quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Ontem acabou o Mundo



Ontem acabou o Mundo.
Ficou da vida a história
Da consciência lancetada,
Perdida, escória
E lixo de faminto fedor,
Que era visto o horror
Mas quem via era cego,
Não senciente à dor.

Hoje são pútridos
Os restos de actos e palavras,
Chagas desamparadas,
Que delas fugiu a cura.
Na pustulenta, infecta memória,
É veneno genocida
O que conta, contraditória,
A lembrança ida.

Amanhã será pó
Sem fértil medida,
Nada, conteúdo vazio
Vindo do sem vida.
No esquecimento,
Que nada o lembrará,
Será mundo ao vento,
E o vento o levará…

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Sortilégio, Feitiço e Magia



De espada em punho, armado,
Cavalga de coragem desfraldada.
De trilho em trilho, negro bosque,
Busca célere por sua amada,
Bela dama, donzela doce,
Dos seus braços apartada.

Chama-o a que é encantada,
Sortilégio, feitiço e magia que a prendeu,
Voz de melodia e rosnar… nada,
Que o trilho é finito na estrada,
Tão finito que se perdeu
Junto à cabana incendiada.

Abandona o corcel; é pranto
Que lhe consome o peito a arder.
É força efémera, no entanto,
A flor que renasce do perecer,
Cinza que incendeia, Fénix que ateia
Imortal esperança de a reaver.

“Cavaleiro de coragem viva
E bondade audaz” disse a flor,
Falando sobre a brisa que a envolvia,
Queimando a sua vida com o calor
Que o incêndio deixara na terra,
Tanto que a matava de dor.

“Sou a voz e o silêncio do Bosque,
Escuta-me e atenta:
Além há uma besta que sente,
Ferida no peito, tão doente.
Cura-a, mas sabe, então,
Que tem da tua dama o coração”.

De fragilidade esvaiu-se a flor,
Sem lhe dar tempo de a questionar,
Mas se terrível besta roubara de seu amor
O coração a palpitar,
Não lhe tinha qualquer favor,
Somente a vida para lhe tirar.

Caminhou bosque a dentro,
Passos pesados a esmagar
Gravetos, pedras, pequenas vidas,
Com somente raiva a trovejar,
Até à clareira onde jazia
A terrível besta a matar.

Era gigante e imenso,
Dragão ancião, Senhor do Ar,
De cujas escamas o brilho denso
Lembrava o das lâminas e do mar,
Onde mais do que tenso
Era o seu respirar.

Aproximou-se, empunhando a frieza,
E de dedos crispados na morte.
Passo ante passo, que era certeza,
Que o dragão teria nenhuma Sorte.
Roubara-a o futuro quando lhe tirara
Dos braços a sua terna consorte.

Contudo o espanto roubou-lhe o ar,
Ao chegar-se mais perto
Para o dragão poder espreitar.
Tremendo de medo, de certo,
Ali estava frágil, tão frágil, a donzela
Que morta acabara de julgar.

Recolheu-a, sem a besta acordar,
E tomou-a nos braços.
As lágrimas eram pérolas a rodar
No rosto ebúrneo e os cabelos baços
Emolduravam o desesperar
Que contorcia tão belos traços.

“Mata-o” sussurrou contra o seu ombro
Os soluços embargando-lhe a voz,
O corpo estremecendo de assombro.
“Mato-o, antes que mate cada um de nós,
Queimando-nos até sermos cinza
Com o calor que incendeia, fogo atroz”.

Não havia como discordar.
Apartou-a dos seus braços e afastou
Sua presença para a resguardar.
Foi quando o dragão despertou,
De orbes fendidos, azul profundo de lago,
Onde a sua alma foi mergulhar.

O corpo flutuou na corrente
Que era a memória daquele olhar.
Uma canção embalava-lhe a mente,
Sem palavras vãs, só o seu tocar
Tão íntimo de quem sente
Que há algo mais a recordar.

“É um feitiço, mata-a!” gritou a voz,
E ele despertou.
Fechou os olhos e a espada atroz
Caiu, cortou e roubou
O que era o antes, o agora e o após,
E a canção terminou.

Atrás de si ela riu,
Uma gargalhada que cresceu,
Dominou os bosques e fugiu
Com a sua dona que se perdeu
No covil de quem agiu
Em maldade e venceu.

Desvaneceu-se aos poucos,
Sortilégio, feitiço e magia… ilusão.
Só uma dama frágil, de cabelos soltos
Havia ali, e não um dragão.
Cego, tão cego, ao azul daquele olhar
Que reconhecera em vão.

Caiu junto dela e abraçou
O corpo que vertia o rio da vida.
Caiu e não mais a libertou,
Que era de eterna despedida,
Um abraço onde também ele deixou
Partir a própria vida.


St. George Slaying the Dragon, Hans von Aachen

Originalmente publicado em Fantasy & Co. 

sábado, 3 de janeiro de 2015

Treme entre os alicerces do que é



Treme entre os alicerces do que é
Hoje o contraforte do Homem,
Treme e expira a vida que é fé
A consumir o que consomem,
Quanto do que não é seu
E tudo o que é teu.

Treme e arranca-lhes as raízes
De ferro, que te magoa
A audácia da cobiça. Predizes
A queda da falsa ave que voa,
Sob a terra, sob o mar,
Vida tua que irás tomar.

Não contas o tempo, anos e Eras
São suspiros dos que vão.
Esses incontáveis, almas meras
Mas tão cerne de coração.
Treme e toma tudo, és Natura, Mãe e Pai
Daquilo que é e do que se esvai.


Sismo de Lisboa de 1755, artista desconhecido


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Vaza o sonho, ao longe


Vaza o sonho, ao longe,
Maré de imaginário, oscilação,
Que ora mergulha em si,
E vaza em perpétua direcção,
Para longe, tão longe, imensa,
A distante imensidão.

Ali é cerne aragem e torvelinho,
Correntes mil que agitam,
Volvem o consciente espírito,
E, sagazes, do íntimo cogitam
Oceanos, mares e rios
Donde os sonhos fluíram.


Diary of Discoveries - Vladimir Kush

domingo, 30 de novembro de 2014

Sonho o Inverno no teu cabelo



Sonho o Inverno no teu cabelo
Níveo, gota a gota, que derrete
Íngremes picos, frondoso gelo
Na Primavera que te acomete.

Conténs em ti a semente dita
Ser, em repouso e hibernação,
Latente, como quem hesita
Em abrir o coração.

Tão pétreo e frio,
Tão desprovido à despedida,
Toco-te o rosto, de mão estendida.

E abraço, abraço esse frio,
Que em toda a emoção escondida
Não há vazio, há vida.


sábado, 29 de novembro de 2014

Quando argumentam, as farpas rasgam



Quando argumentam,
As farpas rasgam com verdades,
Magoam e ferem a sangue
Se são susceptibilidades
O que te enche o peito.

Imolam o mesquinho da mente
Em férreo fogo, gume sagaz;
Retaliam, palavra a palavra,
Tuas, pois cada uma é capaz
De te ser íntima e derrubar.

Ao preconceito brindam,
Com veneno no vidro impregnado.
Quando o copo se partir,
Será corte e ardor danado
O da Razão.

domingo, 23 de novembro de 2014

É vazio o que enche



É vazio o que enche
O som das palavras idas,
Hirtas no significado feito
Só de letras caídas,
Sonâncias de eco mudo,
Mito que se permuta e ressoa
Naquele que é tão surdo
E Infinito.


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Desabrocha, Flor de Outono

Fonte: Pinterest



Desabrocha, flor de Outono,
Pétala a pétala. Suave e quente
É o tom que toca o olhar morno,
Qual aconchego do que é ente
De coração sentido.

Desabrocha à brisa fria,
Ensinando-lhe então o sorriso,
Quando és só melancolia,
Passo de dança entre folhas
De estação caída.


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Só assim irá Florir



Do correcto, o descontente
Revolve a terra.
Insinua que é demente
O dito que se quer escrever,
Insiste e grita, desmente
A verdade que rente
Desponta ao amanhecer.

A voz é tão alta que cega
Os ouvidos e ensurdece
A mente que se agrega,
Sem consciência, sem ser,
Néscia, tanto que renega
Apego ao que era
Opinar e saber.

E di-la daninha, a verdade,
Que daninha seja se persistir.
Que nomeie a raiz de profundidade,
E as folhas de perseverança.
O caule que persista à vontade
De vergar à sagacidade
De quem mata a esperança.

Só assim irá florir.


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Sorri

Pintura de Edward Robert Hughes

Sorri, antes que te caiam,
Uma a uma, as pérolas de marfim;
Esboça esgar, pinta nos lábios,
Sem carvão, sorriso para mim.

Livra-te da ironia, quero pois
Erguer singelo, não o decair;
Trejeito meigo, senão efémero,
Aquele que é teu sorrir.

Só, ele é candeia e luz, alumia,
Só, é brilho de tesouro, epifania,
De ser e não ser, estar e não estar.

Sorri, que é bússola de conceito
Esse tão teu trejeito,
Que me guia e quer tomar.





domingo, 7 de setembro de 2014

Ledo o sorriso que é Sol


Ledo o sorriso que é Sol,
Sob a sombra que o quer cegar,
Ledo o gesto que é flor
Ao vento agreste, tempestade,
Cujo intento é arrancar
Raiz, florir, sua vontade.

Ledo o toque que é sonho,
Sob o lento decair do Tempo,
Leda a palavra que aconchega
Ante a censura que a rasga,
Tão cruel, que é tormento,
E contudo não se apaga.

Leda a lágrima que é mar,
Sob as vagas do Mundo,
Leda porque é d'alento e mágoa,
Fruto que a vida deu,
Reflexo do que é fecundo
E do que faleceu.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Hoje, embala-me em ti


Hoje, embala-me em ti,
Gota de espírito de Verão.
Toma-me que sou Outono,
Melancolia e brisa extinta,
De folhas dispersas no chão.

Larva de sentimento que escava,
O que era contorce-se no coração,
Aprofunda e busca por nada,
Que nada é o que ficou,
Só aquele sentir, que é tão vão.

Abraça, canta e bane-a.
A dor que repica e ecoa é no mar
Escuma de lágrima e areia
Que em tempestade serena aguarda
Tua doce maré e teu embalar.

Sê berço do Presente, aconchego,
Meu, só meu, vasto mar.
Que nos teus braços adormeço,
Mergulho em ti e és sonho
De não mais acordar.


A Wooded Path in Autumn H. A. Brendekilde (1902) 


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Senta-te e aproxima-te do pensamento


Senta-te e aproxima-te do pensamento.
Observa-o ao largo, sem idade.
É tão demente que é são,
Alma tricotada a piedade,
E terrível besta sem coração.

Identifica-lo. Passo ante passo,
Cautela se é verdade que muta,
Conquanto indefinido. Olhar baço
De quem está e não está, permuta,
É brisa doce e suspiro de aço.

Então perde-te, na orla de floresta negra,
Onde o sopro tem perfume a maresia,
As folhas são de cor mil, oceano,
E o céu, teu, tão teu, é magia,
Mundo além, mundo arcano.

Imiscui-te. Idílico, vagueias
Onde o Nada, se labirinto, é escudo,
Compreensão de lâmina cega, espadachim,
Canto de quem tem o tom mudo,
Finito – quão finito? –, que não lhe vês fim.

Subsiste o complexo de raiz profunda,
Com e sem tronco, ignoto ao olhar.
Não o nomeies, é selvagem, etéreo, desnudo,
Do qual o grito, eterno rumorejar,
É o resto, e tão somente Tudo…

Faz do pensamento teu Lar.


quinta-feira, 10 de julho de 2014

Avizinha-te do pôr-do-sol


Avizinha-te do pôr-do-sol
E estende-lhe a mão.
Toca-lhe no raiar que se esvai,
Calor terno e sensação
De despedida ao partir.

Toca-lhe e pede
Para que não tarde em vir
No voo alto da aurora,
Ao escutar baixinho, só para si,
O bocejo da noite.


Golden Light of California, Albert Bierstadt

quarta-feira, 9 de julho de 2014

"Silêncio" sussurra o Vento



"Silêncio" sussurra o Vento,
No segundo em que tudo é ruído,
Tudo é denso e desatento.

Escuta-o a flauta que é seu soprar,
Escuta-o, que do silêncio
Nada mais irás escutar.

Não queiras Voar



Não queiras voar,
Que do voo vão é fogueira
Feita com penas de ar,
E insuflada a que se abeira,
De asas abertas, da ladeira,
Sem destino a rumar.


sábado, 5 de julho de 2014

Ladrão do Céu

Dark Phoenix
©Stephanie Pui-Mun Law, 2009




Estrelas…
Embalsama quantas houver no céu.
Esconde-as, é colheita do para-além,
Frutos vivos. Roubados são os espíritos,
Tão teus e de ninguém.

Que ninguém sabe que roubaste,
Segredo tão segredo, ao olhar
Cintilam alto no seu véu,
Espelho de jóia, é teu guardar,
Corvo eterno, ladrão do céu.

domingo, 15 de junho de 2014

Há Flores que Caminham



Há flores que caminham.
Sensíveis são os dedos de pétalas,
De ouro o cabelo, corola-de-rainha,
O busto de verde vestido é elegância,
As folhas asas do que se adivinha,
E as raízes pés descalços e substância
Que aviva, ávidas de dança, bailarinas,
Pares do áureo sopro que é Vento,
Vontade de ser semente e rebento
Lançado ao mais além, voo incerto,
Do que é viver.


quinta-feira, 12 de junho de 2014

Há quem não sonhe



Há quem não sonhe,
Só, nos braços de alguém,
Consciente da consciência que tem
O não ter utópico do mundo
Que viaja ao ser profundo,
Confim de paisagem distante
E tesouro de um sorriso privado.