segunda-feira, 19 de julho de 2021

Ora às horas

Ora às horas
E ao tempo que há a passar,
Para que não passe,
Pare,
Para que não s'apresse,
Tarde,
Sem tarde ser.
Pare ele de correr,
E seja somente as horas
Que com a vida
Te demoras.

domingo, 28 de março de 2021

O amor é mito que alguns buscam


O amor é mito que alguns buscam,
Sem encontrar,
E outros ousam não acreditar.

Fechada a cortina do mundo,
O horizonte de amar
Espraia-se longo em seu aguardar

Pelo passo tímido ou de temor,
Pelo de curioso caminhar,

Pelo passo furtivo ou de fervor,
E pelo d’intrépido sonhar,

E aguarda por quem não o busca,
Buscando surpreender
Com cada passo de seu entender

Imprevisto, infindo, incerto
Do que é ter,
Contudo tão livre de ser.

*

Love is a myth that some seek
Without finding,
And others dare not to believe.

After the world’s curtain falls,
The horizon of loving
Stretches long in its waiting

For the shy or fearful step,
For the curious walk,

For the furtive or fervent touch,
And the intrepid dreaming,

And it waits for those who do not seek it,
Seeking to surprise
With each step of its unforeseen, endless,

Uncertain understanding
Of what it is to have
And yet be so free.

Ayalal Duruvan

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Pedem-me bravura


Pedem-me bravura,
Enquanto me dão
Um barco no mar aberto
Da solidão.

*

They ask me for bravery
While giving me
A boat in the open sea
Of loneliness.

Ayalal Duruvan

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

A fome de ser do mundo


A fome de ser do mundo
Dita devaneios à mente que deseja
Um possível que, tão distante,
Se perde para ser inveja
No almejo inconstante.

*

The hunger of belonging to the world
Dictates daydreams to the mind
Which desires a possibility
That, so distant, loses itself
To be envy in the fickle wish.

Ayalal Duruvan

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Pouso meu mundo em tuas mãos


Pouso meu mundo em tuas mãos
Ternas, eternas,
Conquanto efémeras,
E vivo acordado um sonho
Que do singelo e belo entrança
Nuances de teu sorriso, botão de flor,
Pétala a pétala, romance e cor
Viva que tinge a lembrança
De meu amor.

*

I rest my world in your tender, eternal,
Although ephemeral, hands,
And, awaken, I live a dream
That from the simple and beautiful weaves
Nuances of your smile, flower bud,
Petal to petal, romance and bright colour
That dyes the reminiscence
Of my love.

Ayalal Duruvan

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Tão certa quanto a mentira


Tão certa quanto a mentira,
Minha palavra hesita.
É indecisão deixá-la partir,
E certeza que seu tardar
Corrói o que de mim
Se deixou ficar.

*

As certain as the lie,
My word hesitates.
It is indecision to let it go,
And certainty that its delay
Corrodes the part of me
That remained behind.

Ayalal Duruvan

domingo, 3 de janeiro de 2021

Quando a Morte a mão estender


Quando a Morte a mão estender,
Atenta e escuta a Vida:
Ela é sussurro e ária na brisa
Que dança desde o nascer.

É de todos e de ninguém,
E conta uma história invulgar.
Quiçá esteja a tua por terminar
Nos lábios que não tem.

*

When Death reaches out,
Watch and listen to Life:
It is whisper and aria in the breeze
That dances since birth.

It is everyone's and nobody's,
And it tells an unusual story.
Maybe yours is still to be finished
On the lips it doesn't have.

Ayalal Duruvan

sábado, 2 de janeiro de 2021

Somos escravos do parecer


Somos escravos do parecer
Que precede a razão,
Reunindo em nós as que são
Falácias do crer
E verdades em vão.

Ayalal Duruvan

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Com tuas lágrimas criaste um oceano


Com tuas lágrimas criaste um oceano
E um vazio em ti,
Tão negro quanto o mar mais fundo,
Tão denso que só a indiferença
Restou em teu corpo
Moribundo.

*

With your tears you created an ocean
And an emptiness in you
As black as the deepest sea,
So dense that only indifference
Remained
In your dying body.


Ayalal Duruvan

sábado, 19 de dezembro de 2020

Foge para não veres


Foge para não veres
O medo no olhar
Dos que fugir não podem mais;
Foge e esconde-te sob o véu
Do fingir que não se vê
A dor que é dos demais;
Foge e com isso sê
Não inocente, culpado e réu,
Que em tua fuga os matais.

*

Run away so you can't see
The fear in the eyes
Of those who can no longer flee;
Run away and hide under the veil
Of pretending you don’t see
The pain from the others;
Run away and with that be
Non-innocent, defendant and guilty
Because you kill them
In your escape.

Ayalal Duruvan

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

A sinceridade é arma


A sinceridade é arma,
A qual mata e salva
Sonhos, ideais e vidas
Desentendidas.

Quando embainhada,
É trégua e ameaça velada,
A aguardar a mão
Que a cravará no coração.

*

Sincerity is a weapon
Which saves and kills
Misunderstood lives, dreams
And ideals.

When sheathed,
It is truce and a veiled threat,
Waiting for the hand
That will pierce it through the heart.

Ayalal Duruvan

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Perdoa-te


Perdoa-te,
Se te persegue o pensamento
Que a alma não permite
Serenar.

*

Forgive yourself
If it persecutes you, the thought
That your soul does not permit
To pacify.

Ayalal Duruvan

Habita em mim, escondida


Habita em mim, escondida,
A sombra do passado.
Subtil, ela volve o fado,
Estirando o fio da vida,
E com ele borda a teia,
Na qual prende e enleia
Cada passo dado,
Ao passo que há a dar,
Para que meu seja o tropeçar,
O tombo descuidado,
E o não avançar.

Ayalal Duruvan

sábado, 5 de dezembro de 2020

Corre e sê livre


Corre e sê livre,
Qual ave sem asas que voa
No céu da imaginação.
*

Run and be free,
As a wingless bird that flies
In the sky of imagination.

Ayalal Duruvan

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Recordo-me de recordar


Recordo-me de recordar
Teu suspiro mais profundo,
E as horas que não queria eu
Que pudessem passar,
Pudera o sonho eterno ser,
Pudera a memória não fenecer…
Porém o tempo inspira
E, a cada expiração,
Desvanece-se o que era
E o que não mais é recordação.

*

I recall remembering
Your deepest sigh,
The hours that I wish
Had not been able to pass,
Could the dream be eternal,
Could the memory not fade...
However time inspires
And, with each expiration,
Disappears what it was
And what is no longer
A remembrance.

Hurad Duruvan

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

É solene cada nota


É solene cada nota
Que entoa no coração,
Enquanto, na solidão,
O piano toca.

Sua cadência
Embebe-se da memória
Daqueles cuja história
É confidência,

E intima do sentir
A lágrima, o sorriso,
A revolta que, sem aviso,
Faz o espírito s’insurgir.

Quando o silêncio é conclusão
E o que resta a contar,
Há no expectante aguardar
A contida expiração,

Que expira
Deixando em nós somente
A sinfonia latente
De uma vida vivida. 

*

Is solemn each note
That sings in the heart,
While, in solitude,
The piano plays. 

Its cadence
Soaks itself in the memory
Of those whose history
Is confidence,

And intimate from the feeling
The tear, the smile,
The revolt that, unexpectedly,
Makes the spirit rise.

When silence is conclusion
And what remains to be told,
There is in the expectant waiting
The contained exhalation

That expires,
Leaving in us solely
The latent symphony
Of a lived life.

Hurad Duruvan

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Magoa-me a indecisão


Magoa-me a indecisão,
Qual farpa que rasga
A mais ínfima porção
De minha alma.

Ela perdura, infecção
Subtil que toma
Do acto a acção
De agir na hora. 

Persegue-me, sabendo 
Que minha coragem 
Vacila temendo 
Os erros dos que agem. 

Contudo, finjo e ajo.
Seja a fingida calma
O primeiro passo
Na cura de minha alma.

*

Indecision hurts me,
Like a sliver that tears
The tiniest portion
Of my soul.

It endures, a subtle infection
That takes from the act
The action of acting
In the moment. 

It persecutes me, knowing
That my courage falters
Fearing the mistakes
Of those who act.

Yet, I pretend and act.
Let the feigned calm be
The first step in the healing
Of my soul.

Ayalal Duruvan

domingo, 29 de novembro de 2020

É exacta a inexactidão


É exacta a inexactidão
Do que não compreendo,
Tão certa quanto a incerteza
Que habita o Tempo.

*

It is exact the inexactitude
Of what I do not understand,
As certain as the uncertainty
That inhabits Time.

Ayalal Duruvan

sábado, 28 de novembro de 2020

Nada de mim quer a morte


Nada de mim quer a morte
Que não a vida
Não mais minha.
Vendi-a
Pelo preço da indiferença,
A que habitava
Cada sustido pensar,
E afogava em si
Um sonho esquecido
E a inépcia da acção.

*

Death wants nothing more from me
Other than a life
That is no longer mine.
I sold it
For the price of indifference,
The one that inhabited
Each sustained thought,
And that drowned in itself
A forgotten dream
And the ineptitude of action.

Hurad Duruvan