with the skull], J. W. Waterhouse (1902)
Num sussurro há quem nada diga,
Há quem sussurre fadiga,
Do mais inato da palavra.
Há quem rumine a’marga vida,
Que nesse resmungo há quem diga
Que é tão só mentira,
O que há a falar.

E ele paira, persegue a’udição. Sussurro,
O que há em ti de impuro,
E quanto de ti é verdade?
Conheces a palavra embuste, escuro
Intento que é objecto e conjuro,
Porém segredo não dito
Que há a contar.

Quiçá confissão, ou então declamar
De um verso sentido do enamorar
Tímido e confuso.
Quiçá sussurro não dito, que há sussurrar
Que é baixo, tão baixo no seu falar,
Que a palavra se extingue,
No que há a pensar.

domingo, 5 de julho de 2015

Há dias em que a chuva fria...



Há dias em que a chuva fria
É leda no seu cair,
Melodia de água e sabor
De verde campo por florir.
O perfume é tal odor,
Que é real e imaginação,
Fresco o toque que escorre,
Lágrimas, inúmeras, em união
No ser inato de rio e mar,
Nascente que é ciclo e aluvião,
Com fim e início no céu explorado
E no que há por explorar.


domingo, 28 de junho de 2015

Falais do Tempo


Falais do Tempo, mas o Tempo
Não é o que é, humano.
É trilho que doma o Espaço,
Pano de fundo, pai do Futuro,
Mentira, subterfúgio, impuro,
Relativo, reactivo, real
E imaginário.

É rei de reinos além existência,
Dos paralelos e dos que se cruzam,
Diagonais e perpendiculares,
Mundos mutáveis, estáticos, eternos,
No recuar e no avançar,
E na ponte, entre ambos,
Onde ele pára, a ponderar.


Soft Watch at the Moment of First Explosion, Salvador Dali (1954)


sábado, 20 de junho de 2015

Do Lento ao Vagaroso vai uma Palavra



Do lento ao vagaroso vai uma palavra
Atenuada, tão ténue,
Que na inspiração é cadente.
Arrasta-se na compreensão,
Oh, tão devagar,
Que me abranda o coração,
Monotonia de pálpebra fechada,
Que adormeço ao sentir da palavra.