quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Boneca de Trapos

Silêncio. Um ténue raio de sol penetrava através das fendas estreitas da madeira apodrecida de velha, alumiando o pó que flutuava etereamente em seu redor, uma chuva que revolteava ao mero sopro e não molhava ou era fria. Esticou o pequeno braço branco, fechando a mão sobre o pó. Aqueles fragmentos ínfimos faziam parte de si, crepúsculos de um inato que se desfazia e se escapava através do tecido que era a pele fina, compondo a atmosfera abafada que se revolvia, no lar de solidão que habitava.

Antes, não dava especial atenção àquelas partículas. Só pensava nos sorrisos de alegria que revibravam vivos naquela mesma casa, sorrisos que ela própria fazia sorrir, alimentando-se de carinho e amor, tal como era ela alimentada. Mas agora ninguém a alimentava. Há quantos anos passaria fome? Esquecera-se do passar do tempo naquela cabana apodrecida do topo da árvore. À sua frente, repousava uma chávena de chá inundada em água turva. Conseguia ver o seu reflexo no líquido que nunca evaporara e ali permanecera, o chá que partilhara com a sua senhora menina que um dia partira. E ali a deixara viver de sede, sede de querer ser abraçada novamente, sequiosa daquele toque suave, do pente nos seus cabelos de tiras castanhas, agora também poeirentas, ruídas pelas traças incessantes, tão esfomeadas quanto ela. Ao contrário da sua pequenez pessoa que nunca fora, os insectos tinham o que comer. Comiam-na a ela e à sua mansão. Comiam o que era seu. Talvez também tivessem comido a sua senhora menina, aquelas térmitas desditas.

Deixou pender o braço que erguera para apanhar o pó que era seu, e a casa caiu, tal como a vontade de viver da pequena boneca de trapos.

(Não saiu nada do que eu queria -.-')

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Ditador



Crown Without a King, by Rawimage

Misericórdia? É um conceito inglório
De cruel ventura ditada aos fracos.
Não possuo eu o que me é vão.
Que da complacência ganho um marco
De rocha erodida, a abater,
Promontório cadente. Mas não cairei,
Dito a Vontade e sou a Lei,
Legado do frígido fogo do poder
Que constrange e silencia,
Que incendeia e queima em cinza
A alma viva que é a morte que almejo
À sua vontade caída.

(Capítulo VIII - O Príncipe Akuirien, do Prín)

domingo, 25 de Outubro de 2009

Decaimento


Decay, by Sephiroths Heart

Decresço.
Do ínfimo ponto a que chamam alma
Sobram réstias de véus rasgados,
Antros molestados por térmitas
Da carne.

Floresço.
Que com pétalas murchas
Movo mundos mortos em dor,
Donde os gritos são cantos de musas
E Parcas.

Vivo.
Sabe a vida o que é viver
De crânio em mãos se a questão
Por saber é ser ou não ser,
Que não sou.

E morro.
Se não é a imortalidade que oiço,
Insanidade de mente caída
Esta que mendiga migalhas
Ao coração.

sábado, 24 de Outubro de 2009

Agradecimento


Com este post quero agradecer ao Afonso pela honra de me ter premiado com este selo.
O seu blog é um local tocado por uma enorme sensibilidade, que muitas vezes não consigo incutir aos meus poemas. Os meus parabéns ao seu trabalho e aos seus sentimentos.

Beijinhos!

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Deus das Alturas


God of Thunder, by Suirebit

Do Nunca era aquele que se perdeu
Lá em manhãs de gelo áureo.
Acerbo de paladar corpóreo,
No tinir álgido de pedra dura.
Sendo ele o que ficou tisnado
De fogo em frio, assim queimado,
Lá no Nunca das Alturas.

Que quem o via bem dizia
“Ai de nós, que se nos dissolve o pranto,
Do peito caído, de coração aberto”,
Conquanto se queda desta altura,
E demorada a queda é vontade
O voar plúmbeo da verdade
Viva se vã que das alturas o esconjura.

Mas ele não cai, é perene ao frio
E do vento irmão de comunhão sagrada.
É sabido assim deus do que foi,
Do Nunca que um dia marchou
Nas alturas do devaneio em vida,
Real ventura a que foi um dia
E que ao largo em si ancorou.

Então, aqui fica a lenda,
Dos que ascenderam e tombaram.
Fica, mas não se esvai,
Que o almejar é perpétuo querer
O de um dia esse deus despertar,
E ao seu povo dormente retornar,
Das alturas a que se elevou ao morrer.

Dedicado a'O Bar do Ossian

sábado, 10 de Outubro de 2009

Coração do Mar

Escuta o marulhar fresco
Que te chama em tom de água.
Que é gélido o seu apelo,
De negro o soar contido.
É voz trémula de mágoa,
Esse grito rouco em gorgolejo...
Que és só tu e tu o seu desejo,
Esvanecido na lassidão.
De profundo em profundo,
Mais que profunda imensidão,
A daquele abismo íngreme
Para os confins do coração.

(Prín - Capítulo VII - O Mar do Interior)

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Corpo e Alma


Body and Soul, by -Sylph-

De quanta da alma rubra
Sabe o Ser nos dizer,
Se expectante se destila nula,
Vazio imberbe do saber?

Pois não sabe a conta
De em quantos fragmentos pintou
O limite do ser, a afronta
Do não saber, que se quedou,

A marca corpórea do espírito,
O ponto aberto à alma.
Cerrou-se ao corpo o desdito
Invólucro interior que o embala.

Então, acordou o dormente,
Orbes vítreos de não ver,
Pintados em cor de demente,
Rubra a mancha do ser.

Que era em sangue o traje vestido
E o trilho suave demarcado.
Este morto, aparente no vivo
Carnal, do corpo pecado.

E estirada a vida sem Ser,
De espírito morto liberto,
Ledo sabe o sossego de ver
Esse limbo de mundo incerto.

Aquele onde, por fim, floresceu,
De pétalas assim marchetadas
Em miríades de espírito meu,
As sapientes almas danadas.

quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

Almas do Engano


Lightning Spirits, by hibbary

Se andas a coberto do que pensas ver,
Desengana o resto que te diz que sim,
Que o dizer da mentira não se diz,
Só se concorda pela alma fraca,
Enredo obtuso de falhas caídas,
Com que recorto, rindo,
O clamor perdido
Das ditas almas.

As minhas almas.

quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

Predador


Não existe brava resposta
Ao que de invisível se chama
Morte e causa de morrer.
Não existe, quando caças
Disfarçado de cantiga e rosa.
De poema e alento, tão disfarçado,
Passo ante passo.
Que contas, perecidos aqueles d’outrora,
Fogosas mentes e almas sãs.
Contas e cantas pelas vielas,
Faces tão disformes de belas,
Que todas elas és.

(Poema pertencente ao VI capítulo do Prín.)

sábado, 5 de Setembro de 2009

Loucura


Unfurling 2, by Puimun

O silêncio clama teu nome
Sob a brisa da alva.
Um grito mudo de moribundo
Que ecoa lasso. Oh! Tão fraco,
À tua esguia alma.

Ignora-lo. Nada te é
O murmúrio que abranda
O nome do desvario.
Que te sabes ponto mais alto,
O da loucura infanta,

Sabes-te do mundo deusa,
Bela de santa vitória.
Aquela que mata quem não sabe,
Aquela que matou por saber,
O sabor férreo da glória.

Pois, da gente insana,
Sois dama, rainha e suserana.