sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A Muralha



Nos altos vagos da maresia,
Cantastes teu canto.
Mar a dentro, mar de pranto,
Lágrimas escorridas ao largo,
Bater constante de fulgor pardo,
Em rochedos de consciência fria.

É essa Muralha que se ergue além,
Infinita de fim.
Essa Muralha que te prende a mim,
Laços constritos de lendas,
Fogos-fátuos em que atentas,
Vazio o teu canto de ninguém.

Que não tombam as torres,
Não afogas ameias.
Não afrontas mitos nem teias
De sonhos, estrelas caídas da lembrança.
Não destronas, não amansas,
Dita a dinastia dos defensores.

Que o canto teu não alcança
Escutares dos céus.
No alto da Muralha são os meus
Falares que ditam, Sereia.
Que o teu canto só enleia
Os abandonos da esperança.

No entanto, nada és sem mim,
Ó doce donzela.
Nada és sem a chama da vela
Que encandeia os cegos defuntos
E os atira da muralha para teus profundos
Cantos insanos sem confim.

3 comentários:

Joli disse...

Não quero exagerar, mas este é mesmo um dos meus favoritos, e talvez um dos teus melhores. Simples e lindo ^^

Leto of the Crows disse...

Mui agradecia, Joli ^^

Isto revela que também és um ser vil, gostas de atirar pessoas das muralhas... só espero não ser eu a próxima *fear*

João Afonso Adamastor disse...

Sem dúvida um dos meus favoritos, em parte concordo com a Joli...

Trata-se de facto de um poema sublime, tanto na forma, na rima, no ritmo ou, até mesmo, na conjunção dos sentidos. Mesmo assim, sem receio de exagerar amplamente, acredito que pela graciosidade (ou um outro termo suficientemente vil que te agrade) com que escreves, os melhores poemas ainda estão por vir e serão coerentemente capazes de surpreender o mais ávido leitor.

... Em suma, distinto e aprazível!

:D