quarta-feira, 20 de julho de 2016

Hoje sonhei que não era eu


Hoje sonhei que não era eu,
Mas uma sombra incorpórea,
De passos dúbios e gestos
Amplos de tão vagos.

Projectado na parede, era mancha,
Qual líquen que da pedra corrói a pele,
E no chão sustinha o peso dos pés
Que, incontáveis, pisavam sem ver.

Deslizava, inseguro, estirando
A consciência sob a luz,
Para ser ínfimo e esconder-me
Onde era visível a qualquer um.

E buscava por ela,
Ela que continha a resposta,
Escondida nos meandros negros
De si – escuridão.

Porém, quando a vi, fugi.
Tomá-la seria desaparecer de mim.
E, enquanto a luz for o redor,
Serei existência.

Ayalal,
24.Erastus.4699

terça-feira, 19 de julho de 2016

Inexistência do Silêncio


Paro, atento no silêncio
E digo-vos o que escuto…

Escuto a sua inexistência,
Detalhada na multiplicidade;
O sussurro da corrente de ar, o roçagar
Do atrito do que não vejo.

Do longínquo chegam-me
Vestígios de palavras que se perdem
Na distância. E aves…
Como é belo o misto do seu cantar
E o do ramalhar das árvores!

Mas há mais, na ausência
Desse silêncio.
Há o murmúrio de ti e de mim,
O bater do coração, o fluxo
Do que anima o corpo,
Sons do mundo e sons de vida.

Quando houver só silêncio, a inexistência
Será minha.

Ayalal,
17.Erastus.4699

sábado, 16 de julho de 2016

Inspira o espaço


Inspira o espaço que é
Partícula imaginária do pensamento
Divino,
Permitindo que do teu ermo
Se preencha cada interstício filho
Do inóspito.

Ayalal,
06.Erastus.4699

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Doa a alma ao coração


Doa a alma ao coração,
Quando da razão
Restar o não pensar.

A sua escolha será
A do sentido onde recairá
A decisão.

Quantos dos sábios não sentem
Quando as razões mentem
Ao espírito,

E quando é dúbia a escolha
E não há lógica que suponha
O correcto?

Por isso, sê sábio no sentir,
Que o juízo que há-de vir
Tomará seu rumo.

Pondera o ponderado,
Porque no erro precipitado
Finda o sonho.
Ayalal,
12.Erastus.4699

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Pequena semente, brinca


Pequena semente, brinca,
De mão dada com a Vida,
Enquanto ela conta de si o detalhe
Da lágrima e do sorriso que são
A tua existência.

Ayalal,
27.Sarenith.4699

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Deslizando sobre o pergaminho


Deslizando sobre o pergaminho, pensativa,
A pena deixa reminiscências de ti,
No pormenor da caligrafia
Esguia e cuidada no floreado, leve
Ao toque suave do olhar.
Por vezes a linha treme, por vezes
A mão hesita.
A letra que encalça o intento,
Conquanto insegura, prossegue,
Até do aparo se esgotar a tinta
E o tinteiro ser somente receptáculo
Vazio, da pena que suspira.

Ayalal,
07.Erastus.4699

terça-feira, 12 de julho de 2016

Há um fim na infinidade do tempo


Há um fim na infinidade do tempo.

Quando o último expirar decai no limbo do "não mais",
E se esgota do corpo o movimento que o anima,
Pharasma estende o acolhimento de sua mão
Fria.

Que seja do invólucro o repouso, e da alma o julgamento
Do que o moveu.

Ayalal,
03.Erastus.4699

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Frágil e efémera


Frágil e efémera,
Um beijo colhe-te em si.

Guarda-te no peito,
E na eternidade da lembrança.


@2015 Stephanie Pui-mun Law
Ayalal,
01.Lamashan.4699

Com o esboço de um sorriso tímido


Com o esboço de um sorriso tímido,
Conquistas do céu os astros.
És senhor de seu brilho, conquanto brilhes mais,
Irmão das que pontilham a noite.
Em teu redor gravita a consciência do ouvinte
Que escuta o bardo, e do crente
Que no altar contempla de seu anjo encarnação.
És pequena utopia nas mãos do mundo,
Filho dos deuses.

Ayalal,
21.Sarenith.4699

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Há na simplicidade a paz da descomplicação


Há na simplicidade a paz da descomplicação.
Vê como das árvores pendentes as folhas repousam,
Sem pensares.
Delongam-se na brisa que é carícia,
No vento forte que as arranca e leva em si.
Livres e simples, correm o mundo.

Ayalal,
31.Desnus.4699

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Em busca do dia em diante


Durante mais do que um humano tem de vida,
Vivi cada dia em busca do dia em diante,
Sem o encontrar.
Ele fugia (e como corria!) na agilidade mutável
Que o Tempo lhe concedeu.
Cansava-se o corpo, da consciência desgastava-se
A vontade pela busca que nada buscava.

Então, na procura pelo tempo que não pára de passar,
Aportei no porto dos enigmas, e deixei
De o querer apanhar.
Não mais quis o amanhã, para ficar preso no hoje,
No minuto que passa sob o arco que o Tempo
Perdeu no decorrer de si mesmo.
E encontrei o Presente.

Ayalal,
14.Sarenith.4699

quarta-feira, 6 de julho de 2016

A poesia tem um travo doce e amargo


A poesia tem um travo doce e amargo,
Que agrada ao degustar.
A sua dor é suave, o alento sereno, porém
É de gigante a tenacidade
De fazer sentir.
Palavra a palavra, corrói de acidez e incendeia
Da alma a Vontade.
É ordem desordeira de sensações em amálgama
Que, sequiosas, bebem os sentidos,
Saciando-os.

Ayalal,
11.Sarenith.4699

terça-feira, 5 de julho de 2016

O luar é de ti guardião

Eternity ©2016 Stephanie Law




O luar é de ti guardião, quando quedas
E mergulhas nas águas dos sonhos.
Defende-te com a ternura de um beijo morno
Que desembainha, cavaleiro
Do subconsciente,
E escuda-te no abraço que envolve os mundos
Da entidade em ti presente.



Ayalal,
10.Sarenith.4699

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Há, no olhar do transeunte, um véu corrido


Há, no olhar do transeunte, um véu corrido,
Baço,
De quem vive só para ouvir bater o coração,
Que bate parado.
Olha, como quem nada vê no detalhe do complexo
Que o toca,
E não há lágrima que magoe pela dor de outrem.
A mortalha envolve a alma que a cerziu
Num padrão de malhas indiferentes,
Ignorando o verme que, sob os pés carcomidos,
É reflexo seu.
O transeunte passa e tudo o resto passa com ele,
Mas fica,
Do lado de fora do olhar.


Ayalal,
05.Sarenith.4699

sexta-feira, 1 de julho de 2016

As correntes tomam-te as penas


As correntes tomam-te as penas.
Liberta-as e sê de ti mesmo.
Evade-te da gaiola da mente
E voa com as asas do vento,
Sendo ave em sonho real.

Ayalal,
25.Desnus.4699

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Chuva


Sendo em si entidade múltipla,
Da qual é una a consciência,
A chuva precipita-se dos céus,
Cantando ao ritmo do tocar na terra
Que em seco é lama sem saber.
Lava das pedras as marcas
Do pó, num abraço húmido,
E beija a pele dos que, sentados
No campo, se apaixonam
Pela simplicidade fria que é de cada gota.
No fim, o Sol desponta e as flores sorriem,
Tomando da chuva inspiração
Para viverem.

Ayalal,
02.Sarenith.4699

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Palavras que são veneno


Quando imbuídas em veneno,
As palavras são moléstia que consome
Dos fracos o espírito e acicata
As violentas hostes da ignorância.

Ayalal,
25.Gozran.4699

terça-feira, 28 de junho de 2016

A magia do dedilhar


A magia do dedilhar,
Que da lira afaga o corpo,
É de Shelyn dádiva e condão,
Concebidos ao nascer.

É suave o toque que na corda
À nota insufla vida,
E a sua sonância é dom
Que, ao escutar, fascina.

A melodia toma o espírito,
E da consciência rouba a lógica,
Para que possa dançar livre,
Com cada um dos sentidos.

Ayalal,
31.Desnus.4699

segunda-feira, 27 de junho de 2016

De dentro do detalhe que o molda


De dentro do detalhe que o molda, 
Atenta e escuta o que conta.
Numa língua sem palavras,
O búzio murmura os sons
Íntimos do aconchego do profundo,
E do voo alto da gaivota
Que toma nas asas a liberdade do céu.
São segredos de Gozreh, ditos
No dialecto da onda e do marulhar,
Aqueles que a espiral guardou em si,
Junto com as correntes do mar.


Ayalal,
22.Desnus.4699