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domingo, 29 de janeiro de 2012

O Caderno dos 80 Temas - Kath

O canto das aves imiscuía-se no raiar do Sol e eu, sentada à beira do precipício, observava como o céu se matizava com o passar dos minutos. Era uma visão digna dos deuses.

– Em que pensas?

– Não tenho a certeza. Acho que penso em nada – respondi, cruzando as pernas. – Penso em nada para poder sentir tudo. Faz sentido?

Ao meu lado, a bela jovem abanou a cabeça. Os seus cabelos eram de puro ouro, revoltos e reluzentes. O rosto revelava-se uma mescla estranha de expressões que se harmonizavam – parecia simultaneamente triste e alegre. Mas, para mim, isso também não fazia sentido.

– Então, diz-me o que pensas. – Pedi, com um sorriso curioso.

Ela hesitou um pouco, levando um dedo ao queixo enquanto meditava.

– Penso que não penso. Penso que pensar destrói, penso que te estou a destruir ao pensar, por isso não vou pensar mais – respondeu, com um sorriso demasiado feliz para se coadunar com as suas palavras. – Se pensar demasiado, a vida morrerá nesse pensar.

Fiz uma careta de desgosto. As reflexões dela criavam-me nós na mente, e depois tinha de passar todo o dia a tentar desfazê-los. Era sempre assim.

– Mas, se não pensares de todo, a vida não chega a nascer sequer. – Notei, perguntando-me o que iria ela responder àquilo.

Vi-a ficar novamente pensativa. Quanto mais pensava, mais os cabelos cresciam, alargando-se pela superfície em seu redor, mergulhando no penhasco, sem medo. Quando senti que uma madeixa me tocou a mão, estremeci por dentro, sofrendo a sua queimadura na pele e na alma.

– Porque me fazes perguntas tão difíceis? Já disse que não quero pensar. Estou a magoar-te. – Concluiu, sem deixar de sorrir, mas ainda assim com tristeza no olhar.

Encolhi os ombros. Não era nada de novo, só significava que estava na minha hora de recolher, que precisava de me afastar. Mas só depois de sentir um pouco mais daquela dor. Queria que ela pensasse. Queria uma resposta. Insistiria até à eternidade se fosse necessário.

– Não faz mal. Continua a pensar. – Pedi simplesmente, observando-a. Mas até olhar para ela já me magoava.

E ela pensou, pensou até os seus cabelos se perderem no horizonte, pensou até eu sentir o corpo tremer. Quando dei conta que já não aguentaria mais aquele tormento, fechei os olhos.

– Volto amanhã e esperar-te-ei aqui, à mesma hora. Não faltes e traz-me a tua resposta – volvi, deixando-me cair do penhasco com um mero impulso, como se se tratasse da brisa do vento. – Não faltes, Madrugada.

Senti o seu olhar, até me perder de vista na escuridão daquele abismo.

– Até amanhã, Noite – chegaram as suas palavras até mim, antes de me sentir a adormecer. Ela já pensara o suficiente para que a vida nascesse e seguisse o seu trilho sinuoso.

15 - Triste e Leda Madrugada

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Pintura a Palavras

Genealogy Tree, Vladimir Kush

Nada é disforme na disformidade do mundo. O tempo decai e avança no decair, consumindo e recriando o que consome e dando mostras do que se faz e desfaz nas rotas do mundo. Um dia foi criança que não se vê nos primórdios perdidos, no outro a árvore que cresceu e floresceu, oferecendo os seus frutos aos meninos esquecidos, para que deles não mais se esquecessem. Mergulhando no distante dos dias idos, retornando ao longínquo que se adensa nos dias que virão. E dás uma dentada que se incendeia na boca que não come, alumiando o espírito de fogo arrefecido. Que ele acorde, se ergue dos ramos e voe, que é vida eterna.

Para o Colinas de Palavras

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Niadin Midarvia


Moonbathing, by Puimun

As Estrelas são espíritos que dignam trajar de luz
O infinito de Sua Graça.
A Noite é barda voz dos sonhos e mitos
Que dominam o mundo.
O Luar é Sua palavra oferecida, cantada e escrita,
No sentir da alma.

Senhora de Olhar de Utopia,
Honram-te aqueles que não olvidam o que foi o tempo a passar,
Na fidelidade do Teu amar onde muitos se perderam.

Minial celdh i ladnar adian, niadin Midarvia

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Fundamentos do Existir


Book of Fairy Tales, by Louvre89

FUNDAMENTOS PERDIDOS


Fundamentos são os que ditas mudo,
Delongados à vã noite vespertina,
Quando era crepúsculo o Passado diurno,
E as maleitas, falácias escritas.
Foram fundamentos no escuro,
Ebúrnea a tua letra erudita.

Rimaram sem rima os versos,
Tão soltos que os diria magos da magia.
Que contigo os fundamentos escreveram
Os da vida que se procria.
Que não morrem com os que morreram
Os que a branco vêem a escrita escurecida.

Anos são milénios, os que se vão,
Algures dormentes no caído da História.
Extintos do pensamento, porém não do coração
Aberto nos recônditos da memória,
Na essência que é só tua a paixão
Puro o sentimento da tua glória.

Ninguém o sabe, que não existe,
O Saber dito que é sabido em crer.
Contam-se, no obscurecido que persiste,
As chamas apagadas e os pavios cortados do ser.
Contam-se martírios dos sussurros que ouviste,
Mas não se contam os do reacender.

Canto perdido,
Conquanto o sangue ruge ao pulsar.
É esse sussurro que te é, ao ouvido,
A brisa que sopra leve no marulhar,
A promessa do que um dia foi prometido,
Promessa que irá um dia despertar.

Insiste, persiste no florir.
Do tímido despontar que te anseia,
Revejo desfocado aquele sorrir,
Tão tua a cândida luz que encandeia
Quando é luar solene, o do sentir,
No reflexo do rumor da lua cheia.

Sereno o Sempre que é teu,
Cravou-se descontido no coração.
Esse espelho de reflexo contido pereceu,
E em pranto, foi dito o “não”,
Não à concreta certeza de ser teu
Quanto do que era a infeliz Razão.

Crês que o santo graal
É o do sentir, não o da razão sagaz.
Somente é a vontade reinante, e por mal
Mundo pensado – que não penses – perfaz
A falta infundada de desdito dito racional,
Na mente da alma perspicaz.

Olvido assim teu mistério,
Os fundamentos pintados sob o engano
Da eternidade etérea do deletério.
Que o Presente permitiu-se ao desumano
Desenlace do que era ímpio, diáfano Império,
Na passada época do desengano.


FALSOS FUNDAMENTOS

Rumores ronronantes são sonhos,
Resquícios rendilhados em linha minha
Aos cegos do pressuposto que suponho
Ser o Ser que contigo caminha.
Ser por ter sido tão cego ao olho, zarolho,
Da teoria tua que tanto definha.

E nosso, o pão de cada dia,
É veneno escutado de vão inato,
Cerne em recorte, aquela renda que procria,
Bolor e fungo e fundamento emboscado,
Embora vida, por eles proscrita,
A do pequeno bolor bastardo.

Manchas são teorizadas,
Dos membros vivos excluídos.
O que é lâmina desfere facadas,
E no corpo, doença são sagrados imbuídos
Santos de mártir mórbida fachada.
Que, no final, são teus martírios.

Era esta, só é Era,
Quando banida for a força mor.
Se não é mundo o que de natura é fera,
Meu Mundo, que te canto eu a dor,
A que em mim só faz a espera,
Esperar do fundamento o seu amor.

Debemur morti nos nostraque,
A ceifa certa do que um dia foi passando.
Nós, mas não tu, que o demo a alma ataque,
A dos vulgares que lamentam seu pranto
Pérfido das lágrimas símias de seu saque
Sequioso… Oh! É do silêncio que me espanto.

Inverno, excluo-te do cosmo.
Hirta, vontade é a minha a de banir
Corrente que te aprisiona ao abismo,
E essa é a vontade, ó Fundamento do sorrir.
A minha e a dos cegos do aforismo,
Que veneram os Fundamentos do Existir.

Ouve, que te chamamos,
Fala ao mundo com a voz dos séculos
Nocturnos que adormecidos reclamamos.
Que quão são os teus ditos belos,
As máximas mínimas que imenso amamos,
Nós, os que te veneramos, nós, os incrédulos.

O ACORDAR DOS FUNDAMENTOS

Criaturas de credo incerto,
Recuso-vos a existência do não poder.
E peço aos deuses, que me escutam de perto,
No seu longínquo escutar do adormecer,
Peço-lhes o céu, e da voz o eco,
Do que foi um dia o grito de viver.

Ressuscita, de alma conquistadora,
Ressurge das cinzas, Fénix minha.
Sê a ave da espécie vindoura,
A da magia e do mito que caminha,
Sê assim, Fénix, nossa suprema senhora,
A senhora chamada Renascida!

Idolatrada essa força, a que tens,
Em palavras anciãs de ânsias inconstantes,
Reúnes das virtudes, em tuas mãos, os bens,
D’aqueles que não passam de puros instantes
Que sempre viveram dos ícones que deténs,
Cansados do que são, similares dos semelhantes.

Sonho novamente,
O mesmo que há séculos sonhei.
Mas eu, reencarnação de demente,
Sei-me são em tudo o que sei.
E creio que do meu devaneio de mente,
Será sonho meu, nossa lei.

Tu, só tu… sobre ti,
É o sonho contigo, o conhecido,
Das Cassandras da vidência em mim.
E murmúrio é agora o ouvido,
Que se adensa no nevoeiro espadachim
Do recortar que antecede o alvorecido.

Invades, então, a razão perpétua,
Despontada já é a beleza do pensar.
Tua é a alma despida, de preconceitos nua,
Nívea, imaculada no seu eterno conjecturar.
É essa a dramática peça que em mim actua.
Essa é a peça onde irei actuar.

Nalgum remoto nunca,
O Nada tentará evitar a tua renascença.
E porquê? Surge a pergunta,
E a resposta é a da inveja em sua crença,
Ínfimos muitos onde infinito s’ajunta,
E cresce em imortal crescença.

Ontem, foste nosso almejar,
Hoje és realidade que havia de ser.
Causa a qual quiseram fiéis amar,
Perante a força do esquecer.
Que, do tudo, só tu os podes sagrar
Santos, os Fundamentos do Viver.

(E isto foi uma prenda que fiz para um amigo. Porém, presumo que não lhe tenha agradado de sobremaneira, ou que nem sequer tenha adquirido o necessário tempo para a ler. E, no entanto, deixo-a a vós, meus caros e queridíssimos amigos, esperando que gostem ^^)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Humanidade

O Egoísmo é uma praga
que corrói o ser humano
até ao âmago da sua alma.

Por isso,
usufruam da afortunada vida
que o generoso "alguém" vos concedeu,
porque, se o Inferno existir,
é-vos reservado um lugar
nas suas aconchegantes fornalhas,
após a morte.

Louvada seja a Humanidade
E o seu abismo incontestável.



(Sim, sim, estou irritada xD)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Talvez

Numa hora de um outro dia, talvez chorasse, mas hoje não choro. Talvez corresse em rodopios, gritasse e cantasse aos que me ouvem ou estão por me ouvir, talvez lhes pegasse pelas mãos e dançasse com eles, feita insana de mente e sã de espírito. Mas qual o porquê? O porquê do que o talvez pudesse insurgir-me na mente? Mas não insurge, e pergunta esta é vã. Que o porquê se desvaneça nos seus vãos de esquina obscuros, nas suas ruelas labirínticas, porque eu fico-me só com o talvez. Talvez um dia mude de opinião, é um risco a correr que me habilito ao pôr uma hipótese. Mas não acredito, não creio, não o consigo imaginar. É a indiferença que me domina, de espírito e alma encoberta, de garras estendidas e mandíbulas abertas, ávida. E eu não gosto… Talvez um dia me livre dela. Talvez a mate de espada erguida, coragem em punho e vontade! Oh sim, aquela vontade que se foi pelo vento chamada para mais longe, tão longe de mim. E restou-me ela, de olhos brilhantes, verdes, tão verdes! Esmeraldas de justiça inconformada mas que se deita nos seus lençóis de espinhos que a fere. E ela ignora-os. A indiferença deve ser idiota, por ventura destituída de senso. Talvez porque o ignora, é-lhe indiferente. E a mim também. Mas não gosto dela… Talvez a possam levar embora, para o longe onde se perdeu a vontade? Que se acompanhem, que se anulem, digladiem até ao derradeiro suspiro. Talvez uma delas vença, ou talvez não. Esperarei o final, sentada, olhos perdidos no horizonte, cegos para o mundo e cegos para mim. Esperarei, como sempre fiz. E um dia talvez acorde. Talvez dance, talvez grite, talvez chore. E ninguém o saberá… quiçá.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Inferno (Divagações)

Reinas num paraíso, vasto de pequeno, infinito de sentimento, entre fronteiras do coração. A coroa de flores ornamenta-te de saber, aquele que possuis e ofereces, generosa, mas ninguém recebe. Temem-no. Que lhes murmura ele de tão assustador? Falará de monstros cruéis, vis desumanos desditos, infernos de mil planos e recantos, onde poderão habitar? Não… simplesmente sussurra pedidos de amor e compaixão. E que coisa horrível a consideram! Para eles o sofrimento é santo, a agonia é divina e o martírio terapia! Ah! Elevam os mártires a deuses! Eu também elevo, pobres deuses coitados que não conhecem o sorriso, pelejam por outro deus, dado a vigores do horrendo. E isso desilude-te. Lamentas por eles, choras por eles, mas não deverias fazê-lo. Eles ouvem-te e contudo ignoram-te. Correm de braços abertos para as chamas e queimam-se, esperando a salvação! Oh… Não me peças paciência que este egoísmo repugna-me. Sofrer propositadamente acreditando na piedade e chamar bondade a oferendas de segunda ou terceira intenção? Bem lhes desejo uma viagem para o Inferno e acredito que ele os aguarde ansiosamente. Que vão, neste mundo não fazem falta, estragam-no e destroem-no, o reino do teu coração

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Semeia...

.:Semeia migalhas de esperança

Correndo aos saltos de flor em flor:.





(Extremamente inspirador *cof cof*)

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Recordações

Cicatrizes, feridas por sarar,
Quem as não tem? Quem as não quer dar?
Em olhares, beijos, paixões,
Em segredos, as tristes recordações.

Descansam assim vendadas,
Adormecidas ou acordadas.
Guardadas em vitrais,
Belas caixas, cristais.

São elas de alegria ou tristeza,
De raiva ou cruel certeza,
De infortúnio, proibidos amores imortais,
Do nada que é tudo, do tudo que é demais.

Por revelar, reveladas,
Doces e mortais baladas,
Que embalam o desespero do ser
E o acordam no cruel sofrer.

Raiadas, cravadas em ti
Num brilho imperfeito de si,
Um brilho transcendente,
Só enfim, envolvente.

Infinitamente para lá do longe,
De longínquas preces de monge.
Compurgadas nas suas Catedrais Divinas,
Sagradas recordações paladinas!

Sempre ali, a olhar-nos, a perscrutar-nos, a tormenta de sonhos que nos sustentam. Umas mais intensas, outras nem tanto. Contudo, o valor de cada uma é mais que o outro por serem únicas. Diferentes na igualdade, diferentes na diferença… diferentes.
Em cada brilho que se reflecte no prisma do olhar, espelham-se milhares de recordações comprimidas na serenidade da luz, por vezes não tão serenas como se pensa, muito pelo contrário. Quando desejam são selvagens, indomáveis, consumindo-nos vorazmente, despedaçando-nos e colando-nos em perfeitos defeitos. São elas, três vezes belas, perfeitas, consagradas, eternas!
Nascem da infância inocente do descuido frágil das rosas, eternizam-se no clamor retumbante do saber dos anos… são marcas, estações onde o comboio parou para o embarque e desembarque de sentimentos.
E aqui, na vida unificada por cada um em sonhos, estão nítidas ou escondidas na penumbra que cerca uma alma angustiada em fortalezas cerradas, as recordações, as memórias, as reminiscências do Ser, presas incorruptamente por correntes de seda de um espírito eterno, num corpo efémero que irá perder a existência após o derradeiro e simples suspiro do fim.

sábado, 24 de maio de 2008

Conto Entristecido


Conto tristezas, essas da vida,
Que abolem auroras de alentos
E talham da sarada chaga
A sangrenta aberta ferida.

Conto, mas incontáveis,
Tremem corruptas nas mãos,
Sensíveis ao vil palpitar.
Das loucas mentes dos sãos.

Oh! Mundo este cruel,
Que morre vendo morrer!
É de humanos, estes sublimes
Que bebem quente o seu fel.

Que prazer é o deles,
E porque não o sinto eu?
Sinto álgida a raiva
Que afrontou Prometeu.

Chamo a esperança destemida!
Onde estás donzela minha?
Célere se aproxima o Condenado
E eu clamo pela vida!

Vem de Nascente com o Pai.
Vem, porque te imploro,
Traz Deuses e Titãs,
Traz a sanidade que recordo!

Relembra dor e guerra,
A dor e guerra que conto
Não do passado perdido
Mas do presente que se perde!

A honra nada é mais,
O que sobra da paz adoece.
A glória é agora vergonha,
Esta minha que padece.

Devo, mas não quero contar
Conto este pesaroso,
Que embala sem adormecer
E faz chorar o virtuoso.
"Pois nos confins não há virtude que salve
O desdito Fado vosso..."
*

sexta-feira, 14 de março de 2008

Sonhos


Os sonhos são subtis. Sintonizam-se sem saberes, sem lógicas, ou sentidos des-sentidos. Sorvem profundidades, inspiram mentiras desmentidas. São simplesmente a purificação dos solarengos dias de pureza sem sol. Brilham no desbrilhar que é teu, meu, nosso, de ninguém. São análogos de desanologia. São eles sós, sozinhos na solidão acompanhada que nos abraça e ama. Oh! Eles abraçam-nos, eles acompanham-nos, eles amam-nos.

"Imploro-te repouso de plena e aflitiva insanidade, leva-me para esses confins eternos. Sonhar-vos-ei sonhando, meus sonhos sonhados."

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Nada

Descompreendo o nada compreendido no destilar dos sonhos, deixando-o verter-se, vagueando por interstícios do vagar que só em mim disponho. Que corra livre, lentamente, que não o quero prender na insipiência do saber que nada conhece no que chama de sabedoria.

Pois o tudo é a ausência que do nada se criou, essências que se dizem do sublime a grandeza que desvalorizam. Mas o que são, então? O vazio que se condensou em mãos de deuses que se integram no incompleto, venerado pelo nada, que somos nós, no incompreensível que descompreendo por não o compreender.

Que se vá então na ida, que não volte na latência do que ainda é. Durma nos sonhos, seja belo por não o ser, pois é o nada do tudo que incompreendido nos dá vida. Seríamos o nada que somos, se este não fosse a essência do tudo, o que então também somos, imerecidos, neste universo de destilado vazio.