sábado, 20 de setembro de 2008

Perdão


Verdades são tuas, as do coração,

E que mentiras soam aos outros!

Dedilham cruas cordas de fulgor,

Fúrias essas só em ti criadas,

Fúrias essas só em ti domadas,

Em veias palpitantes da razão.

Mas de perdão inunda-se o amor,

Flor que desabrocha utopias

De belezas inominadas!

Clemência santa de criança,

É essa a Deusa nossa,

É essa que perdoa e ama!

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Era uma vez...



Era assim uma vez
Era segredo era guardado
Que bela insensatez
Que destino que fado…

Era anjo demoníaco
Era donzela era o mal
Era engano aflito
De entendimento mortal

Que inconsciente dardeja
Que resvala que perdura
Que sem riso peleja
Cruel desventura.

Era verdade escondida
Era isso (era mais!)
Era sanidade perdida
Em sopros vendavais

Que enaltece a loucura
Que ama que odeia
Que vence em bravura
E em coragem estonteia.

Era adaga assassina
Era chaga era dor
Era trindade divina
E um pouco de amor

Que vence lutando
Que conquista que... tudo
Que respira rezando
Aos céus de veludo.

Era uma vez um dia
Era noite era luar
Era uma vez a magia
Do Reino do Ar

Que navega cantando
Que desatina que abraça
Que dorme sonhando
Ao som da barcaça.

Era uma vez uma Era
Era que é Era que vê
Que por Ser prospera
Que era aquilo que crê.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Saber



Dizes que não sabes,
Hesitas por estranhar,
O que um dia conheci,
No relembrar do olhar.

De uma delicada ave,
O cantar do rouxinol;
De uma obscura candura,
O pintar do luar;
Da ancestral estrela diurna,
O dançar do pôr-do-sol;
De eras memoráveis.
A escrita milenar.

Prosa e poesia,
São insanos milagres
As dádivas da sabedoria,
Versáteis, hereges,
Curiosos em demasia,
Meus, teus, nossos,
Fecundos na eternidade
Do renascer a cada dia.

Sente-se na ingénua criança,
Vê-se no antigo ancião,
Da efemeridade de uma flor campestre,
À imortalidade de um deus pagão.
Em Atenas reflectidos
O saber e perigos louvados,
Em guerras épicas, vãs,
Aos credos renegados.

Encanto assombroso, dir-me-ás,
Encanto grandioso, dir-te-ei.
Vozes, cantares surreais,
Em musas, ninfas, sereias;
Mitos, lendas reais,
Que a sabedoria divina
Veneram em águas pousadas
De belas sagradas Nereidas.

Dizes então que não sabes,
Muito mais queres saber,
No relembrar do olhar,
De um sopro do Ser.

domingo, 7 de setembro de 2008

Insatisfação



O dia nasce negro
E o coração escurece
Perdendo-se no erro
De que a alma padece.

Espero e nada vejo…
Caminho e nada encontro!
Quem vê invejo,
Quem encontra desencontro.

Suplico e reclamo,
Devolvo o abandono.
Diabólico é o engano
E o abandono assombroso.

Digo-me insatisfeito
Quero infinitamente mais:
A revolta do defeito,
As lágrimas que chorais.

Lamento por não as ter,
Lamento por desconfiar.
Nada mais pode haver
Que a mim possas entregar.

O que és não interessa,
Não o quero saber!
Mas minha alma inquieta
O teu espírito quer ter.

Nada que dizes é vão.
Vejo o mundo no olhar,
Vejo no teu coração
O inocente sonhar.

Pois és tudo o que há,
O sensível sorrir,
És a vida que dá
Ao coração que sentir.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Raios de Sol


Por entre céus de cinza,

Escapam almejados alumiares.

Sorriem à esperança, deusa santa,

Acenam à alegria que encanta,

Suas lembranças e pensares.

E são divinos, seus amores,

Embalo onde por fim acordastes:

Dançavam frescos de esplendores,

Em brumas subtis que sonhastes.

Por isso, silêncio à voz tremida.

Não temais valente horizonte,

Pois eles bailam pela vida.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Contradição


Olha, não olhes, não voltes a olhar.
Sempre o mesmo que espreita escondido,
Cintando o nariz à cara na falta de ar
Complexada do vidro da janela partido,
Esburacado, com calhas de vales abertos.

Vergonhoso!
Vergonha na vontade de voltar
Aos verdes vales abertos da janela
Dessa corrente de ar e ver…
Ver que se espelham montanhas,
Torres que tocam no céu do mar
Num delicado, enternecido beijar
De ceda feita a cetim
Mergulhado no ouro ornamentado,
Rico, rugoso rubi afogueado
Da face de um jasmim.

Chega! Recua!
Não consumas o paradoxo do sonho!
Não te risques da vida,
Não te obliteres da morte.
Não queiras ser um Deus morto
Nem em morto queiras ser um Deus,
Pois não o serás, mesmo que a imortalidade te mate
E te erga da morte neste sonho vivo.
Não terás jasmins,
Não terás torres que toquem no mar do céu ou no céu do mar,
Não terás nada, nada terás.

Cansas-me…
Não persistas mais e vai.
Deixa a janela, o vidro, o espelho,
O reflexo, a verdade, a mentira, o que for.
Nem tentes compreender que a compreensão é divina,
E tu Deus não és, ninguém o é,
Todos o somos e tu não és todos.

Tomando em consideração sem fim teorias,
Peço-te, imploro-te! Ordeno-te!
Vai… Não! Volta!
Não sei já o que digo. Confundes-me
Ao tentar nadar nesse riacho navegante,
Submerso na verdade mentirosa,
Romeira antiga.

Se o Sol se põe na morte,
Se nasce na vida destinada a morrer,
O que faço aqui contigo? Espero o final?
Recuso-me, assim como recusaste ir.
Bom-dia para ti, boa-noite para ninguém,
E que ninguém seja a vida.
A vida depois da morte?
A vida depois da vida!
Grandiosa, bela, imortal na imortalidade.
Nasce por nascer,
Nasce por viver,
Nasce por nascer e viver.
Brinca no arco-íris da vida,
Do claro ao escuro e do escuro ao claro.
Sê criança. Sorri, chora, faz chover.

Harpas, violinos,
Cordas que embalam o medo de morrer,
Embalem-no até ao sono eterno
Porque nós queremos viver!
Conhecer o fogo que gela
E o gelo que queima,
Ver os anjos que se dizem demónios
E os demónios que se dizem anjos,
Queremos o tudo que parece nada na insignificância,
Queremos o sonho surreal da realidade,
Queremos algo.

Destabilizado,
O bater de um coração parado que reanima,
Doce, seguro, extasiado,
Encantado junto a todo o corpo,
Em harmonia com o ser,
Com a mente afadigada.

Estilhaça a janela que te entrava,
Enigma reflectido nas asas do tempo.
Dá-me a mão e voemos!
Percamo-nos nessas montanhas de vales verdes
Com jasmins de vidro rubro.
Percamo-nos no céu do mar,
Nas torres infinitas.
Percamo-nos num mundo finito sem fim
Onde não há morte, nem o fado maldito
Que se reflecte em mim.

Ó antiga donzela invisível,
Princesa temporal do tempo incontestável,
Hei-me aqui, servo, Deus, algo mais,
Se algo mais houver para servir.
Ó sonho sonhado em suspiros
No recobro da vida por ti!

Só a ti sou fiel,
Só a ti, borboleta pálida verde em mim.
Verde da natureza, verde de esperança,
Ver de verde, vale verde,
Cansaço da alegre vida onde por fim morri.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Espadas


Passos melífluos são esses teus que danças,

Singelos, de espadas cruas e frias.

Essas que não conhecem dono,

Essas que deslizam suaves,

Por encantos que conhecias.

E sem amor amado,

Fieis ao sangue que se destila,

Correram, de lado a lado, o peito

Que no seu seio sustia

Cada pedaço despedaçado,

Dissolvido nas cadentes brisas

Do eterno fado que perdias.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Retrato Negro


Crio e recrio entranhas,
Pinto céus de manhas
Tuas por prazer.

Sorris só por sorte,
Risonho consorte,
Que me consome no morrer.

E és beleza sem sabor,
Sonho rebelde e desamor,
De ameias desdenhosas.

Choras rimas de lamentos,
Gritas vis os desalentos,
Das tuas túrgidas rosas.

E sem crepúsculo, noite ou dia,
Definhas, sombra luzidia
De bárbaro bucólico.

Não és deus, e se anjo és,
Corrompes santas as fés
Do santo demo diabólico.

Perco assim vinganças
E lanço ao mar lembranças
Vãs de tão vazias.

Retrato a negro pintado,
Baço de apagado,
És descuido que por fim fugias.

Morte!


Morte às armas, morte aos barões!
Morte! Que o destino a espada é trespassado
Por sedentos e vis leões.
Morte! Que desgraçado é este Passado
Nas garras do tempo apagado.

Morte ao Império, morte às lembranças!
Morte! Que a esperança, essa última já morreu,
Nas ameias que entranças.
Morte! Que os mortos são o que prometeu
Aquele Futuro nosso que se perdeu.

E que Presente é este, meio morto,
Que se não dá ao prazer da vida?
É o que se esvai, de pensar, absorto,
Nos erros da vida ida.
Por isso, Morte! Que a vida é fingida.
(Dedicado aos grandes poetas Luís de Camões e Fernando Pessoa)

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Recordações

Cicatrizes, feridas por sarar,
Quem as não tem? Quem as não quer dar?
Em olhares, beijos, paixões,
Em segredos, as tristes recordações.

Descansam assim vendadas,
Adormecidas ou acordadas.
Guardadas em vitrais,
Belas caixas, cristais.

São elas de alegria ou tristeza,
De raiva ou cruel certeza,
De infortúnio, proibidos amores imortais,
Do nada que é tudo, do tudo que é demais.

Por revelar, reveladas,
Doces e mortais baladas,
Que embalam o desespero do ser
E o acordam no cruel sofrer.

Raiadas, cravadas em ti
Num brilho imperfeito de si,
Um brilho transcendente,
Só enfim, envolvente.

Infinitamente para lá do longe,
De longínquas preces de monge.
Compurgadas nas suas Catedrais Divinas,
Sagradas recordações paladinas!

Sempre ali, a olhar-nos, a perscrutar-nos, a tormenta de sonhos que nos sustentam. Umas mais intensas, outras nem tanto. Contudo, o valor de cada uma é mais que o outro por serem únicas. Diferentes na igualdade, diferentes na diferença… diferentes.
Em cada brilho que se reflecte no prisma do olhar, espelham-se milhares de recordações comprimidas na serenidade da luz, por vezes não tão serenas como se pensa, muito pelo contrário. Quando desejam são selvagens, indomáveis, consumindo-nos vorazmente, despedaçando-nos e colando-nos em perfeitos defeitos. São elas, três vezes belas, perfeitas, consagradas, eternas!
Nascem da infância inocente do descuido frágil das rosas, eternizam-se no clamor retumbante do saber dos anos… são marcas, estações onde o comboio parou para o embarque e desembarque de sentimentos.
E aqui, na vida unificada por cada um em sonhos, estão nítidas ou escondidas na penumbra que cerca uma alma angustiada em fortalezas cerradas, as recordações, as memórias, as reminiscências do Ser, presas incorruptamente por correntes de seda de um espírito eterno, num corpo efémero que irá perder a existência após o derradeiro e simples suspiro do fim.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Criança Viúva

Quem me diz, sempre diz,
Que viver em vida
É não espreitar a Morte,
E estar vivo por ela
É espera-la com um ramo de flores
Como se esperam os amores
Para um jantar romântico.

Se espreitas por postigos
As entranhas dessa viúva
Não esperes ventura que te venha,
Pois essa foi em vida
De uma azarada sorte,
Foi aos céus estendida
Ao embalo da mortalha,
A prestigiada Morte.

Criança era, frágil e sensível,
A quem detestam os vivos
Por ser enigma incontestável,
E, para alguns, mais que terrível.

Vive agora, palpável aos invisíveis,
Num frio que gela os sorrisos
Esperando quem espreita
Por cadentes postigos,
A criança viúva que se enjeita
Nas flores dos amores
Dos seus pares perdidos.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Morte


Dita-te afirmações argutas

De melodia vagueando ao vazio,

Esse redor de silêncio murmurante.

Espraia-se lento no horizonte,

Abraçando rimas decaídas

Quais vis derradeiros amantes.

E juntos são feitiço e feiticeira,

Revolvendo mundos desnudos

Em contendas desamadas.

Rilham assim flautas de ossos,

E unos no clamor divino

São mística morte ronronada.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Esperança

Sentei-me e olhei em redor. A tarde caía no rumor das palavras enquanto as crianças traquinas corriam e saltitavam livres, pedalando bicicletas de pedais esvoaçantes que as erguiam à altura do infinito. Sim, como eram tão alegres! Perdiam-se nos meandros floridos da vida qual Alice no País das Maravilhas e rebolavam por eles, esquecendo mal e bem na sua inocência, cantando, gritando, sorrindo e gargalhando!

Era assim o passado deles, e assim era o meu. Passado perdido este meu que se perdeu. As flores desse jardim onde brincavam na eternidade murcharam sem os cristalinos sorrisos e das rosas nasceram cruéis espinhos. Labirintos inexpugnados floriram e ainda espreito por eles esperando o dia em que verei chegar aquela bicicleta azul do céu que erguerá véus distantes, num retumbante eclipse que sorrirá, na alva brancura que é tua e minha. No seu cestinho acriançando trará esperança, essa que agora se entrança em desfazadas malhas dubias, essa que quis fugir para os confins do coração, esse que já não bate, esse que falhou. Faltou-lhe sereno o sangue, faltou-lhe o apagado fulgor.

Nada mais direi, as palavras escoaram-se, levadas pela torrencial chuva que se abate da divina catedral que é o teu olhar. Ansierei a esperança, esperarei o amor, aqueles que divinos incendiarão espinhos e tornarão fértil o solo ardido de reclusão. Eclodirão papoilas na inocência que lhes é devida, seremos novamente crianças e brincaremos às escondidas neste mundo que nos esconde o prazer de viver. Não mais estará escondido, ocuparemos esse lugar com chilreares, canções dançantes e sinfonias de embalar. Pois nada mais temos e o que pensamos ter nada é. O vil pesar não existe, o ódio é simples ilusão. Cantemos, pois para isso nascemos, para estarmos vivos e viver!

“Como te chamas, estranho ser”, perguntas-me? Mas que interesse tem uma simples nomeação? Nenhum! Somos iguais e únicos. Somos efémeros e imortais seres com coração.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Vontades



Cintilam sinais e vontades
No canto vosso que oiço.
Erguem asas e voam
Do passado alegre ocioso.

Planeis rumo ao infinito,
E ele acena-te palavras incansáveis.
Espera-te de braços abertos,
Com beijos sábios e veneráveis.

Mas não desespereis
Pois canto esse é d’alento!
Sorri e não deixais de cantá-lo
Eterna essa brisa do vento.

E chegareis longe, a esse infinito
De universo inabalado.
Será vosso, só teu,
O fututo inacabado.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Amor Desamado


Silêncio ressentido, olhar cruel,

Foi esse teu que lançaste.

Cego ódio rancoroso,

Dardo de fel belicoso

De rumo ao profundo olvidado,

Na negritude dos anais.

E singras em veneno vasculado

De letífica vontade fatal.

Embustes são os teus

De vacuoso amor sentido,

Esse que não sentes

E em que só vês o Mal.

sábado, 24 de maio de 2008

Conto Entristecido


Conto tristezas, essas da vida,
Que abolem auroras de alentos
E talham da sarada chaga
A sangrenta aberta ferida.

Conto, mas incontáveis,
Tremem corruptas nas mãos,
Sensíveis ao vil palpitar.
Das loucas mentes dos sãos.

Oh! Mundo este cruel,
Que morre vendo morrer!
É de humanos, estes sublimes
Que bebem quente o seu fel.

Que prazer é o deles,
E porque não o sinto eu?
Sinto álgida a raiva
Que afrontou Prometeu.

Chamo a esperança destemida!
Onde estás donzela minha?
Célere se aproxima o Condenado
E eu clamo pela vida!

Vem de Nascente com o Pai.
Vem, porque te imploro,
Traz Deuses e Titãs,
Traz a sanidade que recordo!

Relembra dor e guerra,
A dor e guerra que conto
Não do passado perdido
Mas do presente que se perde!

A honra nada é mais,
O que sobra da paz adoece.
A glória é agora vergonha,
Esta minha que padece.

Devo, mas não quero contar
Conto este pesaroso,
Que embala sem adormecer
E faz chorar o virtuoso.
"Pois nos confins não há virtude que salve
O desdito Fado vosso..."
*

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Clausura de Ave


Inocência de canto doce
Correste livre na alegria.
Correste, não corres já,
Negras asas te prendem
À liberdade que possuis
Outrora d'outro, agora tua,
Essa liberdade desentendida.
Oh! E adoeces nela, de asas quebradas,
Pobre ave destemida!
O teu canto soou tarde,
Não mais podes ser escutada
Nas garras ledas da vida.

terça-feira, 22 de abril de 2008

O Acorde das Almas



“A vida é um fragmento destilado”

As teclas fluíam-me sob os pálidos e singelos dedos, descrevendo círculos complexos e viciantes num novo século que se consumia a si mesmo na monotonia que era a desgraça. Sim, disso tinha a certeza, e além de monótona, era inútil, vã como o tempo que não segue o seu trilho incontestável.
Tinha tudo previsto, no entanto irritava-me a demora com que os minutos passavam e o que era obrigada a fazer para o conseguir. Não importava, os fins justificavam os meios, e esses fins eram o meu Tudo.

“Que te deixa presa na sagacidade do que queres.”

A tecla errada revibrou no ambiente denso do palácio, e um rosnar furioso fez-se ouvir. Enganara-me novamente, sempre e repetitivamente no mesmo e diabólico compasso. Tirei as mãos timidamente do piano, deixando-as descansar no colo, pronta para ouvir o meu mestre criticar e ofender-me.
O que fazer? Detestava aquele instrumento, e aquelas melodias alegres que me obrigavam a encenar e a tocar para a corte, num tom idílico desprezível. Nada mais eram que hipocrisias. E eu queria a verdade, queria o som suave e triste que manipulava e, por fim, despedaçava a alma.

“Sussurra-te pecados destemidos, actos dramáticos desentendidos”

Ergui-me do banco, antes que o meu mestre me impedisse e fizesse repetir toda aquela tortura até não existirem quaisquer imperfeições. Não voltaria a repetir a proeza, pelo menos com aquele ser nauseante mergulhado em perfume de narcisos. Dar-lhe-ia a conhecer o verdadeiro e sublime acorde dos anjos. Nada me faria mais feliz, nada me faria mais viva e nada me faria mais imortal.
- Onde ides, Senhora? – Perguntou-me Amaranto.
- Se me quiser seguir, mostrar-lhe-ei algo por que se irá apaixonar – declarei, escondendo o sorriso que senti, delicioso de prazer, florir nos meus lábios e brilhar nos meus olhos de esmeralda. Ao fim de tanto tempo, era só a sua voz que desejava ouvir, o seu canto acetinado.
- Ao que se refere?
- Limite-se a seguir-me e revelar-lho-ei.
O que mais poderia ele fazer? Poderia ser o meu enfadonho e teimoso mestre de piano, todavia a minha pessoa era a herdeira do que o rodeava, a primogénita e única filha dos senhores do condado, durante séculos.

“Que desejas por os temeres.”

Seguimos por um corredor claro, repleto de retratos antigos e inundado por uma luz que seria a do Sol. Nesse momento esses vagos pormenores eram supérfluos. A minha fome aumentava à medida que me aproximava de uma das salas de arrecadação que raramente era visitada, sem ser por mim, e pelos convidados que, por vezes, guiava até lá, no intuito de agradar, mais do que algumas vez imaginaram ou desejaram. No simples preâmbulo de um acorde, elevavam-se ao céu e, com sorte ou sem ela, não regressavam, pois tornavam-se eternamente meus.
Abri a porta bordejada a dourado e entrei, ouvindo o retinir ansioso dos meus saltos abafarem-se na camada de pó que cobria o chão. Não eram já visíveis as marcas da minha última visita, mas o meu grande amor encontrava-se lá, esperando desejoso por mim.

“Oh! Não sentes, não ouves, não vês, na tua ânsia descabida de mortal!”

Ouvi a porta a fechar-se atrás de mim. E sabia que fora ele a fazê-lo. O meu mestre de piano olhava-me curioso, e intimamente receava. Para ele a porta fechara-se sozinha, talvez com uma forte corrente de ar, que por nenhum de nós fora sentida. Eram pequenos pormenores que o descuido e a insensatez deveriam ter levado em conta, mas não o fizeram.
Um sorriso audacioso crescia-lhe nos lábios de uma forma que se me afigurava inebriante. Retribui-lho. Nada como abrir o apetite aos outros, quando o nosso está já faminto. É da forma que será agradável para os dois... por poucos segundos.
Avancei por entre a desarrumação da ampla sala e pelos lençóis fantasmagóricos que cobriam a mobília secular. Incentivei-o a fazê-lo também. Como era divertido senti-lo olhar-me daquela forma tão peculiar de expectativa! Definitivamente, esperava-o uma grande surpresa.

“O Tudo é florido, mas quando murcho é um desengano sem mal.”

Finalmente, a sala chegou ao fim. Uma baixa e larga cómoda poeirenta, com rebordos talhados primorosamente, repousava encostada à parede, e, sobre ela, jazia adormecido o meu amante no seu pequeno caixão negro, forrado de veludo vermelho.
O silêncio era tudo o que parecia rodear-nos naquela atmosfera pesada de semi-escuridão. Mas só os inocentes e descuidados se fiam nas aparências. Eu sabia o que se enclausurava naquele mausoléu da realeza e Amaranto estava prestes a descobri-lo. Muitos pensariam que não da melhor forma.
Mas o que sabiam os anciões que dizem dominar o que é fervoroso na sabedoria? O facto é que não o sei, mas uma coisa é certa, a vida que têm não supera a dos ignorantes que nada sabem e que são felizes. Era o que se passava com este pianista, pensava saber o que se iria suceder. O seu erro guiá-lo-ia ao nada do vazio, como um alquimista que se engana no ingrediente e não cria a Pedra Filosofal, mas um veneno que traçará o fim do que um dia começou.

“O prenúncio aproxima-se, e o canto de sereia aguarda por nós.”

O mestre de piano, apesar de não ter já a certeza de o poder chamar assim, observou-me inquieto, enquanto eu retirava aquele doce instrumento musical do seu lugar de repouso. Era negro como as vestes da morte, e brilhava no tom intemporal da sua foice, tal como os meus cabelos dourados.
Deixei-me ficar de pé, acariciando-o levemente antes de o levar ao ombro. Como me chamava intensamente, e como eu o desejava mais que ardentemente! Tão doce e suave, tão cruel e mortal, o meu etéreo violino negro.
Toquei levemente com o arco nas cordas esticadas que me embalavam e esperei, esperei por um sinal que não se demorou a vir ao meu encontro. Senti um toque frio na minha face, a mão de Amaranto. Nesse momento, o arco deslizou num tom fino e prolongado, fazendo saltar o meu coração, por vezes parado. Os meus lábios formaram uma palavra raramente pronunciada, enquanto tocava a pendente melancolia da música, sem suster o deleite que me invadia, o que levou o meu mestre a beijar-me a têmpora. No entanto, o “imploro-te” não se destinava a ele, mas sim ao meu amado suserano.

“Ressoa então sinfonia do alento, para que te oiçam no teu acolher.”

Os meus olhos estavam fechados quando, pouco depois de sentir uma mão na minha elegante cintura, ouvi uma tentativa de resfolegar, todavia uma tentativa infrutífera. Abri-os. Queria ver aquilo a acontecer.
Amaranto fitava-me horrorizado, apesar de só ver a beleza de um par apaixonado: uma jovem dama caída do céu e o seu conjugue agora quase visível na sua palidez. O horror do mestre de piano provinha das dores que lhe banhavam o corpo, rasgando-lhe as entranhas pútridas, devorando cada pedaço que nunca mais seria seu. Era aquele o toque amaldiçoado dos anjos, o toque das almas.
Os acordes do violino continuaram a envolver-nos num labirinto que se tornava denso e tocável. Em meu redor o invisível tomava forma e apossava-se do que lhe oferecia. Era a última, a milésima alma que era devida ao mundo que se anuncia para lá do que fica para trás.

“A ancestral magia do renascer é tua,”

Parei, exausta com aquela melodia esquartejante. Também a minha alma estava há muito retalhada. No entanto, a imortalidade vivera em mim como um pesadelo que se precede à bonança, e agora, chegara do fim dos mundos alguém para me sarar. Alguém por quem esperara e esperaria infinitamente nas eras do tempo.
Dois braços envolveram-me num abraço. Não era Amaranto. O seu corpo jazia vazio a meus pés, enquanto a sua alma se esvaía para não mais voltar. O sacrifício final tinha sido executado, e os remorsos não se condensavam no meu coração. Só o queria a ele, o demónio que me conquistara na imensidão do Inferno que era aquele mundo. Para sempre juntos, alimentando-nos dos espíritos que se libertavam com o canto sagrado dos deuses. Para sempre nosso seria o acorde das almas.

“E eu sou teu por te pertencer.”

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Anónimo


Passos soam sem os ouvires,
Ecoam num espaço infinito,
Penetrando no fundo da mente,
Mais fundo do que imaginas,
Por entre os lapsos da razão.

Algures banido, ser anónimo,
Coração disperso, fadiga e fome de nada,
No seu olhar espelha-se a dúvida,
A incerteza de que tudo se reflecte
Num incompleto discurso poético.

Vê-se-lhe a sombra, sente-se a forma,
Mas a alma é algo distante,
Perpétua e bela essa falha,
Que devaneios etéreos trespassam
Deixando-a sucumbida na lassidão.

Enigma letal em dose excessiva,
Nessas palavras que hipnotizam a morte,
Um relampejo enganador que lateja
Num véu predestinado
De algo impreciso, desbotado.

Mesquinha cobardia a tua,
Nesse esgar que nada exprime,
Doente, perversa, cruel ansiedade,
Reticente e curioso encanto,
Que fazes lançar em mim.

Pois esse claustro em que te encerras,
É uma máscara que fere,
Fere o mundo, fere-te a ti
Num eterno anonimato que te deixa
Desfeito num corpo por desfazer.