domingo, 19 de outubro de 2008

Passado


Escuta-o reclamar,

Quem dita Presente e Futuro.

Do silêncio ergue-se soturno,

Cavalgando cumes de montanhas

E vales do outro mundo.

Possui o poder das Eras,

A força que das feras se extinguiu.

É o Passado, é ele que vos espreita

Nos confins esquecidos do tempo.

É ele, aquele que em piedade e dó

Se desmoronou para não mais voltar.

Mas voltou.

Presente e Futuro


Somos Presente e Futuro,

Aqueles que perseguem,

Linha após ante linha,

Presságios apaziguadores

Do nada que é tudo.

Sabemos a verdade da mentira,

Mentimos com verdades sentidas.

Controlamos. Somos o Destino.

Ordenamos, dos deuses servidores.

E contigo, mortal em nossas mãos,

Brincamos. Marionete de veias

Pulsantes de fulgor.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Meia Noite




Tic, Tac,
Doze badaladas,
Meia-noite
E o cuco a espreitar
Desta negra casa negra
Ao abandono do crepúsculo
Numa noite densa d'assustar.

Mochos, morcegos,
Corujas e fantasmas,
São esses!
Os que nos vêm assombrar;
Qual sinistra solidão,
Devassa escuridão,
Que nos espia ao luar.

Então corre, foge,
Escondamo-nos onde nos vejam,
Para não nos apanhar.
Coração aos saltos,
Azia intrometida,
Esta maldita falta de ar.

Soam passos,
O pó remexe
A uma corrente de ar
De uma janela por abrir.
Tic, Tac,
Doze badaladas,
“Buuuu!”
Meia-noite sem dormir.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Esperança

Não, não me deixes tu,
Tépida esperança do Viver,
Não apartes para as distâncias
Que essas vis te destroçam,
E mais que tudo te quero,
Para outros querer.

Pois ânimo és tu, o meu,
Nas reentrâncias da Vontade.
Oh! Ninguém crê, mas tu crês,
Que nada mais é a loucura
Que devaneios da verdade
De essência sua a mais pura
Esquecida do cego mundo
Que de tudo já nada vê.

Sopra que te oiço,
Sopra para outros te ouvirem
Neste cansaço meu.
Que soprei sem que me ouvissem,
Soprei em vão.

Resta-me tudo, mas nada tenho.
Só tu me esperas agora
Na indíspar solidão.

sábado, 4 de outubro de 2008

Sonho


Segue sabendo sonhar
Sadios sonhos solarengos
Sonha solstícios sazonais
Simples sonhos sedentos.

Semeia solos sonhadores!
Singra santos subentendidos!
Soletra sonhos s'esplendores,
Sorrisos seus, sentidos!

Sonha segredos segredados,
Sem secretos sinais.
Se sinfonias são, sonha-os...

Pois os sonhos são imortais!





(este poema foi dedicado à minha querida amiga Catarina ^^ )

Serpente

Em ti
Nasci e vivi,
Morri e nasci novamente,
Como que um vento
Que sopra dormente
Num leito consumido
Por um Deus eleito
Nas ameias do respeito.

Reforça-te, destroça-te,
Devora-te num esgar.
Sente os sentidos sentimentais
Servidos em santos
Sagrados por os demais,
E ergue-te do sono
Sonolento ou sonhador
Que sentado se encontra
Entre os anais de um andor.

Logo ouvirás o canto
Ou talvez o grito
De um aflito desdito
Que foge à fuga da manhã
Numa sorte ou azar
De um fado maldito;
Beijo esse que afastas
Num repugnante sorriso.

Por fim ascende-te,
Deambula no paraíso,
Revolteia as palavras.
Prende-te nesse dito friso
Que é a real vida
Da real serpente sem ela,
Fria, cruel donzela,
Mortalha de medo, e sim,
Coberta que a cobre
Num vasto deleite
Nascido em ti
Onde também eu nasci,
Nasci e vivi,
Morri e nasci novamente,
Como que um vento
Que sopra dormente
Num leito consumido
Por um Deus desfeito
E não eleito
Nas ameias do respeito.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Semeia...

.:Semeia migalhas de esperança

Correndo aos saltos de flor em flor:.





(Extremamente inspirador *cof cof*)

sábado, 20 de setembro de 2008

Perdão


Verdades são tuas, as do coração,

E que mentiras soam aos outros!

Dedilham cruas cordas de fulgor,

Fúrias essas só em ti criadas,

Fúrias essas só em ti domadas,

Em veias palpitantes da razão.

Mas de perdão inunda-se o amor,

Flor que desabrocha utopias

De belezas inominadas!

Clemência santa de criança,

É essa a Deusa nossa,

É essa que perdoa e ama!

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Era uma vez...



Era assim uma vez
Era segredo era guardado
Que bela insensatez
Que destino que fado…

Era anjo demoníaco
Era donzela era o mal
Era engano aflito
De entendimento mortal

Que inconsciente dardeja
Que resvala que perdura
Que sem riso peleja
Cruel desventura.

Era verdade escondida
Era isso (era mais!)
Era sanidade perdida
Em sopros vendavais

Que enaltece a loucura
Que ama que odeia
Que vence em bravura
E em coragem estonteia.

Era adaga assassina
Era chaga era dor
Era trindade divina
E um pouco de amor

Que vence lutando
Que conquista que... tudo
Que respira rezando
Aos céus de veludo.

Era uma vez um dia
Era noite era luar
Era uma vez a magia
Do Reino do Ar

Que navega cantando
Que desatina que abraça
Que dorme sonhando
Ao som da barcaça.

Era uma vez uma Era
Era que é Era que vê
Que por Ser prospera
Que era aquilo que crê.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Saber



Dizes que não sabes,
Hesitas por estranhar,
O que um dia conheci,
No relembrar do olhar.

De uma delicada ave,
O cantar do rouxinol;
De uma obscura candura,
O pintar do luar;
Da ancestral estrela diurna,
O dançar do pôr-do-sol;
De eras memoráveis.
A escrita milenar.

Prosa e poesia,
São insanos milagres
As dádivas da sabedoria,
Versáteis, hereges,
Curiosos em demasia,
Meus, teus, nossos,
Fecundos na eternidade
Do renascer a cada dia.

Sente-se na ingénua criança,
Vê-se no antigo ancião,
Da efemeridade de uma flor campestre,
À imortalidade de um deus pagão.
Em Atenas reflectidos
O saber e perigos louvados,
Em guerras épicas, vãs,
Aos credos renegados.

Encanto assombroso, dir-me-ás,
Encanto grandioso, dir-te-ei.
Vozes, cantares surreais,
Em musas, ninfas, sereias;
Mitos, lendas reais,
Que a sabedoria divina
Veneram em águas pousadas
De belas sagradas Nereidas.

Dizes então que não sabes,
Muito mais queres saber,
No relembrar do olhar,
De um sopro do Ser.

domingo, 7 de setembro de 2008

Insatisfação



O dia nasce negro
E o coração escurece
Perdendo-se no erro
De que a alma padece.

Espero e nada vejo…
Caminho e nada encontro!
Quem vê invejo,
Quem encontra desencontro.

Suplico e reclamo,
Devolvo o abandono.
Diabólico é o engano
E o abandono assombroso.

Digo-me insatisfeito
Quero infinitamente mais:
A revolta do defeito,
As lágrimas que chorais.

Lamento por não as ter,
Lamento por desconfiar.
Nada mais pode haver
Que a mim possas entregar.

O que és não interessa,
Não o quero saber!
Mas minha alma inquieta
O teu espírito quer ter.

Nada que dizes é vão.
Vejo o mundo no olhar,
Vejo no teu coração
O inocente sonhar.

Pois és tudo o que há,
O sensível sorrir,
És a vida que dá
Ao coração que sentir.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Raios de Sol


Por entre céus de cinza,

Escapam almejados alumiares.

Sorriem à esperança, deusa santa,

Acenam à alegria que encanta,

Suas lembranças e pensares.

E são divinos, seus amores,

Embalo onde por fim acordastes:

Dançavam frescos de esplendores,

Em brumas subtis que sonhastes.

Por isso, silêncio à voz tremida.

Não temais valente horizonte,

Pois eles bailam pela vida.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Contradição


Olha, não olhes, não voltes a olhar.
Sempre o mesmo que espreita escondido,
Cintando o nariz à cara na falta de ar
Complexada do vidro da janela partido,
Esburacado, com calhas de vales abertos.

Vergonhoso!
Vergonha na vontade de voltar
Aos verdes vales abertos da janela
Dessa corrente de ar e ver…
Ver que se espelham montanhas,
Torres que tocam no céu do mar
Num delicado, enternecido beijar
De ceda feita a cetim
Mergulhado no ouro ornamentado,
Rico, rugoso rubi afogueado
Da face de um jasmim.

Chega! Recua!
Não consumas o paradoxo do sonho!
Não te risques da vida,
Não te obliteres da morte.
Não queiras ser um Deus morto
Nem em morto queiras ser um Deus,
Pois não o serás, mesmo que a imortalidade te mate
E te erga da morte neste sonho vivo.
Não terás jasmins,
Não terás torres que toquem no mar do céu ou no céu do mar,
Não terás nada, nada terás.

Cansas-me…
Não persistas mais e vai.
Deixa a janela, o vidro, o espelho,
O reflexo, a verdade, a mentira, o que for.
Nem tentes compreender que a compreensão é divina,
E tu Deus não és, ninguém o é,
Todos o somos e tu não és todos.

Tomando em consideração sem fim teorias,
Peço-te, imploro-te! Ordeno-te!
Vai… Não! Volta!
Não sei já o que digo. Confundes-me
Ao tentar nadar nesse riacho navegante,
Submerso na verdade mentirosa,
Romeira antiga.

Se o Sol se põe na morte,
Se nasce na vida destinada a morrer,
O que faço aqui contigo? Espero o final?
Recuso-me, assim como recusaste ir.
Bom-dia para ti, boa-noite para ninguém,
E que ninguém seja a vida.
A vida depois da morte?
A vida depois da vida!
Grandiosa, bela, imortal na imortalidade.
Nasce por nascer,
Nasce por viver,
Nasce por nascer e viver.
Brinca no arco-íris da vida,
Do claro ao escuro e do escuro ao claro.
Sê criança. Sorri, chora, faz chover.

Harpas, violinos,
Cordas que embalam o medo de morrer,
Embalem-no até ao sono eterno
Porque nós queremos viver!
Conhecer o fogo que gela
E o gelo que queima,
Ver os anjos que se dizem demónios
E os demónios que se dizem anjos,
Queremos o tudo que parece nada na insignificância,
Queremos o sonho surreal da realidade,
Queremos algo.

Destabilizado,
O bater de um coração parado que reanima,
Doce, seguro, extasiado,
Encantado junto a todo o corpo,
Em harmonia com o ser,
Com a mente afadigada.

Estilhaça a janela que te entrava,
Enigma reflectido nas asas do tempo.
Dá-me a mão e voemos!
Percamo-nos nessas montanhas de vales verdes
Com jasmins de vidro rubro.
Percamo-nos no céu do mar,
Nas torres infinitas.
Percamo-nos num mundo finito sem fim
Onde não há morte, nem o fado maldito
Que se reflecte em mim.

Ó antiga donzela invisível,
Princesa temporal do tempo incontestável,
Hei-me aqui, servo, Deus, algo mais,
Se algo mais houver para servir.
Ó sonho sonhado em suspiros
No recobro da vida por ti!

Só a ti sou fiel,
Só a ti, borboleta pálida verde em mim.
Verde da natureza, verde de esperança,
Ver de verde, vale verde,
Cansaço da alegre vida onde por fim morri.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Espadas


Passos melífluos são esses teus que danças,

Singelos, de espadas cruas e frias.

Essas que não conhecem dono,

Essas que deslizam suaves,

Por encantos que conhecias.

E sem amor amado,

Fieis ao sangue que se destila,

Correram, de lado a lado, o peito

Que no seu seio sustia

Cada pedaço despedaçado,

Dissolvido nas cadentes brisas

Do eterno fado que perdias.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Retrato Negro


Crio e recrio entranhas,
Pinto céus de manhas
Tuas por prazer.

Sorris só por sorte,
Risonho consorte,
Que me consome no morrer.

E és beleza sem sabor,
Sonho rebelde e desamor,
De ameias desdenhosas.

Choras rimas de lamentos,
Gritas vis os desalentos,
Das tuas túrgidas rosas.

E sem crepúsculo, noite ou dia,
Definhas, sombra luzidia
De bárbaro bucólico.

Não és deus, e se anjo és,
Corrompes santas as fés
Do santo demo diabólico.

Perco assim vinganças
E lanço ao mar lembranças
Vãs de tão vazias.

Retrato a negro pintado,
Baço de apagado,
És descuido que por fim fugias.

Morte!


Morte às armas, morte aos barões!
Morte! Que o destino a espada é trespassado
Por sedentos e vis leões.
Morte! Que desgraçado é este Passado
Nas garras do tempo apagado.

Morte ao Império, morte às lembranças!
Morte! Que a esperança, essa última já morreu,
Nas ameias que entranças.
Morte! Que os mortos são o que prometeu
Aquele Futuro nosso que se perdeu.

E que Presente é este, meio morto,
Que se não dá ao prazer da vida?
É o que se esvai, de pensar, absorto,
Nos erros da vida ida.
Por isso, Morte! Que a vida é fingida.
(Dedicado aos grandes poetas Luís de Camões e Fernando Pessoa)

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Recordações

Cicatrizes, feridas por sarar,
Quem as não tem? Quem as não quer dar?
Em olhares, beijos, paixões,
Em segredos, as tristes recordações.

Descansam assim vendadas,
Adormecidas ou acordadas.
Guardadas em vitrais,
Belas caixas, cristais.

São elas de alegria ou tristeza,
De raiva ou cruel certeza,
De infortúnio, proibidos amores imortais,
Do nada que é tudo, do tudo que é demais.

Por revelar, reveladas,
Doces e mortais baladas,
Que embalam o desespero do ser
E o acordam no cruel sofrer.

Raiadas, cravadas em ti
Num brilho imperfeito de si,
Um brilho transcendente,
Só enfim, envolvente.

Infinitamente para lá do longe,
De longínquas preces de monge.
Compurgadas nas suas Catedrais Divinas,
Sagradas recordações paladinas!

Sempre ali, a olhar-nos, a perscrutar-nos, a tormenta de sonhos que nos sustentam. Umas mais intensas, outras nem tanto. Contudo, o valor de cada uma é mais que o outro por serem únicas. Diferentes na igualdade, diferentes na diferença… diferentes.
Em cada brilho que se reflecte no prisma do olhar, espelham-se milhares de recordações comprimidas na serenidade da luz, por vezes não tão serenas como se pensa, muito pelo contrário. Quando desejam são selvagens, indomáveis, consumindo-nos vorazmente, despedaçando-nos e colando-nos em perfeitos defeitos. São elas, três vezes belas, perfeitas, consagradas, eternas!
Nascem da infância inocente do descuido frágil das rosas, eternizam-se no clamor retumbante do saber dos anos… são marcas, estações onde o comboio parou para o embarque e desembarque de sentimentos.
E aqui, na vida unificada por cada um em sonhos, estão nítidas ou escondidas na penumbra que cerca uma alma angustiada em fortalezas cerradas, as recordações, as memórias, as reminiscências do Ser, presas incorruptamente por correntes de seda de um espírito eterno, num corpo efémero que irá perder a existência após o derradeiro e simples suspiro do fim.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Criança Viúva

Quem me diz, sempre diz,
Que viver em vida
É não espreitar a Morte,
E estar vivo por ela
É espera-la com um ramo de flores
Como se esperam os amores
Para um jantar romântico.

Se espreitas por postigos
As entranhas dessa viúva
Não esperes ventura que te venha,
Pois essa foi em vida
De uma azarada sorte,
Foi aos céus estendida
Ao embalo da mortalha,
A prestigiada Morte.

Criança era, frágil e sensível,
A quem detestam os vivos
Por ser enigma incontestável,
E, para alguns, mais que terrível.

Vive agora, palpável aos invisíveis,
Num frio que gela os sorrisos
Esperando quem espreita
Por cadentes postigos,
A criança viúva que se enjeita
Nas flores dos amores
Dos seus pares perdidos.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Morte


Dita-te afirmações argutas

De melodia vagueando ao vazio,

Esse redor de silêncio murmurante.

Espraia-se lento no horizonte,

Abraçando rimas decaídas

Quais vis derradeiros amantes.

E juntos são feitiço e feiticeira,

Revolvendo mundos desnudos

Em contendas desamadas.

Rilham assim flautas de ossos,

E unos no clamor divino

São mística morte ronronada.