sábado, 29 de outubro de 2011

A Bênção da Floresta

Perdido. Sir Ludovic estava completamente perdido numa floresta pintada de branco mas que, daí a menos de uma hora, seria terrivelmente negra. Quase conseguia pressentir os uivos do anoitecer, que lhe farejariam o rasto, esfomeados, sedentos da sua carne e sangue. E, por essa razão, não poderia parar.

A cada passo, as botas enterravam-se na neve gélida dificultando-lhe a jornada, como se também ela lhe conjurasse um destino fúnebre. O ar saía-lhe da boca condensado, revelando o quão grande era a diferença de temperatura entre o corpo e o ambiente em redor. E a mão que segurava a besta já mal conseguia mover os dedos, deixando que Ludovic pusesse em causa a utilidade que teria em caso de um ataque surpresa. Matá-lo-iam e o cadáver devorado até aos ossos seria depois encoberto por algum nevão.

Fizera mal em pensar nisso. Como se as nuvens lhe escutassem a mente, deixaram escapar pedaços congelados delas próprias e a neve começou novamente a polvilhar a região. Mas o tom cinzento do céu agoirava uma noite árdua. Se parasse para descansar, congelaria e não voltaria a acordar.

Como adivinhara, menos de uma hora depois de as trevas se instalarem na floresta, escutou o chamamento dos lobos que partiam em busca de alimento. Mas existiam criaturas mais temidas que os membros de uma alcateia, seres feitos de sombra que rastejavam aos pés das presas e as engoliam, e mesmo as próprias árvores dizia-se que atacavam as pessoas por falta de nutrientes junto às raízes. Quem nunca fora ali pensaria que eram só descrições de loucos e trapaceiros, mas Ludovic preferia não arriscar essas ideias ou subestimar a Floresta.

Vagueou durante horas, na mais densa escuridão, sem mostras de aproximação de um único predador. Tentou que os passos fossem silenciosos, que o vento disfarçasse a sua presença e que o frio inutilizasse o faro dos inimigos, tal como lhe congelava o nariz. No entanto, numa situação de cegueira como aquela, era inegável a sensação de estar a ser observado.

De súbito, deixou de conseguir mover as pernas, como se estas se tivessem enterrado num lodo muito espesso. Praguejou interiormente. Fora capturado por um Pesadelo de Sombra, um ser que rastejava sem se escutar e que era feito de escuridão. Quando capturava uma presa, não deixava qualquer vestígio dela. Sem precisar de muita pontaria, Ludovic apontou a besta para baixo e carregou no gatilho, quase não se importando que pudesse acertar nos próprios pés. Felizmente, não foi o caso. Um guincho de dor baixo destilou-se da consistência pouco material da criatura, no entanto ela não lhe libertou as pernas, insistindo em tê-lo como refeição. Voltou a carregar a besta, porém o monstro começou a absorvê-lo, enterrando-o em si. Quanto mais tentava fugir, mais desaparecia.

Foi quando sentiu como que duas serpentes a envolverem-lhe os pulsos e a puxarem-no. Numa ocasião normal, tal não teria resultado, porém a criatura deixou-o ir, libertando-o das suas mandíbulas sem dentes e ainda assim mortais. Ficou pendente no ar, sem ver nada em seu redor, sem saber o que se passava na realidade. Mas aquilo que o agarrara movimentava-se também, sentia-se balançar no ar como um fantoche.

- Larga-me… - rosnou, puxando os braços com força. – Maldição… maldição! Maldita floresta do demónio!

A constrição em redor dos seus pulsos aumentou, como se o ser que o prendia não tivesse gostado da ofensa. Pouco tempo depois, sentiu as costas baterem de encontro ao tronco de uma árvore, no entanto este não se manteve rígido e imóvel. A madeira começou a ganhar uma concavidade, para a qual era empurrado gradualmente. Antes de poder fugir, a concavidade acabou por se fechar, como se o tronco da árvore o tivesse comido. Berrou até a garganta arranhada ser incapaz de fazer muitos mais sons. Só quando o silêncio em redor foi mais forte é que a escutou, uma voz que lhe sussurrava, vinda da madeira da árvore, pairando junto a si.

“Nobre cavaleiro, descansai, estais seguro” dizia, num tom suave, feminino, lembrando-lhe uma fada. Talvez fosse mesmo uma. Ou um espírito que o quisesse matar, mas era impossível fugir, de qualquer forma. “Ele não te poderá alcançar aqui. Dorme nos meus braços, nada temeis da floresta. Os corações puros serão poupados”.

- Quem és? – Quis saber Ludovic, piscando os olhos na escuridão. – O que queres de mim? Sê sincera!

Estranhamente, sentiu um leve estremecer no interior da árvore, como se ela se ressentisse com a aspereza. Como se fosse demasiado sensível, tal e qual uma donzela.

“Não vos desejo mal, cavaleiro. Quero apenas auxiliar na demanda que vos leva para longe da floresta, e nada peço em troca”, sussurrou.

- Quem és, então? – Repetiu, franzindo as sobrancelhas.

“Ninguém. Perdi o nome há muitos anos atrás”, respondeu apenas, deixando-se depois cair em silêncio.

Ludovic não fez mais questões. A parte lógica da sua mente dizia-lhe para desconfiar daquele ser. A parte emotiva queria confiar na voz frágil da árvore. Em todo o caso, tentou manter-se atento. Porém o sono, naquele aconchego estranho, chegou depressa e tomou conta de si, embalando-o no interior do tronco.

Foi a brisa fria que o despertou, como um estalo forte. Tremeu e abriu os olhos, deparando-se com o manto branco que cobria o solo da floresta. Ainda estava encaixado na madeira, mas apressou-se a saltar dela, observando depois aquilo que o ajudara na noite passada. Era simplesmente uma árvore despida, os ramos tão nus quanto um bebé que chega ao mundo. O vento agitava-os, dando-lhe um estranho aspecto de aceno à despedida.

- Obrigado – sussurrou, com sinceridade. Fez uma leve vénia antes de partir. O Sol nascera há pouco tempo, por isso ainda teria luz durante várias horas. Tinha de as aproveitar.

Caminhou incansavelmente, ignorando o estômago que o torturava. Por vezes olhava para trás, pensando escutar algum rastejo furtivo, mas nada via. Sentiu que a noite chegou demasiado depressa, e com ela o predador voltou a atacá-lo sem hesitação. Ludovic pensou que não se safaria dessa vez, todavia novamente a Floresta o auxiliou, novamente a árvore mais próxima de si o incorporou, salvando-o. Desta vez não esperneou nem esbracejou, deixando-se simplesmente levar.

- Obrigado, novamente – disse, já no interior do tronco. Pousou uma mão na madeira macia e um pouco morna. – Continuo sem compreender porque me ajudas, mas devo-te a vida e gostaria de retribuir.

“O único contributo que desejo é que continueis a viver”, disse a mesma voz da outra noite. “A vida é sagrada”.

- Na verdade não sei se duro muito mais – declarou, com uma certa ironia. – Não sobrevivo da neve. Mas agradeço o t… seu esforço.

Repensou o modo do tratamento para alguém que o salvava pela segunda vez sem pedir nada em troca.

“Posso alimentar-vos, se o permitir, com a minha seiva de reserva”.

- Seiva…? Como? – Mal colocou a questão, escutou a madeira mover-se e uma extensão criada pela árvore tocou-lhe os lábios. Para eles escorreu primeiro uma gota doce, em modo de prova. Ludovic tomou-a, agradecido. Pouco depois bebia avidamente todo o espesso líquido que lhe era dado. Mas depressa acabou a sua refeição.

- Quero sinceramente agradecer-lhe. Deixai-me, por favor – implorou, fazendo uma festa na madeira, já que a árvore não tinha mãos. Já lhe dera tanta salvaguarda…

“Um beijo”, foi o que a árvore disse, ainda mais baixo, como se pudesse ser censurada e tivesse a esperança de que ele não a escutasse.

- Um beijo? – Estava impávido. – Desejais o beijo de um homem?

Não houve resposta para a sua questão. A árvore estava arrependida do que ousara dizer. Ludovic ponderou por um pouco sobre qual poderia ser o significado de tudo aquilo.

- Dar-te-ei um beijo, quando sair daqui – declarou. Seria tolo se não desse ouvidos à cautela. Existiam tantas histórias que descreviam o final trágico a que um beijo poderia levar…

A árvore não voltou a falar e o ambiente no interior do tronco pareceu tornar-se algo pesado, soturno. Ele tentou não pensar no assunto e, pouco depois, adormeceu.

Vários dias passaram, durante os quais a dormida na árvore se tornou regular. Ela foi sempre educada e nunca mais tocou no assunto do beijo. Ludovic acabou por se descobrir a falar com ela, contando-lhe a sua vida pouco amável e trabalhadora. O espírito que habitava as árvores foi sempre um ouvinte atento.

Até ao dia em que a noite caiu e as luzes da povoação já se conseguiam distinguir por entre os troncos da floresta agora menos densa. Olhou indeciso para as árvores em seu redor, perguntando-se qual delas escolher, para falar. Acercou-se do tronco mais próximo.

- Árvore? – Perguntou, por falta de nome mais específico. Nada aconteceu. – Preciso de falar contigo. Responde-me, por favor.

A única resposta que obteve foi a do vento, soprando álgido e insensível. Foi então até outra árvore e tentou falar com essa também. Aconteceu o mesmo. O espírito parecia já não estar ali. Ludovic sentiu-se como que abandonado e um vazio estranho preencheu-o. Era só uma árvore, não era? Porque haveria de se sentir assim? Na verdade, durante aqueles últimos dias, não a considerara tanto como uma planta mas como uma donzela. Aconchegara-o no seu corpo como se fosse uma, dera-lhe um carinho que há muito não sentia vindo de alguém, e de modo tão desinteressado! E agora parecia ter desaparecido. Abanou a cabeça, tão desiludido como se fosse uma verdadeira mulher a deixá-lo para trás, fugindo para os braços de outro, talvez um viajante perdido que necessitava do seu auxílio.

- Prometi-lhe um beijo – sussurrou para si, com a mão apoiada no tronco. – Espero que ela o sinta.

Aproximou os lábios do tronco repleto de nós, e pousou-os levemente na casca áspera, por alguns segundos. Quase que esperava sentir outros lábios corresponderem àquele beijo, mas tal não aconteceu.

- Adeus – sussurrou, fazendo uma última festa no tronco, antes de voltar costas. Os passos que o levavam para longe eram lentos, em comparação com aqueles que já caminhara.

Quando abandonou a floresta, olhou para trás, como última despedida. No entanto, as sobrancelhas ergueram-se quase de modo próprio ao ver uma jovem a observá-lo da fronteira que separava a floresta das restantes terras níveas. O cabelo preto, comprido e desalinhado emoldurava-lhe o rosto delicado e muito claro. A cor de safira do seu olhar alcançava-o, mas não se moveu para ir ter com ele. Era uma imagem triste e solitária, de pés descalços, dentro de um vestido branco que se camuflava com a neve, lembrando um fantasma a adejar na brisa. Fora o beijo que a fizera surgir?

Ludovic hesitou só por um segundo antes de dar meia volta e correr para ela. A donzela desconhecida piscou os olhos, sem compreender porque corria ele para si daquela forma e abrindo os braços ao mesmo tempo. Nunca ninguém lhe fizera aquilo. A maioria fugia quando a via. Sentiu-se abraçada de modo um pouco bruto mas terno e encolheu-se contra aquele corpo forte, estremecendo de frio pela primeira vez em muito tempo.

- Vem para minha casa, estás tão fria – notou Ludovic, sem a largar. – Vem comigo, quero agradecer-te por tudo.

Ela abanou a cabeça, sem dizer uma palavra. Dentro da sua mente escutou a voz feminina com que a árvore sempre lhe falara.

“Não posso ir. O vosso beijo foi o suficiente, nobre senhor”.

- Não aceito – declarou com firmeza. – Diz-me o porquê de não poderes.

Apartou o abraço para a poder fitar nos olhos. Estes desviaram-se dos seus, sem lhe dar resposta. Ficaram um pouco mais brilhantes, revelando as lágrimas que tentava conter. Ludovic agarrou-lhe o rosto com ambas as mãos.

- Fica comigo, deixa-me cuidar de ti. O que te prende a este sítio? Permite-me que quebre essas correntes – implorou. Lembrava-lhe tanto uma criança perdida. A donzela abanou a cabeça simplesmente. – Então… fico contigo na floresta.

Os olhos azuis da jovem abriram-se muito, completamente estupefacta ao ouvir aquilo.

“Porque… porque farias isso?!”, quis saber, sem abrir os lábios sequer. Talvez fosse muda.

- Porque, de agora em diante, és a senhora do meu coração – respondeu, encontrando-lhe os lábios para um novo beijo apaixonado, observados pela noite e pela neve de Inverno.

Nenhuma das suas palavras mentia e assim quebrou-se o encantamento que prendia aquela jovem donzela à floresta, aquele que a fazia vaguear de árvore em árvore, como uma guardiã e prisioneira que espera a hora de partir nos braços de quem ama. Na aldeia receberam-nos de olhares desconfiados, contudo, com o passar dos anos, a estranha jovem que não falava integrou-se. Não obstante isso, a Floresta continuou com todas as suas lendas. Aquela era só mais uma para juntar ao folclore da região. Uma história de amor entre um cavaleiro e uma donzela encantada sem nome.

1 comentário:

Augusto Branco disse...

Olá! ;D

Venho te convidar para conhecer o mais novo livro de minha autoria: O POMO DE OURO.

SINOPSE: Henrique foi instruído nos mistérios da Maçonaria desde criança e tornou-se um bom Mestre Maçom. Entretanto, por ocasião dos atentados ao World Trade Center, no dia 11 de setembro de 2001, Henrique descobriu coisas tão perturbadoras que fizeram ele se afastar da Maçonaria e isolar-se do mundo, até que sua amiga Eva Cristina foi procurá-lo para ajudá-la a decifrar um código que o pai dela havia deixado numa carta antes de falecer em suas explorações arqueológicas. A partir daí, Henrique se vê obrigado a usar de seus conhecimentos secretos da Maçonaria para ajudar Eva a encontrar e devolver a quem de direito um objeto do qual depende o futuro da humanidade: o pomo de ouro.

Com uma narrativa dinâmica e envolvente para uma trama repleta de mistério, aventura e reviravoltas, o leitor é apresentado a uma série de contradições envolvendo os atentados de 11 de setembro, se torna conhecedor das mentiras da Igreja Católica e dos mais finos mistérios da Maçonaria, além de ficar a par da interpretação contundente de um conjunto de profecias que parece estar se concretizando a todo o momento em nosso tempo.

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Espero que goste da leitura.

Um grande abraço pra você! ;D