sábado, 15 de junho de 2019

Quero perder a alma


Quero perder a alma. 
Da existência, 
Que fique somente a concha 
Vazia. 
Que o mar a leve 
No seu abraço. 


I want to lose my soul. 
Of existence, 
Let only the empty shell 
Remain. 
May the sea carry it 
In its embrace.


Ayalal,
04.Rova.4711

sábado, 11 de maio de 2019

Perdida


Perdida,
A inocência jaz esquecida
Nas mãos do mundo.

Encontra-a.

*

Lost,
Innocence lies forgotten
In the hands of the world.

Find it.

Hurad Duruvan

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Dar-te-ia a eternidade


Dar-te-ia a eternidade 
Pintada a ouro, 
Fosse ela liberdade 
E ancoradouro. 
Porém é somente prisão 
De quem vagueia 
Sem intento ou coração. 


I would give you eternity 
Painted in gold, 
If freedom and berth 
It were. 
But it is only the prison 
Of those who wander 
Without intent or heart.

Hurad Duruvan

quarta-feira, 24 de abril de 2019

A verdade quebra e toma a vida


A verdade quebra e toma a vida
Dos que criam os seus mundos de vidro
Com afiados fragmentos de mentira.

*

Truth breaks and takes the lives
Of those who create their glass worlds
With sharp fragments of lies.

Hurad Duruvan

terça-feira, 16 de abril de 2019

Vendi a alma aos deuses


Vendi a alma aos deuses
Que não o são.
Troquei-a pelo vazio de ser
E pela continuidade de viver
Sem coração.

*

I sold my soul to gods
Who are no more.
I exchanged it for the emptiness of being
And for the continuity of living
Without a heart.

Hurad Duruvan

quarta-feira, 27 de março de 2019

A Indignação dos Ignorantes


Indigna-se o ignorante 
Que não sabe 
Que o que julga saber 
É somente o que restou 
De quem ignora
O acto de conhecer.

*

Outraged is the ignorant
Who doesn’t know
That what he thinks he knows
Is only what remains
From who ignores
The act of knowing.


sábado, 23 de março de 2019

O que te diz o que passou?


O que te diz o que passou?
"Tarocchini di Bologna"
by Guiseppe Maria Mitelli,1664
O que te diz o que passará?
O que te diz o que foi,
E o que nunca será?

As cartas falam-te com o olhar
Que transcende o pensamento,
E são alma que ruma incerta
Por entre os segredos do Tempo.

Olvidam a escolha do que é,
Para que seja o espírito a escolher,
E indicam, sem indicar, o trilho
Do que poderá ser.

Por isso, sem demasiado pensares,
Decide pelo que te faz sentir,
Seguindo o rumo por ditar
E o Futuro por decidir.

*

What does ‘what happened’ tell you?
What does ‘what will happen’ say to you?
What do ‘what it was’
And ‘what will never be’ speak to you?

The cards talk with eyes
That transcend the thought,
And they are the soul that rummages uncertain
Through the secrets of Time.

They forget the choice of what it is,
So that your spirit may choose,
And they show, without showing,
The path of what can be.

So, without too much thought,
Decide for what makes you feel,
Following the unspoken road
And the undecided Future.

Dedicado à Suri.
Ayalal,
31.Arodus.4711

quarta-feira, 6 de março de 2019

Quando a Utopia adormece


Quando a Utopia adormece,
Sonha contigo
A ampará-la em teus braços.
Susténs-lhe o suspiro
Dos cansaços
E as lágrimas de desilusão,
E cantas-lhe esperança,
Enquanto pousas o Mundo
Na sua mão.


When Utopia falls asleep,
It dreams of you,
Holding it in your arms.
You sustain
Its sigh of weariness
And disillusion tears,
And sing it hope,
As you lay the World
On its hand.

Hurad Duruvan

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Há melancolia na voz do vento


Há melancolia na voz do vento;
Porém sorrio, de rosto erguido,
Ao engano de ser feliz.

*

In the voice of the wind there is melancholy;
But I smile, with my face upright,
To the deception of being happy.

Hurad Duruvan

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Por vezes perco-me


Por vezes perco-me,
Nos meandros de pensar que sou
Quem não sou;
Perco-me na nostalgia
De quem fui em tempos,
Sem o ser;
E pergunto-me se serei eu,
Ou outro alguém,
No nascer do amanhã.

*


Sometimes I lose myself
In the meanders of thinking that I am
Who I am not;
I lose myself in nostalgia
Of who I once was,
Without being it;
And I wonder if I will be me,
Or somebody else,
When tomorrow dawns.


Hurad Duruvan

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Há quem se habitue a viver


Há quem se habitue a viver, 
E viva porque sim.
Mesmo quando a vida não o quer,
É incapaz de a deixar partir,
Prendendo-a ao querer,
Sem saber
Que não deve existir.

*

Some people get used to living,
And live because they do.
Even when life does not want it,
They are unable to let it go,
Imprisoning it to their desire,
Unknowing
That it must not exist.

Hurad Duruvan

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Aves Sem Canto


Sem rosto, eles torturam e matam 
O pensamento de outrem, 
Para que não haja quem 
Seja livre de pensar. 

A razão é sua e só é livre 
Quem da liberdade deu a mão. 
Fechadas em sua prisão, 
São aves sem asas. 

E aves sem canto. 


With no face, they torture and kill 
The thought of others, 
So that no one is free 
To think. 

Reason is theirs and the only ones who are free 
Are those who gave up freedom. 
Locked in their prison, 
They are birds with no wings. 

And birds with no song.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Tentei falar com a incerteza


Tentei falar com a incerteza,
Mas as palavras duvidaram de si,
Como quem duvida da certeza
De existir.

*

I tried to speak with the uncertainty,
But the words doubted themselves,
As who doubts the certainty
Of existance.

Ayalal,
22.Sarenith.4711

sábado, 19 de janeiro de 2019

Tomei o veneno da mágoa


Tomei o veneno da mágoa 
E de mim adoeceu a alma. 

Tingi-me do negro da peste 
Pintada de um febril cansaço, 
E tremi com a dor crescente, 
Tumor senciente, 
E estilhaço. 

Sepultei a razão,
Na cova que era o mundo.

*

I took sorrow’s poison
And ill my soul became.

I dyed myself in the black of plague
Painted of a feverish weariness,
And trembled with the growing pain,
Sentient tumor,
And shard.

I buried reason
In the grave that was the world.

Ayalal,
21.Sarenith.4711

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A Vida fala-nos sobre a morte


A Vida fala-nos sobre a morte 
Da cobardia, 
E do definhar do medo 
De viver. 

*

Life speaks about the death 
Of cowardice, 
And the languishing of the fear 
Of living.

Ayalal,
19.Sarenith.4711

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Por vezes, canso-me de estar vivo


Acheron, Reinhold Kukla (1902)

Por vezes, canso-me de estar vivo
E sigo em passo incerto,
No limiar do crepúsculo que me estende a mão
E do sussurro da escuridão.

Vejo, no entanto caminho cego,
E a cada dia aguardo o amanhecer;
Tanto aguardo, que por vezes meu coração
Sente que aguarda em vão.

Porém, nunca paro.
Ela segue diante de mim,
Inspirando a vontade e prostrando a hesitação;
É à Esperança que dou a mão.

*

Sometimes I get tired of being alive
And I walk in uncertain step,
On the threshold of twilight that reaches out to me
And the whisper of darkness.

I see, but I walk blind,
And every day I wait for dawn;
I wait so long that sometimes
My heart feels that it vainly waits.

However I never rest,
Because It follows before me,
Inspiring the will and prostrating the hesitation;
It is to Hope that I give my hand.

Ayalal,
18.Sarenith.4711

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Oiço da insensatez o eco


Oiço da insensatez o eco 
Que entoa na memória… 
E silencio-o. Serei cego 
Àquela voz, de Vós, 
Que declama a vontade, 
E não verei
Amarga a saudade 
Que seduz.

Ayalal,
28, Arodus, 4711

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Oiço vozes de ninguém


Oiço vozes de ninguém,
Ao apagar a luz
Do olhar.
Oiço-as chamar,
Gritam,
E só de mim responde
O intangível
Escutar.

Bebo o eco da sua dor.
Consumo
Cada detalhe que se contorce,
Cada vestígio, cada suplício,
Cada suspiro sem ar,
E torno-os no rio
Que só na lágrima poderá
Desaguar.

*

I hear voices from no-one,
When I erase the light
From sight.
I hear them call,
They scream,
And only I answer
With intangible 
Listening.

I drink the echo of their pain.
I consume
Every detail that writhes,
Every vestige, every torment,
Every breathless sigh,
And turn them into the river
That only tears
Can drain.

Ayalal,
17, Sarenith, 4711

domingo, 23 de setembro de 2018

Pinta a noite com a essência dos sonhos


Pinta a noite com a essência dos sonhos 
E liberta-te no céu d’aguarela, 
Onde é teu o pincel e as tintas são 
Fragmentos de coração. 

*

Paint the night with the essence of dreams 
And free yourself in the sky of watercolor, 
Where the brush is yours and the inks are 
Fragments of heart.

Ayalal,
16.Sarenith.4711