domingo, 14 de março de 2010

Uma Batalha Interior

"Na sua semi-consciência, conseguia sentir um dos braços movimentar-se, derrotando uma fraca força carnal, enquanto rompia novamente a pele e os músculos do homem à sua frente. Um gemido empurrou-a, obrigando-a a voltar ao mundo real, contra a sua própria vontade, enfrentando o esgar de dor que maculava a face de Landar. Quanta crueldade era aquela a da mente que a controlava, e quanta era a raiva que a invadia, tentando superar a dor psicológica, fervendo-lhe o sangue que corria nos vasos, enquanto as dúbias lágrimas escorriam por si e pelos amigos. Voltou a fechar os olhos, ciente da força com que os dedos se crispavam na serpente que atacava o elfo, e deixou-se guiar pelo perigoso temperamento, aprofundando-se nos confins obscuros da mente, até encontrar a intrusa. Não necessitou de vaguear indefinidamente, como fizera muitos anos atrás, para descobrir Vinyriah. Agora, a simples e persistente vontade de a querer defrontar, serviria de catalisador para a sua alma ir de encontro ao pontual local onde a fracção de Sereneia se encontrava, num pequeno e mais que ínfimo instante. Pois aquele era o irrevogável território de Liriana, o território que poderia moldar e transformar, com base em ilusões, a seu belo prazer. Nunca antes sentira a necessidade de fazê-lo, mas era a hora da primeira vez.

Cada passo que dava começou a ecoar, como se saltasse sobre poças, salpicando o negro redor que aos poucos foi clareando, às suas ordens, até se transformar num crepúsculo imenso e sem fim, como outrora fora a escuridão. O chão era feito da mais pura água, sobre a qual se sustinha em pé, contrariando a gravidade que a levaria a penetrar o sensível espelho ondulante, afundando-se. Ao longe, mas não realmente longe dali, conseguiu vislumbrar o que muito provavelmente seria uma ilhota impossibilitada de se mover, o pedaço de terra que salvaguardava Sereneia, dando-lhe segurança e pé firme, para que não se afogasse naquelas águas que não conseguia respirar. Mais um passo e, não só se aproximou da ilha, como a ilha se aproximou de si, atraída pela sua vontade, revelando como deturpadas eram as distâncias naquela sua terra. Era ela quem as definia.

Sereneia encontrava-se de pé, no centro da ilha. Os braços estavam abertos, as palmas das mãos encontravam-se voltadas para fora, enquanto os dedos apontavam para o estranho céu sem Lua, estrelas ou nuvens, consideravelmente afastados uns dos outros. Os orbes da mulher encontravam-se vítreos, fitos num mundo que não aquele. O que Liriana via não passava de uma pequena parcela da ciana, a parcela que se infiltrava nas mentes de outros, despercebidamente, através da voz, num local sensível do sistema nervoso central. Colocou um pé em terra, deixando pegadas das suas botas, na areia negra. O único ser vivo que ali se encontrava, alheara-se da sua chegada, não suspeitando sequer do quanto se avizinhavam. Não hesitou na sua aproximação silenciosa. Uma estranha ânsia apoderava-se de si, uma vontade da qual se envergonhava. Desejava magoar aquela mulher, tal e qual como ela magoava Landar. Se não era vontade de vingança a que sentia, não sabia o que mais poderia ser. Parou de frente para Sereneia, a menos de dez centímetros. Observou os bordados do seu vestido azul e lilás, enquanto reparava que a mulher era pouco mais alta que ela. No entanto, sentia-a ínfima, naquele lugar. Levantou os braços, lentamente, e deixou que as mãos se aproximassem do pescoço dela com um intento próprio bem definido. O que tencionava fazer conferia-lhe um certo prazer de realização há muito esperado. Porém…

As mãos detiveram-se abruptamente antes que os dedos resolvessem envolver o pescoço alto e elegante de Sereneia. Não podia fazê-lo. Estaria a tornar-se numa assassina, o mesmo que aquela gente era e o mesmo em que Vinyriah se tornara. Aquele ódio seria a própria sentença da sua alma, para além de que, estrangular aquela fracção de pessoa, não passaria de levar a cabo um instinto egoísta e bárbaro. Aquele concentrado espectro simplesmente fugiria do seu alcance, antes que pudesse fazer algo mais, deixando-a somente com o tremendo peso na consciência de ter tentado matar alguém, sem que o real motivo fosse salvar os seus amigos.

Os braços caíram ao lado do corpo, permitindo-se a respirar fundo, razoavelmente mais calma, depois daquela pequena batalha interior que conseguira vencer sozinha. Todavia, desse dia em diante, não esqueceria facilmente aquela sensação terrível que a satisfizera por momentos."

Fragmento do Príncipe do Mar do Interior
(Porque me apetecia pôr alguma coisa por estes lados xD)

2 comentários:

Kath disse...

Tens de me mandar o Prin!

Leto of the Crows disse...

Mas eu mandei! *.*