sábado, 4 de outubro de 2008

Serpente

Em ti
Nasci e vivi,
Morri e nasci novamente,
Como que um vento
Que sopra dormente
Num leito consumido
Por um Deus eleito
Nas ameias do respeito.

Reforça-te, destroça-te,
Devora-te num esgar.
Sente os sentidos sentimentais
Servidos em santos
Sagrados por os demais,
E ergue-te do sono
Sonolento ou sonhador
Que sentado se encontra
Entre os anais de um andor.

Logo ouvirás o canto
Ou talvez o grito
De um aflito desdito
Que foge à fuga da manhã
Numa sorte ou azar
De um fado maldito;
Beijo esse que afastas
Num repugnante sorriso.

Por fim ascende-te,
Deambula no paraíso,
Revolteia as palavras.
Prende-te nesse dito friso
Que é a real vida
Da real serpente sem ela,
Fria, cruel donzela,
Mortalha de medo, e sim,
Coberta que a cobre
Num vasto deleite
Nascido em ti
Onde também eu nasci,
Nasci e vivi,
Morri e nasci novamente,
Como que um vento
Que sopra dormente
Num leito consumido
Por um Deus desfeito
E não eleito
Nas ameias do respeito.

3 comentários:

Kath disse...

Gostei da aliteração na segunda estrofe, e, principalmente, da maneira como combina com o título. (Mas gosto mais da aliteração do outro. :p) És uma mestre das palavras.

Lord of Erewhon disse...

Tens que ler mais sobre simbologia cristã, esoterismo, luciferismo, alquimia, etc, se queres escrever poesia com símbolos como este.

Dark kiss.

Leto of the Crows disse...

Talvez tenhas razão, no entanto, quando escrevi o poema, não pensei na simbologia que a serpente pudesse ter em religiões, filosofias e afins, apesar de ter uma vaga ideia das simbologias que possa ter numa ou outra, simbologias por vezes opostas.
O tema foi esse, principalmente por ser um animal de que muito gosto.

Beijos!